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O sistema de Paulo Sousa no Bordeaux

O futebol praticado na França é caracterizado por um estilo de jogo relacionado ao físico e as transições constantes durante os duelos, que habitualmente se desenvolvem através do impacto das individualidades em detrimento de equipes que estimulam o estabelecimento de hábitos e comportamentos coletivos em prol de favorecer o contexto ao indivíduo. Isto é, os franceses ainda não possuem uma liga rica no aspecto tático, o que explica o rendimento de Les Bleus nos torneios continentais.

Nos últimos anos, houveram exceções de times que, a partir das ideias de seus treinadores, conseguiram representar algo distinto estilisticamente na Ligue 1: o Angers dirigido por Stéphane Moulin e o Stade de Reims de David Guion como exemplos atuais de equipes caracterizadas pelo aspecto defensivo ou o OGC Nice, antes com Lucien Favre e agora com Patrick Vieira, que privilegia o controle da posse de bola e o jogo curto e associativo.

Neste sentido, o português Paulo Sousa está representando um nome importante para a diversidade tática do futebol francês desde que assumiu o comando do Girondins de Bordeaux após a saída do uruguaio Gustavo Poyet. O ex-diretor técnico da Fiorentina estabeleceu, desde suas primeiras semanas de trabalho, um modelo de jogo que utiliza o domínio do tempo com o esférico como artifício para controlar e submeter o rival em um futebol marcado por uma vertente de estilo totalmente contrária ao que Sousa preconiza em suas crenças no esporte de bola redonda.

Após um início de época difícil, o Bordeaux conseguiu evoluir como um conjunto e já soma 19 pontos em 13 jogos na Ligue 1, com um desempenho acima das expectativas de um clube com investimento e plantel limitados

Modelo de jogo

Desde que assumiu o posto de diretor técnico do Girondins de Bordeaux em Março de 2019, Paulo Sousa utiliza dois desenhos táticos preferencialmente: o 4-4-2 em linha e o 3-4-2-1. Com intenções de buscar uma saída de bola curta e elaborada, um dos principais aspectos táticos a se considerar de seu trabalho são as variações conforme as fases do jogo.

Sem ir muito longe, é habitual que o português aplique funções diferentes aos seus laterais em ataque posicional, com um desempenhando o papel de terceiro zagueiro nas fases com o esférico enquanto o outro avança para gerar a largura necessária para fixar a última linha defensiva do adversário. Ademais, outra característica do trabalho de Paulo Sousa é a ocupação total dos espaços, com a presença de dois elementos entre as linhas rivais e escalonamento ofensivo com a divisão das dez peças em blocos de cinco jogadores (3-2-4-1 facilita a distribuição).

Após um início de temporada conturbado, com a derrota frente ao Angers por 4-1 no Stade Raymond Kopa representando o momento ruim com uma série de resultados negativos acumulados no período, o Bordeaux foi capaz de se recuperar e muito disso deve-se a insistência em suas próprias convicções por parte de Paulo Sousa, que mesmo com o desempenho abaixo do esperado manteve sua proposta por um estilo associativo e com protagonismo para a posse de bola e agora está colhendo os frutos da crença em suas ideias acompanhando uma evolução constante do GdB a nível coletivo. A seguir, uma análise aprofundada a respeito dos mecanismos ofensivos e comportamentos em fase defensiva e bola parada defensiva.

Ataque posicional

Buscando elaboração e saídas por baixo desde o goleiro Benoit Costil, a iniciação do jogo do Bordeaux fica muito por conta dos três zagueiros que assumem protagonismo para manter o esférico nos pés e ativar os meio-campistas nas costas da primeira linha de pressão, com Otávio e Aurélien Tchouameni representando dois ativos na construção ofensiva do Girondins na base da jogada. Porém, os comandados por Paulo Sousa sofreram recentemente com trabalhos de pressões altas sobre sua saída curta, com exemplos como os jogos contra Lille e Nantes nas últimas rodadas da Ligue 1 demonstrando que ainda faltam ajustes para enfrentar o trabalho de pressing dos rivais na França.

O jogo ofensivo do Bordeaux pode ser definido como um constante exercício de atração, já que buscam juntar muitos passes e atrair o adversário para seu próprio terreno com o objetivo de eliminar estas pressões e acelerar posteriormente.

O Bordeaux soma em média 53% do tempo com a posse de bola, realiza 11 finalizações por jogo e possui 82% de precisão em suas tentativas de passe segundo estatísticas do WhoScored

O mais habitual é a utilização dos avançados Nicolas De Prévile, Hwang Ui-Jo ou até mesmo o jovem Yacine Adli como os responsáveis por ocupar os espaços entre linhas; a função das peças que esperam a bola chegar nas costas dos volantes do adversário é fundamental, já que eles ativam os alas em vantagem tática com tempo e espaço para desequilibrar, o que explica o motivo de Paulo Sousa preferir os extremos Samuel Kalu ou François Kamano como elementos para gerar amplitude exterior e oferecer qualidades nas situações de 1vs1. Um mecanismo ofensivo típico do GdB é a atração do bloco defensivo rival por um lado com o acumular de jogadores em um setor para uma inversão buscando um dos alas no lado débil da jogada.

Com estes comportamentos automatizados, o Bordeaux consegue avançar em saída de bola nos momentos de iniciação, alcançar o terreno inimigo e produzir situações limpas de finalizações, com um conceito muito claro de atrair e condicionar a linha média adversária por dentro para desequilibrar pelos flancos.

O veterano atacante Jimmy Briand está funcionando muito bem como apoio para a ativação de um terceiro homem

Organização defensiva

Em fase defensiva, o Bordeaux não é um time que se caracteriza por exercícios de pressão em campo contrário por mais que mantenha uma linha de agressividade ao portador da bola. Como mencionado, o time dirigido por Paulo Sousa varia entre defender com linha de quatro atrás para defesa de cinco homens dependendo da referência individual do extremo que atua como um ala. Normalmente posicionam-se em um bloco médio em 4-4-2 e aplica muito dos princípios do controle de profundidade defensiva através da orientação corporal da última linha de defensores, no que também é conhecido como bola coberta e descoberta (a relação entre pressão sobre quem está com o esférico e a altura e posicionamento da linha defensiva com um possível passe em profundidade).

Bola parada defensiva

Como percebe-se no vídeo abaixo, a bola parada defensiva do Bordeaux em escanteios do adversário é puramente zonal, com habitualmente oito jogadores tendo referência no espaço para defender e dois na posição de rebote: