442 Benfica

No que toca a sistemas de jogo, o 4-4-2 fascina-me por inteiro.

Seja em losango, seja no estilo clássico, considero-o, quando bem trabalhado, um sistema ofensivamente avassalador. Problema prende-se com a necessária sapiência defensiva do treinador que o trabalha. Se a vertente defensiva falhar, no que toca à reacção à perda, preenchimento de espaços, recuperação dos avançados na transição defesa/ataque, então 4-4-2 pode ser um sistema quase suicida e um estanque à evolução do modelo de jogo pensado com base nesse sistema.

Vejamos o exemplo do Benfica de Rui Vitória. No início da sua implementação do “seu” 4-4-2 no Benfica, o treinador ribatejano, usava um duplo-pivô com Samaris / Pizzi no meio, privilegiando a circulação da bola, a qualidade no passe e o jogo em posse, mas na perda de bola, a recuperação defensiva do Benfica era lenta, sem pressão, muito macia e tornava o meio-campo benfiquista muito frágil e susceptível de ser engolido por jogadores com maior intensidade na disputa.

Tentando reparar o erro, Rui Vitória, deslocou Pizzi para a direita, aproveitando o menor fulgor de Carcela e o ainda crescimento de Gonçalo Guedes, colocou Renato Sanches, um miúdo da “cantera” encarnada que preenche espaços, é forte no transporte, sabe jogar a 1/2 toques e abre sempre linha de passe viável ao colega em posse, na posição 8 e retirou Samaris que embora bom tecnicamente é permeável defensivamente e colocou Fejsa que oferece mais pressão, capacidade de choque, agressividade na busca da bola, quebra de linhas de passee e que protege e cobre muitos metros.

Esta maior solidez dada por Renato e Fejsa, aliada à ajuda de Pizzi que fecha muito bem em zonas interiores quando o Benfica está sem bola, deu mais liberdade aos “artistas”, Gaítan, Jonas, Carcela, para que criem ofensivamente sem estarem sob pena de ao perderem a bola e não forem eficazes na primeira fase de pressão, descompensem a equipa defensivamente e deixem o adversário criar superioridade.

O Benfica ganhou o miolo, libertou os criativos e mesmo a defesa, onde Luisão e Nelson Semedo estiveram/estão de fora por lesão durante alguns meses, com Lisandro e André Almeida a suprirem as ausências, foi ganhando confiança e uma maior solidariedade dos centro-campistas, o que dá superioridade defensiva a equipa, porque Fejsa e Renato são dois tampões quando o Benfica perde a bola e mal a recupera, Renato, principalmente ele, ora conduz e consequentemente acelera o jogo do Benfica ora sai a jogar em toque simples, fazendo a equipa avançar em progressão.

O 4-4-2 do Benfica 2015/2016 começou a carburar quando ganhou intensidade defensiva (dada por Fejsa), ocupação dos espaços e capacidade de acelerar o jogo em posse, (dadas por Renato) e um elemento que vindo da ala descai para o meio, sendo o terceiro homem do meio, abrindo também o flanco para o lateral subir para cruzar/tabelar com avançados, (Pizzi).

A força atacante no 4-4-2 de Vitória já la morava, Jonas, Mitroglou, Jimenez, Gaitan, Carcela, Talisca ou Guedes são fortes a criar, a inventar jogadas, a marcar golos, mas uma equipa não pode ser uma manta curta que quando ataca destapa a defesa, e quando defende destapa o ataque. Tem que ser um todo e subir e descer como um bloco. Parte da evolução da qualidade de jogo do Benfica advém desta metamorfose na colocação das pedras e na titularidade de Renato e Fejsa que funcionam num excelente binómio e trouxeram qualidade, serenidade, capacidade de luta e irreverência ao modelo do antigo treinador do Vitória.

Paulatinamente, jogo a jogo, foi ganhando a equipa, foi solidificando processos e o volume de vitórias e a redução da diferença pontual para o primeiro lugar e consequente ultrapassagem ao Sporting em Alvalade, galvanizaram adeptos e jogadores até ao clímax do título. Mas este título de campeão tem muito de astúcia táctica de um treinador que teve a humildade de mudar em prol do sucesso da equipa e da maneira como ela interpreta melhor o 4-4-2, com o qual tem uma grande identificação, do que o 4-3-3 que seria uma ruptura demasiado profunda nas ideias predefinidas pelo plantel.

Sobre o Autor

Rui Castro

Rui Castro, tenho 26 anos e sou apaixonado pela escrita e pelo futebol. Tento fundir estas duas vertentes e colaborar neste projecto e de forma a dar o meu contributo, para que juntos possamos descobrir novos talentos e escrever sobre eles.

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