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Ensinar o Futebol no país do Futebol – O Santos de Jesualdo Ferreira

Jesualdo Ferreira chegou ao Brasil com uma tarefa de dimensão gigantesca. Transformar o glorioso Santos num clube capaz de voltar a vencer.

Já lá vão uns longos 16 anos desde o último triunfo no Brasileirão, e mesmo no Estadual, o jejum já leva três anos, mas nem por isso a exigência é menor. Há também a percepção de que individualmente o Santos está bem mais limitado que os outros grandes de São Paulo, para não alargar mais a comparação ao resto do Brasil.

No pouquíssimo tempo de trabalho – e quanto este é fundamental quando se pretende transmitir uma nova filosofia e promover aprendizagens de natureza táctica (individual e coletiva) – nota-se desde logo algumas particularidades que podem transformar o Santos no médio prazo numa equipa capaz de surpreender pelos resultados positivos.

Equilíbrio da Equipa e Domínio dos Jogos, são a chave do novo Santos.

Ainda que seja bastante prematuro, é já perceptível a forma como a equipa se move junta e de forma equilibrada. 

Trocou o descontrolo e a correria, por um futebol que se pretende mais inteligente – Recorde que por alturas do Estadual 2019, já o Santos havia sofrido duas pesadas goleadas perante equipas da Série B (Botafogo de São Paulo, e Ituano). A equipa de Jesualdo progride junta, chega à frente e tenta cercar os adversários no seu meio campo defensivo. Mesmo em posse, mantém a sua estrutura equilibrada para reagir a eventuais perdas. Caminha para ser uma equipa inteligente, capaz de ter bola e não se expor na perda.

O domínio intenso com bola que tem tido nas suas partidas, fruto dos posicionamentos com sentido que se desenham, trouxe um jogo de menor correria mas mais inteligência – Táctica e Emocional. 

Desengane-se, porém, quem acredita ser a tarefa do treinador português algo de fácil entendimento.  Numa realidade onde do ponto de vista táctico o jogo é pensado de forma diferente – mais centrado no individual e menos no coletivo — e essa é a razão pela qual o Brasil, país maior na produção de talento individual, não tem conseguido triunfar nas grandes competições – nem sempre é fácil entender um jogo que não aquele que era próprio de várias décadas atrás, baseado na correria e crença. 

Por isso Jesualdo Ferreira já foi questionado mais que uma vez sobre questões relacionadas com INTENSIDADE.

Ignorando-se ou desconhecendo-se que INTENSIDADE de uma equipa não é correr de forma individual. Intensidade prende-se com a velocidade das acções táticas em posse – e aqui a potenciação individual e coletiva dos jogadores aumentará gradualmente, como sempre foi apanágio nas equipas de Jesualdo Ferreira – e com a capacidade para reagir rápido após cada perda – pormenor onde o Santos já demonstra ter crescido de jogo para jogo.

Numa cultura brasileira onde o jogo é tido maioritariamente como algo de individual,  a INTENSIDADE é sentida como a velocidade do(s) deslocamento(s), mesmo que esta se associe tantas vezes a correria sem sentido – como se tal fosse positivo ou sequer um indicador de algo de bom na dinâmica de uma equipa de futebol. Também contra a cultura instalada na forma de ver um jogo com um futebol que está a léguas do seu máximo potencial, enfrentará o treinador português dificuldades várias.

Contudo, são vários os passos em sentido seguro e formoso que o Santos de 2020 tem dado em frente.

É a equipa com mais passes trocados no Paulista e a segunda com mais posse de bola na competição. Também pelos óptimos indicadores em posse no sentido de controlar os jogos – maior criação e finalização chegará com o consolidar dos processos – o Santos é a equipa com menos remates sofridos – e este é um indicador determinante para se perceber. Não sofre, não porque se remete à defesa mas porque controla o jogo atacando e reagindo na perda – não será por acaso que também é a equipa com menos perdas da posse de todo o Paulista. 

Eis o Santos de Jesualdo Ferreira, uma equipa que paulatinamente vai crescendo nos seus processos colectivos, promovendo também evolução individual.

Nota – A deslocação ao campo do Ferroviária ficou marcada pelo jogo menos conseguido do colectivo santista, naquele que pareceu um retrocesso às conquistas paulatinas no seu jogar, e também por isso se aguarda com expetativa o que virá.