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NWSL: detalhes de uma final histórica

A NWSL, competição profissional de futebol feminino dos Estados Unidos, chegou ao fim este fim-de-semana, depois de uma final que fica para história entre as agora bi-campeãs North Carolina Courage e as estreantes na final Chicago Red Stars. Pela primeira vez na história da competição (desde 2013) uma equipa marcou 4 golos na final, demonstrando logo a superioridade que as NCC tiveram na vitória por 4-0.

Um resultado que, apesar do favoritismo da equipa campeã, não era de todo esperado. A equipa de Chicago não perdeu nenhum jogo frente às Courage durante a fase regular (1 empate, 2 vitórias) e era considerada a equipa em melhor forma nos playoffs, muito devido a Sam Kerr, avançada australiana considerada MVP da competição. No entanto, foi outra nomeada para MVP que acabou por se destacar: Debinha. A brasileira foi a craque da final e precisou de apenas 4 minutos para inaugurar o marcador. Não só pelo golo marcado, mas por toda a sua qualidade com e sem bola (algo onde tem melhorado imenso nos últimos anos), Debinha “jogou e fez jogar” todo o ataque das Courage.

Para quem não viu o jogo, um resultado de 4-0 numa final de campeonato merece bastante esclarecimento. O que se passou então? As duas equipas foram fiéis a tudo o que fizeram durante a época, no que toca aos sistemas táticos utilizados.

Começando pelas NCC, o onze inicial não surpreendeu, e o seu já conhecido 4-2-2-2 foi o normal. Sam Mewis e O’Sullivan como médios mais recuados, com o papel de ocupar o espaço à frente da defesa mas também de iniciar a construção de jogo da equipa (falaremos mais à frente). À sua frente, Debinha e Crystal Dunn são jogadoras bem diferentes uma da outra. A brasileira é quase um típico 10: tecnicista, excelente com bola, gosta de driblar durante largos metros quando tem bola e mantém-se mais em espaços centrais. Já Crystal Dunn é uma jogadora polivalente, que está habituada a jogar nos corredores e que utiliza o seu físico para se desmarcar com inteligência “um pouco por todo o lado”. Na frente de ataque, McDonald e Williams são duas jogadoras possantes fisicamente, muito rápidas e que gostam de se posicionar bastante no espaço entre as defesas centrais e as laterais.

O 4-2-2-2 das NCC em evidência, com as duas defesas laterais a apoiarem o ataque pelos corredores.

O domínio foi claro desde o início, com um golo madrugador e oportunidades claras a seguirem-se. A equipa de Chicago não conseguia responder às investidas das NCC, que defendiam e atacavam com muitas jogadoras. À equipa de Chicago faltou sempre largura (Nagasato jogou sempre muito por dentro, mas sem conseguir ter bola, enquanto McCaskill teve uma exibição para esquecer) e também profundidade (nem Brian nem Colaprico apoiavam o ataque, deixando DiBernardo e Kerr muito sozinhas na frente de ataque).

Um exemplo da falta de “ideias” da equipa de Chicago. Nagasato com bola e espaço (algo raro), Kerr entre as defesas centrais e mais ninguém a apoiar o ataque em zonas perigosas. NCC mostrou-se muito organizada para estes momentos, sabendo da qualidade das atacantes da equipa de Chicago (nomeadamente Kerr e Nagasato)

A superioridade com bola de North Carolina esteve relacionada com vários aspetos do jogo: maior capacidade de associar jogadoras no meio-campo ofensivo (ter dois pivots ajuda bastante na segurança para uma possível transição), superioridade ou igualdade numérica em várias zonas do campo e variação do jogo interior e exterior. Muitos destes princípios partem da maneira como a equipa sai a jogar, com Sam Mewis a descair frequentemente para um dos lados da defesa (algo que também faz regularmente na seleção dos EUA), libertando a lateral e criando superioridade de 3vs2 contra a pressão inicial de Chicago. No sector médio, existe quase um 5vs4 de North Carolina, com O’Sullivana a ajudar não só as duas centrais, mas também tendo a possibilidade de jogar de frente para o jogo no meio-campo.

Superioridade ou igualdade em quase todas as áreas do campo. O posicionamento de Sam Mewis destacado, assim como a quantidade de jogadoras colocados no sector intermédio do campo. As avançadas, como referido antes, sempre entre as centrais e as laterais.

Um lance de perigo esporádico da equipa de Chicago na primeira parte aconteceu quando, num caso raro, Nagasato teve bola e a equipa condicionou a marcação das adversárias com jogadoras em largura, profundidade e entre linhas, algo que foi muito raro durante todo o jogo:

Resumidamente, foi um jogo que ao intervalo estava resolvido. Vantagem de três golos, muita superioridade com bola e também o fator psicológico. Num jogo que teve lotação esgotada (mais de 10mil pessoas no estádio), destaque para muitos adeptos que viajaram desde Chicago e que, mesmo em desvantagem, sempre apoiaram a sua equipa. Uma homenagem também a Heather O’Reilly, jogadora que se despediu dos relvados com mais um campeonato e uma ovoação de pé por parte de todos os intervenientes do jogo que estavam no estádio.

Para terminar, o resumo do jogo: