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Jesualdo Ferreira: Perfil tático e encaixe no Santos

Jesualdo Ferreira é um dos treinadores mais bem-conceituados em Portugal. Com quase 40 anos de carreira, assume agora um projeto bem interessante no Brasil: o comando técnico do Santos.

Contexto

Tendo já treinado os 3 grandes, foi no FC Porto que se destacou: 3x campeão nacional, 2x vencedor da Taça de Portugal e 1x vencedor da Supertaça. Foi também bem sucedido no Egito onde foi campeão pelo Zamalek e mais recentemente no Catar, onde venceu um campeonato e uma Taça.

Jesualdo chega agora a um Santos que ficou no segundo lugar do Brasileirão em 2019, comandado por Sampaoli. A época foi muito boa para o Peixe, que passou a maior parte do campeonato no top-4, e praticava um futebol muito atrativo com o argentino.

O técnico português não vai encontrar as mesmas condições financeiras que encontrou, por exemplo, Jorge Jesus no Flamengo. O Santos tem algumas dificuldades financeiras, e o próprio presidente admitiu não fazer investimentos muito avultados.

Jesualdo Ferreira – Perfil tático

O professor aprecia mais um 4-3-3, mas não dá muita prioridade ao sistema em si, admitindo que o mais importante são as dinâmicas criadas pelos jogadores.

Jesualdo valoriza um 6 de qualidade, sendo uma das peças mais importantes das suas equipas. Dá equilíbrio defensivo à equipa, permite as subidas de laterais e médios e é muito importante na recuperação da posse de bola e no sub-momento de impedir a criação. No FC Porto teve Paulo Assunção, que era um 6 de alta qualidade.

No seu 4-3-3, os extremos não podem ser extremos puros: têm de ser 3 avançados, que saibam jogar por dentro e por fora. Por exemplo, no FC Porto Lisandro López tanto aparecia por fora, na linha, como aparecia em zonas de finalização.

Jesualdo adapta bem as suas ideias ao contexto que encontra. No FC Porto tinha avançados de qualidade como Quaresma, Tarik Sektioui, Lisandro López, Hulk ou Falcão. Enfim, com tanta matéria prima o técnico já explicou que o seu objetivo era aproveitar ao máximo as qualidades ofensivas da sua equipa.

Já no Al-Saad, Jesualdo encontrou um Xavi em fim de carreira e teve de ser inteligente com aquilo que pedia ao espanhol de forma a retirar as suas qualidades sem o prejudicar a nível físico. Xavi jogava praticamente como 10, com funções de organizar jogo, acelerar ou baixar o ritmo do jogo, e fazer o último passe aproveitando a sua qualidade na definição. Como não lhe pedia quase funções defensivas nenhumas, Jesualdo teve de equilibrar a equipa atrás e juntava Woo-Young Jung a Gabi para formar quase um duplo pivot defensivo.

Mas as ideias base de Jesualdo mantêm-se, vá para onde vá: posse de bola, triangulações, vários apoios e dinâmicas ofensivas.

Aspetos ofensivos

Na construção no meio campo é habitual ver nas equipas de Jesualdo um duplo pivot. Quando joga com um 6, como no FC Porto, víamos por norma Raúl Meireles juntar-se a Fernando ou Paulo Assunção para construir a dois. Já no Al-Saad Woo-Young Jung jogava lado a lado com Gabi e a equipa construía dessa forma. Os processos eram semelhantes aos do FC Porto, mas aqui devia-se à questão defensiva de Xavi, mencionada anteriormente.

Jesualdo valoriza muito um 6, mas o seu médio mais ofensivo tem muita importância nas dinâmicas ofensivas criadas. O técnico, no FC Porto, dava liberdade a Lucho para subir e funcionar como 10 na organização e definição de jogo; podia descair para a meia esquerda para fazer triangulações com Cristian Rodríguez; explorar o half-space para causar desequilíbrios; e podia aparecer também em zonas de finalização. No Al-Saad era Xavi que tinha estas funções, mais com mais limitações devido à idade. Era o médio mais ofensivo e jogava sempre perto dos avançados com objetivo de organizar jogo e fazer o último passe. Não fazia tantas movimentações como Lucho, mas fica a ideia que Jesualdo valoriza ter um médio com este tipo de características ofensivas.

Lucho era uma peça importante no FC Porto de Jesualdo

Jesualdo procura que os seus avançados façam várias movimentações de ataque à profundidade. No FC Porto a bola era-lhes colocada diretamente através de Helton ou por via de passes verticais. Mais uma vez a questão de explorar as qualidades dos jogadores: Hulk, Lisandro e Tarik são alguns exemplos de avançados que procuravam também jogar nas costas dos defesas para procurar as desmarcações. No Al-Saad isto não acontecia tantas vezes, mas os avançados tinham essa capacidade. Jogadores como Afif, Al-Haydos e Bounedjah eram muito rápidos e atacam bem os espaços.

Com avançados móveis, a frente de ataque tinha liberdade para fazer trocas posicionais de forma a desbloquear a defesa contrária. O objetivo também passava por fazer triangulações e depois colocar a bola em zona de finalização. No FC Porto eram habituais as trocas entre Lisandro e Tarik, com Lucho a ser importante para as triangulações. No Al-Saad era muito frequente ver essas trocas posicionais entre os homens da frente: Bounedjah, ponta de lança, aparecia várias vezes pela esquerda; e Al-Haydos, extremo direito, aparecia pelo meio.

Lisandro López era um dos goleadores do FC Porto

Os laterais no FC Porto subiam um pouco à frente da linha média, mais a servir como apoio e não tanto como extremos. Isto alterava-se dependendo do momento, havia alturas em que era necessário dar largura e aí já era diferente. No Al-Saad era semelhante, mas era mais frequente ver os laterais projetados e os avançados por dentro. Os laterais podiam ficar pela linha média caso os avançados abrissem, um pouco como acontecia no FC Porto.

As equipas de Jesualdo têm habitualmente uma transição ofensiva muito forte. A capacidade de progressão rápida dos laterais e avançados, junto à capacidade de definição dos médios torna a equipa muito forte neste momento.

Aspetos defensivos

No FC Porto, como Jesualdo tinha um 6 de qualidade, por vezes defendia em 4-1-4-1, com os extremos próximos dos médios para potenciar o contra-ataque após a recuperação. Se a equipa quisesse juntar mais o bloco e ser mais compacta, Raúl Meireles e Lucho recuavam para junto do 6 para formar uma linha de 3. No Al-Saad, devido à questão do Xavi, defendia em 4-4-1-1. O sistema em organização defensiva depende muito da intenção e das características individuais dos jogadores. Com base nisso, Jesualdo definia aquilo que pretendia.

Não era habitual ver o FC Porto a fazer uma pressão alta. A defender focava-se mais numa ocupação dos espaços, de forma a recuperar a bola ao intercetar passes ou a limitar as opções de passe adversárias pelo posicionamento.
No Al-Saad era semelhante, Jesualdo apostava na boa ocupação dos espaços como forma de impedir a criação adversária. Mas no Catar já pressionava um pouco mais, tendo as zonas de pressão bem definidas e variando a intensidade da mesma.

Com esta boa ocupação dos espaços, o FC Porto era uma equipa que não concedia muito espaço entre linhas. Procurava também cercar o portador da bola com os médios e/ou laterais para a recuperar rapidamente. Jesualdo atribui muita importância à questão da rápida recuperação da bola, seja através das zonas de pressão ou desta ocupação dos espaços.

Santos

O Santos tem um plantel muito interessante. Houve algumas saídas e algumas entradas para esta época, mas a base da equipa manteve-se. Vamos ver como a equipa jogou em 2019.

Marinho e Soteldo são os dois extremos da equipa, extremos puros. Desequilibram com a velocidade e drible. Sasha é o avançado, que tem capacidade para recuar para o espaço entre linhas, mas também pode aparecer na lateral. Este trio de ataque é muito móvel e procuram várias trocas posicionais para desbloquear as defesas contrárias.

Qualidade de passe de Sanchez e boa desmarcação de Sasha

No meio campo, Pituca e Alison são os médios com mais capacidade para desempenhar funções defensivas. Evandro é um médio completo, que ofensivamente se destaca pelo passe e exploração do espaço para definir. Joga mais por dentro para deixar Soteldo jogar aberto, como gosta. Carlos Sanchez é um dos jogadores mais influentes da equipa. É um médio com grande capacidade de chegada à área, forte na transição, e forte na exploração dos espaços, mas também tem qualidade na colocação de bola.

Os médios criam muitas dinâmicas entre si, e com os avançados. Sanchez combina bem com Marinho à direita, alternando ser ele a abrir e Marinho jogar por dentro. Se o médio centro esquerdo recuar, Soteldo joga mais por dentro dando espaço à subida do lateral. A construção pode ser feita apenas com o médio mais recuado, como um dos médios (sem ser Sanchez) se juntar a ele.

Dinâmica entre Sanchez e Marinho na direita

Na defesa os laterais não têm por hábito subir para funcionarem como extremos, devido às dinâmicas que os médios criam com os avançados. Mas sobem para serem apoios para os médios e avançados.

Os centrais têm boa qualidade de passe, e o Santos é uma equipa que valoriza a posse de bola e a construção desde trás.

É uma equipa que pressiona alto quando o adversário está na primeira fase de construção. No geral fazem uma pressão média/alta dependendo da fase e altura do jogo. Os dois médios juntam-se no processo defensivo, Sanchez fica mais à frente para preparar a transição ofensiva. Os extremos baixam, mas ficam próximos para preparar o mesmo momento.

Como Jesualdo pode encaixar e adaptar as suas ideias

 Jesualdo vai encontrar um plantel interessante, mas vai ter de preparar bem a transição das ideias de um treinador como Sampaoli para as suas.

No ataque, vai encontrar três avançados móveis e que atacam bem o espaço, tal como gosta. No entanto, Marinho e Soteldo não têm por hábito jogar muito por dentro, e isso será algo que Jesualdo certamente trabalhará. Em Sasha tem um avançado interessante, com capacidade para recuar, o que pode dar aso a novas dinâmicas. Mas Jesualdo já mostrou preferir criar essas dinâmicas com um médio, e Sanchez tem capacidades ofensivas muito boas. Pode ser uma espécie de Lucho do Santos, mas com menos qualidade no passe. Com a contratação de Raniel, o técnico ganha um avançado com capacidade de fazer as três posições do ataque, algo que certamente o agradará.

Jesualdo não terá um 6 ao seu estilo no plantel de momento, mas com os treinos pode trabalhar Alison, Pituca e até Jobson para essa função. Evandro é um médio completo, com capacidade para recuar para junto do médio mais defensivo. O meio campo do Santos é dinâmico e não encontrará muitas dificuldades em adaptar-se às ideias de Jesualdo.

Na defesa, saíram Gustavo Henrique e Victor Ferraz. O primeiro era um central de qualidade, com muita segurança com bola nos pés. Jesualdo ainda fica com Lucas Veríssimo, também de qualidade, mas talvez terá de rever as suas opções para o centro da defesa. Com a saída de Ferraz, Madson vai competir com Pará para o lugar de lateral direito.

No geral, a equipa não deve encontrar muitas dificuldades para se adaptar às ideias de Jesualdo. Um futebol de posse, com construção curta, com mobilidade no ataque, são ideais que já estão enraizados no plantel.

Outro aspeto interessante, que o próprio presidente do clube priorizou, é o trabalho de Jesualdo com a formação. O professor sempre fez um bom trabalho com as camadas jovens e devido à situação financeira do Santos, isso é uma prioridade. Da academia já saíram grandes craques como Neymar e Rodrygo. Jesualdo terá à sua disposição uma equipa B que trabalhará para fazer o salto para a equipa principal. Jogadores como Kaio Jorge, Sandry, entre outros, estarão de baixo de olho do professor.