Análise Shanghai SIPG

Análise Shanghai SIPG

Em novembro de 2016, André Villas-Boas surpreendeu o panorama futebolístico ao assinar um contrato milionário com o Shanghai SIPG.

Na época passada, na Superliga Chinesa, o emblema chinês terminou em 2º lugar a 6 pontos do campeão, Guangzhou Evergrande. Foram o melhor ataque da prova com 72 golos marcados e 4ª melhor defesa com 39 golos sofridos.

Na Liga dos Campeões Asiática, o Shanghai SIPG foi segundo na fase de grupos com 12 pontos, os mesmos que o Urawa Reds, tendo eliminado os compatriotas do Jiangsu Suning nos oitavos de final da prova, após vitórias por 2-1 em casa e 3-2 fora. Nos quartos de final, Villas-Boas eliminou Scolari no desempate de grandes penalidades depois de um resultado agregado de 5-5. Na primeira mão venceu em casa por 4-0 mas na casa do rival perdeu 5-1. Nas meias finais da prova, o Shanghai não foi capaz de bater os japoneses do Urawa Reds que acabaram por conquistar o título.

Na Taça da China, o técnico português chegou à final mas perdeu pelo critério de golos fora contra o Shanghai Shennua por 3-3.

 

Modelo de jogo: análise geral

O Shanghai SIPG estrutura-se num 4-3-3 que se desdobra várias vezes num 4-2-3-1 pela maior liberdade ofensiva que é dada a Oscar. A equipa procura jogar um futebol apoiado, progredindo no terreno através do passe curto, na qual a subida dos laterais (para dar largura) e a procura de espaços interiores por parte dos extremos (para criar desequilíbrios entre linhas), são movimentações comuns. Não raras vezes, a equipa varia a sua abordagem de construção, adotando um estilo de jogo direto, seja pelas dificuldades técnicas dos defesas em sair a jogar curto quando devidamente pressionados, ou pela tentativa de esticar jogo através de aberturas longas de Oscar.

Procurando um futebol dominador, a equipa adota um pressing zonal forte, geralmente a ¾ de campo (fora de casa, frente ao Guangzhou Evergrande, a equipa baixou um pouco mais as linhas), onde é visível uma preocupação por um acompanhamento individualizado aos dinamizadores da primeira e segunda fase de construção do adversário, aspeto que por vezes dificulta a gestão do espaço entrelinhas (nomeadamente quando os médios sobem a pressão).

Na transição ofensiva as saídas rápidas para o ataque são uma prioridade e a equipa manifesta regularmente uma organização defensiva que propícia isso mesmo (está bem organizada para atacar no momento da recuperação), conseguindo sair sempre, no mínimo, com 3 jogadores bem abertos. Já no momento da perda a equipa procura gerir momentos, pressionando rapidamente quando a situação o propicie, ou reorganizando o bloco defensivo, embora fique várias vezes exposta nas laterais pelo balanceamento ofensivo que os laterais oferecem ao jogo.

 

Organização ofensiva: análise específica

 

1.ªe 2.ª fase de construção: Dificuldades na saída em posse

Partindo para uma análise mais pormenorizada ao modelo de jogo da equipa, apesar do Shanghai SIPG procurar um futebol de posse, privilegiando o passe curto e ligações apoiadas entre setores (como é apanágio nas equipas de Vilas Boas), contra adversários mais fortes, que adotam uma postura mais agressiva no pressing, é notória uma clara dificuldade em sair a jogar curto na primeira e segunda fase de construção, sobretudo pela fraca qualidade técnica dos jogadores da linha defensiva. Assim sendo, muitas vezes a equipa opta por jogar direto na linha de ataque, seja por intermédio do seu Guarda Redes ou pelos defesas, sendo Hulk o jogador alvo. Este é também o comportamento geralmente adotado nos pontapés de baliza e em desvantagem no marcador perto do período final do jogo.

Contudo, no momento da 1.ª fase de construção, percebe-se que a ideia do treinador André Vilas Boas passa pelo recuo de um dos médios, sendo Odil Akhmedov aquele que melhor interpreta as ideias do treinador (jogando curto e seguro a um/dois toques, mas também explorando passes de rotura com qualidade). Por outro lado, Oscar assume-se como o principal dinamizador da 2.ª fase de construção, na qual procura introduzir verticalidade no jogo da equipa (variando entre o passe curto, longo e a condução de bola).

Figura 1: Descida de um dos médios para iniciar a primeira fase de construção. Akhmedov é quem acrescenta maior critério na definição dos lances, neste momento de jogo.

Figura 2: Oscar assume-se como o principal dinamizador da 2.ª fase de construção. A sua qualidade de passe e rapidez de desmarcação permite criar desequilíbrios interiores, ao passo que a precisão ao nível do passe longo permite mudar rapidamente a velocidade do jogo, dando maior imprevisibilidade ao processo ofensivo.

 

Jogo interior/ Exploração da largura dos laterais

Na imagem é possível constatar a relativa proximidade existente entre os três elementos que constituem o meio campo do Shanghai SIPG. Para garantir linhas de passe interiores e explorar o espaço entre linhas os extremos Hulk e Wu Lei derivam para a zona central, deixando aos laterais a tarefa de dar largura e também profundidade à equipa. A este nível Fu Huan destaca-se pela sua aptidão ofensiva, sendo várias vezes solicitado através de lançamentos em profundidade.

 

Fase de criação: Mobilidade posicional e velocidade de execução

A partir do momento em que o Shanghai SIPG se instala no meio campo adversário, a equipa de Vilas Boas entra nas fases de jogo em que se sente mais confortável (fase de criação e finalização). O poderio físico e capacidade individual de Hulk, aliado à velocidade e imprevisibilidade de Wu Lei, bem como à superior qualidade técnica e visão de jogo de Oscar, conjugado com o instinto finalizador de Elkson, garantem variadíssimas opções de jogo ofensivas, tornando o ataque do Shanghai SIPG bastante imprevisível.

A largura dada pelos laterais permite que os extremos Hulk e Wu Lei beneficiem de muita liberdade na zona central, procurando movimentações constantes entre linhas e combinações rápidas, juntamente com Oscar, que resultam várias vezes na exploração de espaços nas costas dos defesas. A inteligência de Elkson (ou na sua ausência de Wenjun Lü) na exploração da profundidade, ocupando espaços que “sobram” nas laterais, abre espaço na zona central para a entrada dos médios ofensivos que, pela superior qualidade técnica, rapidamente penetram em qualquer defesa a um/dois toques.

Figura 3: descaído sobre a esquerda Oscar é solicitado a dar início à fase de criação da equipa. Wu Lei aproveita a largura dada pela Wang Shenchao (que atrai o lateral adversário, criando um espaço vazio entre este e o central) para se posicionar entre linhas e receber a bola sem oposição. A partir do momento em que Wu Lei recebe a bola, a superior qualidade técnica e a velocidade da linha ofensiva do Shanghai tem tudo para criar situações de finalização com qualidade.

 

Na imagem é possível verificar os princípios fundamentais da fase de criação do Shanghai SIPG: largura (dada pelos laterais), exploração do espaço entre linhas (garantido pelos extremos). A isto alia-se a rapidez na troca de bola, mobilidade, deslocação e qualidade na reocupação espacial, aspetos que podem ser constatados no vídeo seguinte.

 

De salientar ainda as movimentações diagonais dos laterais no último terço, nomeadamente quando lançados em profundidade através de passes longos (mudanças de flanco), que normalmente visam criar instabilidade na defesa adversária, através de movimentações diagonais dos jogadores da zona central para a zona da bola, seja para receber em profundidade, seja para abrir espaços interiores.

 

Outras movimentações ofensivas

 

Lançamentos laterais: Hulk movimenta-se para receber (quer no lado direito, quer no lado esquerdo do ataque), Oscar ocupa a zona central e Elkson descai para a zona da bola. Objetivo: criar movimentações que permitam explorar passes de rotura nas costas dos defesas.

 

Ação livre de Hulk: Ocupação da zona central (costas do avançado). Objetivo: explorar as capacidades técnicas (remate, 1×1) e físicas de Hulk (condução de bola em velocidade) e criar desequilíbrios defensivos, quer com a penetração de Hulk em zonas de finalização, quer com a ocupação do espaço vazio deixado por Hulk (pelo lateral direito ou por um dos médios interiores).  

 

Transições ofensivas

Tendo por base princípios de pressão alta é natural verificar que o Shanghai recupera várias vezes a bola no meio campo adversário. No entanto, independentemente do local onde a bola é recuperada, verifica-se que a prioridade após a recuperação passa pelo ataque rápido à baliza adversária. A equipa consegue incorporar sempre, pelo menos, 3 jogadores nos ataques rápidos/contra-ataques que ocupam (bem) as 3 fachas (central e laterais). Wu Lei, Oscar e Hulk, pela rapidez e capacidade técnica, são jogadores extremamente perigosos neste momento de jogo.

 

Figura 4: O Shanghai SIPG procura pressionar o adversário de forma agressiva aspeto que lhe permite recuperar várias vezes a bola em zonas adiantadas no terreno. A preocupação passa por condicionar fortemente os jogadores responsáveis pela 1º e 2º fase de construção.

 

 

Final indesejado

André Villas-Boas sucedeu ao mítico antigo treinador do SL Benfica Sven-Goran Eriksson, com o objectivo de destronar a hegemonia do hexacampeão Guangzhou Evergrande (equipa treinada pelo antigo selecionador nacional Luiz Felipe Scolari) e guiar o conjunto de Xangai à conquista do primeiro título da sua história.

O conjunto orientado por Scolari foi mais forte e sagrou-se heptacampeão. O treinador português não resistiu à falta de títulos e acabou por sair do Shanghai SIPG, dando lugar a Vítor Pereira. O antigo treinador do TSV 1860 München volta a suceder Villas-Boas depois da sua passagem no FC Porto.

Sobre o Autor

César Cima

Nascido em 1986 ainda foi a tempo de acompanhar o final da era do futebol romântico. Licenciado em Ciências Económicas e Mestre em Economia Social decidiu aprofundar o fenómeno do desporto sob o ponto de vista económico, tendo já publicações científicas internacionais no ramo da competitividade desportiva. Paralelamente, é formado em “Scouting Nível 1 – Prospeção e Observação” e “Scouting Nível 2 – Análise Específica de Atletas e Equipas”, pela Quest – Soluções para o Desporto. Na época transata integrou a equipa técnica do S.C.Braga/AAUM na modalidade de futsal, sendo responsável pelo departamento de Scouting. Atualmente, é treinador de futebol nos escalões de formação do Dumiense F.C.

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