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A simbiose entre o controlo do treinador e a liberdade do jogador

Um treinador, por qualquer que sejam as razões, tenta controlar o jogo de futebol, procura dominar, antecipar. Do caótico, do aleatório, da complexidade inerente ao jogo: organizar, tentar controlar, tentar que essa organização e controlo seja comum a todos os jogadores, de forma agirem com melhor e mais rápida antecipação, e que cada decisão de cada jogador seja entendida por todos. Utópico, sem dúvida!  «Aspiramos criar um caos organizado», comentava Pochetinno à alguns meses. Afinal, o treinador não viverá neste paradoxo?

O treinador não joga. O jogo de futebol pertence aos jogadores, e devem (e são) os jogadores os principais protagonistas dentro das quatro linhas. Assim, os jogadores devem ser guiados e não amarrados. Guiados, no sentido de haver um caminho a percorrer, mas um caminho livre de contornar obstáculos, de descobrir outros caminhos dentro do sentido traçado. Amarrados, no sentido de haver apenas um único caminho a percorrer.

“Não pode haver tática sem liberdade, e se não há liberdade no jogo, a tática converte-se em atos de obediência, sem nenhum valor cognitivo, escravizam o jogador e vedam o sistema” Lavera, citado por (Júlio Garganta, Hélder Fonseca, 2006

Um treinador, por qualquer que sejam as razões, tenta controlar o jogo de futebol, e a sua função passa por isso mesmo. Do caótico, do aleatório, da complexidade inerente ao jogo: organizar, tentar controlar, tentar que essa organização e controlo seja comum a todos os jogadores, de forma agirem com melhor e mais rápida antecipação, e que cada decisão de cada jogador seja entendida por todos. Utópico, sem qualquer dúvida.  «Aspiramos criar um caos organizado», comentava Pochetinno à alguns meses.

Porém, o treinador não joga. O jogo de futebol pertence aos jogadores, e devem (e são) os jogadores os principais protagonistas dentro das quatro linhas. Assim, os jogadores devem ser guiados e não amarrados. Guiados, no sentido de haver um caminho a percorrer, mas um caminho livre de contornar obstáculos, de descobrir outros caminhos dentro do sentido traçado. Amarrados, no sentido de haver apenas um único caminho a percorrer.

“Não pode haver tática sem liberdade, e se não há liberdade no jogo, a tática converte-se em atos de obediência, sem nenhum valor cognitivo, escravizam o jogador e vedam o sistema” Lavera, citado por (Júlio Garganta, Hélder Fonseca, 2006)

Aos treinadores: libertem o génio que está no jogador! É ele quem resolverá os problemas do jogo, com a sua criatividade, a sua capacidade técnica aliada à capacidade cognitiva. Quanto aos problemas do jogo mencionados, o autor (Jorge Castelo, 2008) afirma que cada situação de jogo exprime uma dimensão estratégica e uma dimensão tática única. Assim, poder-se-ão observar duas situações de jogo similares, mas não existem duas iguais.

Por isso mesmo, por não haver duas situações de jogo iguais, o caminho, o sentido proposto aos jogadores não pode ser feito de forma a amarrar o jogador. A liberdade, também ela organizada, parece-me fundamental naquilo que é a essência do jogo de futebol, um sistema aberto e dinâmico.

Liberdade? Mas não iria tornar o jogo ainda mais caótico, ou seja, corrompendo o que inicialmente referi no controlo e organização que o treinador, de forma utópica, procura? Aqui entra a própria organização dentro da liberdade. Vários autores vão ao encontro dessa mesma ideia, Guilherme Oliveira, citado por (Carlos Campos, 2008) diz-nos que «não pode haver criatividade sem organização, pois isso seria uma criatividade abstracta. A criatividade deve surgir em função de padrões comportamentais muito concretos e muito específicos.»

«Assim, para a criatividade se poder manifestar dentro de uma organização, há que criar as condições necessárias para isso (…) podemos dizer que o aparecimento da criatividade, dos desvios criadores, são treinados na medida em que se deve ajustar a equipa a isso, à possibilidade da emergência desse tipo de comportamento dentro de determinado contexto.» (Carlos Campos, 2008)

Fazer o jogador entender em que momentos pode-se libertar, pode-se dar ao luxo de expor toda a sua criatividade, o seu génio, parece-me essencial tendo em conta a literatura. Ou seja, criar contextos para isso acontecer em determinadas alturas do jogo, perante a organização do colectivo. A autora Marisa Gomes, citada por (Carlos Campos, 2008) é directa quanto a este assunto: «Acha que você é treinador se estiver sempre a dizer: faz isto, leva para a direita, e leva para esquerda…?  Não é treinador nenhum porque você não está a deixar decidir, não está a deixar que eles criem um sentido comum porque quem está a dar isso é o treinador, e depois chega-se ao jogo e o treinador não está lá para fazer isso.»

Também o conceituado treinador Rui Faria, com títulos Europeus como treinador adjunto de Mourinho e passagens nos principais campeonatos europeus, vai ao encontro da ideia de organizar o jogo, dando liberdade para os jogadores exprimirem a sua criatividade. Assim, Rui Faria, citado por (Carlos Campos, 2008) diz-nos sobre o equilibro entre a organização-liberdade o seguinte: «Digamos que é fundamental não inibir a criatividade mas é fulcral que isso esteja inserido na perspectiva do todo, pois tem que existir sempre esse suporte, isto é, não pode ser aleatória nem desinserida de um contexto pois ai estamos a desequilibrar a nossa equipa em vez de desequilibrar o adversário.»

Deve-se, portanto, criar meios, momentos e ocasiões, considerando em primeiro lugar o todo, o colectivo, para a criatividade e liberdade serem dadas ao individual. O colectivo é sempre a base de todas as acções individuais, mas não nos podemos esquecer que é o individual, que é a interacção do individual que faz o colectivo ser o todo.

Ainda dentro do mesmo tópico, Rui Faria indo ao encontro desta ideia, citado por (Carlos Campos, 2008) afirma o seguinte: «Nós temos de perceber e criar condições para que essa criatividade possa surgir sem pôr em causa a equipa e, esses jogadores, também têm que perceber que, em determinadas circunstâncias podem ser criativos, porque são as circunstâncias ideais mas que noutras circunstâncias têm que respeitar a ordem da equipa e não podem ser criativos porque põem em causa a equipa, porque está desequilibrada ou porque pode ser prejudicial por motivos de variada ordem.»

Concluindo, parece-me determinante o conhecimento do colectivo, e o saber que é o individual, a conjunta interacção dos indivíduos, que criam o colectivo. E dificilmente o contrário. A finalidade é o colectivo, os meios o individual.

Por isso mesmo, seja no futebol ou em qualquer desporto colectivo, a dificuldade está sempre presente neste mesmo ponto: criar uma ideia comum, única, com indivíduos a exporem a sua individualidade dentro e em prol do todo. Compreender este aspecto parece-me fundamental para o sucesso, e mais que compreender, pôr em prática tais questões não são de todo fáceis. E por isso, olhando à nossa volta, facilmente conseguimos distinguir os melhores dos medianos: aqueles que criam um todo, que dão espaço à liberdade individual, dentro de uma organização criada e planeada. E que em cima destas duas premissas, têm sucesso.

Bibliografia:

Carlos Campos. (2008). A justificação da Periodização Táctica como uma fenomenotécnica. 

Jorge Castelo. (2008). FUTEBOL – A organização dinâmica do jogo de futebol.

Garganta, J. e Fonseca, H. (2006) Futebol de Rua um beco com saída. . Do jogo espontâneo à prática deliberada.