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Entrevista – Bruno Pereira

Fomos entrevistar Bruno Pereira, treinador que já passou pelos escalões mais jovens do Sport Lisboa e Benfica, pela equipa sénior feminina do Clube de Futebol Benfica e que agora está no Qatar, na reputada academia Aspire. Também faz parte de um dos mais conhecidos blogues nacionais, o Lateral Esquerdo.

 
 

ProScout: Quem é o Bruno Pereira?

Bruno Pereira: Sou, neste momento, mais um treinador português a seguir o seu caminho no estrangeiro. Estive até Setembro de 2015 ligado ao Sport Lisboa e Benfica, onde colaborei em diversas áreas ligadas à competição e às escolas de futebol. Estive também no futebol feminino, na equipa de seniores femininos do Clube Futebol Benfica.

 

ProScout: De onde surgiu a paixão pelo futebol?

Bruno Pereira: A paixão pelo futebol vem desde sempre. Faz parte das nossas vidas enquanto portugueses. Em desporto federado, pratiquei Polo Aquático, jogo muito diferente, que tem transfer quase directo para o Andebol.

 

ProScout: Como é que percebeste que era o treino aquilo que mais te apelava na vida?

Bruno Pereira: Joguei Polo Aquático durante 10 anos, percorrendo os escalões todos até aos seniores, e foi aí que ganhei o gosto pelo treino, pelo planeamento, pelo exercício, pela adaptação e pela variação. O fazer a mesma coisa de maneiras diferentes, vem daí. O treino no futebol veio um pouco por acaso, para ajudar um amigo, e de repente passou a ser um sonho, e felizmente, neste momento é a minha profissão.

 

ProScout: Sendo tu um treinador de formação, é isso mesmo que gostas e onde queres continuar, ou sonhas um dia chegar ao comando de uma equipa sénior?

Bruno Pereira: Muito sinceramente, não sei. A resposta a essa pergunta já mudou algumas vezes nos últimos anos, e ter trabalhado com adultos (adultas) no Clube de Futebol Benfica, fez-me ver e sentir que também sou capaz de fazer as coisas com os grandes. Mas no fundo… o que eu quero é ensinar o jogo, e ensinar através do jogo. Há muito mais que envolve o futebol do que aquilo que se vê acontecer dentro de campo. E aquilo que se ensina através do futebol, e não para o futebol, é muito apelativo. Isso pode acontecer em qualquer idade. Quero, no fundo, continuar a aprender, a ser posto à prova, a sentir que sou útil e a ajudar os outros.

 

ProScout: O que te levou a deixar Portugal e abraçar o projecto Aspire?

Bruno Pereira: Portugal é, neste momento, super competitivo para os treinadores. Principalmente em Lisboa. Aprendemos imenso e testamo-nos todos os dias. Mas o espaço de crescimento está muito limitado, e não tendo um passado como jogador significativo limita ainda mais as coisas pelo que o sonho de fazer desta actividade uma profissão, e de poder pensar em ter uma família, era quase impossível. A ASPIRE é uma oportunidade única, de fazer parte de uma academia com umas infraestruturas inacreditáveis, num momento em que o país está a fazer esforços muito importantes para que a cultura desportiva se desenvolva muito, pelo Mundial de 2022. Era uma oportunidade incrível, num momento da minha vida em que ainda fazia todo o sentido arriscar “largar tudo” e vir de cabeça para uma parte do mundo onde nunca tinha pensado viver.

 

ProScout: Quais são as principais diferenças que notas ao nível da formação entre os dois países? Julgas que as diferenças culturais entre os dois países ou entre o continente europeu e asiático têm influência nesse facto?

Bruno Pereira: Na formação, aquilo que salta mais a vista é o envolvimento das famílias com o facto de os filhos praticarem futebol. Em Portugal até nos treinos os pais estão super atentos, e nos jogos então, parece que estão a ver jogos de adultos. No Qatar, as famílias estão muito menos presentes e isso mostra o interesse que têm no jogo. Tem vindo a mudar, e nota-se aos poucos melhorias, mas vai levar o seu tempo até o futebol (enquanto formação e actividade desportiva das crianças e jovens) fazer parte da sua cultura.

 

ProScout: Sentes que há evolução nos jogadores? Crês que o trabalho que tu e os teus colegas realizam está a ser essencial para o desenvolvimento do jogador catari e do futebol no país? Achas que o país está no caminho certo?

Bruno Pereira: A minha experiência por lá ainda é reduzida, mas aquilo que vamos verificando é que todos os anos, o número de jogadores que merecem que estejamos com atenção cresce. Isso mostra que, não só aos poucos a quantidade de praticantes vai aumentando, como também vai melhorando o nível do treino e também o scouting. A tendência é para continuar a crescer, sendo que nos anos mais próximos do Mundial, se deverá verificar um enorme boom de praticantes. O facto de jogadores mundialmente famosos como Raúl, e mais recentemente o Xavi, terem ido para lá, e não só estarem a jogar, mas estarem permanentemente envolvidos no desenvolvimento do futebol, é um factor muito importante para o crescimento da modalidade. Atrai muita atenção dos media estrangeiros e locais também.  Aos poucos, o Qatar começa a ser cada vez mais visível no mapa.

 

ProScout: Ao longe, como tens visto a evolução da formação em Portugal? Achas que estamos num caminho mais certo? Os resultados vão atestando a qualidade do trabalho ou são principalmente consequência de emparelhamentos grupais ou de circunstâncias pontuais de um jogo?

Bruno Pereira: Há cada vez um número maior de treinadores mais competentes. Hoje em dia, há muitos jovens que querem ser treinadores e que se começam a preparar para isso mais cedo. Logo, o nível tem de subir. Falta, na minha opinião, duas coisas: um rumo definido, para que todos remem na mesma direcção – e nisto, estou a referir-me à federação, associações, formação de treinadores, opiniões dos jornais, comentadores desportivos e por aí fora. Não faz sentido ter a selecção a querer jogar de uma maneira e a escolher um perfil de jogador, e depois os jornais a dizer que isso é tudo errado e a fazer pressão para o treinador cair. Todos no mesmo rumo. O que é muito diferente de serem todos iguais. A segunda coisa que falta é uma uniformização na creditação dos treinadores. Não faz sentido que uma licenciatura que dura 3 anos tenha o mesmo valor no papel que um curso numa associação. Ou que seja preciso estar 1 ano à espera para que se possa inscrever para aprender mais qualquer coisa.

 

ProScout: Achas que estamos mais formadores e menos resultadistas?

Bruno Pereira: Todos os que jogam o jogo, jogam-no para ganhar. Competir é isso mesmo, tentar vencer o nosso adversário. A parte de “como queremos vencer” é que é decisiva. Temos cada vez mais competências a nível pedagógico, temos cada vez mais conhecimento sobre o desenvolvimento da criança e do jovem. Logo, é normal sermos cada vez mais formadores, não deixando de ser resultadistas.

 

ProScout: Será que cada vez privilegiamos mais o talento e a inteligência e não o físico e o rendimento imediato?

Bruno Pereira: Estamos todos muito mais alerta, e hoje em dia quase que se aponta o dedo a quem ganha nos escalões jovens. Muita gente diz que “ganhou, é porque não se preocupa com o desenvolvimento dos jogadores”. Mas, trabalhar bem, procurar dar oportunidade e desafiar constantemente os jogadores, os talentosos, os bons e os muito bons, ajuda a ganhar. Há-de acontecer sempre, aqui e ali, situações em que alguém procurou ser um pouco mais resultadista, mas acredito que acontece cada vez menos.

 

ProScout: Que achas da formatação de jogadores mesmo em alturas muito jovens (como Benjamins ou Infantis) por parte dos treinadores? Consideras que a limitação da liberdade para as crianças se recriarem e evoluírem em termos técnicos é nefasta para o desenvolvimento a longo prazo? A partir de que idade achas que deveriam ser introduzidos os conceitos tácticos aos jovens, ou melhor, desde que idade achas que a generalidade dos miúdos está preparada para absorver esses conceitos mais exigentes?

Bruno Pereira: Não é fácil responder a esta questão rapidamente. Para mim, muito mais do que “a partir de que idade se introduz conceitos tácticos”, é mais importante falar de “como se introduz conceitos tácticos”.  Uma criança de 6 anos não está preparada para ouvir falar em princípios de jogo, mas se lhe dissermos “se ninguém te chatear, vai para a baliza e tenta marcar golo” e se lhe dissermos “se o teu amigo tiver a bola, tens de te mostrar para ele te ver e poder passar”, ou se lhe dissermos “se o teu amigo estiver a tentar caçar a bola, vai ajudar”, estamos a falar de progressão, de criação de linhas de passe, de cobertura, que são conceitos tácticos importantes para dar continuidade ao jogo. Contudo, estamos a tratar disso de uma maneira que a criança percebe. O que é “parvo” é obrigar uma criança a passar a bola, só porque sim, sem ter ninguém a tentar caçar a bola, sem ter ninguém a impedir que ele vá marcar o seu golinho.

 

ProScout: Vai-se discutindo sobre a necessidade de existir treinadores especialistas em formação e treinadores especialistas em futebol sénior. Qual é a tua visão sobre o assunto? Achas que deveria haver uma estruturação da formação de modo a que os treinadores possam viver do seu trabalho nos escalões formativos e, desse modo, ser mais atractivo para os treinadores estudarem e investirem nessa área, melhorando a qualidade do trabalho para com esses jovens?

Bruno Pereira: É absolutamente necessário. O resultadismo nos escalões jovens vem muito daí. O treinador só é considerado competente se ganhar, se subir de divisão, se se destacar pelas vitórias. Só assim é que ele chega a um patamar que talvez lhe permita viver disso e realmente ser profissional. Mas porque não há-de alguém ser profissional (e entenda-se profissional como alguém que vive do que faz) a treinar sub-6 ou sub-8? A esmagadora maioria dos treinadores em Portugal acumula 3 ou 4 part times, para poder fazer aquilo que gosta.

 

ProScout: Olhando para o estrangeiro e pensando nos modelos espanhóis e alemães, qual é que julgas ser o pormenor mais importante para que as últimas fornadas de jogadores tenham muito mais criatividade ao serviço do colectivo e menos tendência para jogadas estéreis?

Bruno Pereira: Devido a algo que eu falava há pouco. Em Espanha e na Alemanha há mais pessoas a remar no mesmo sentido. E quando assim é, há mais pessoas a ensinar o mesmo. Um jogador que conheça o jogo, é muito mais versátil/adaptativo/criativo do que alguém que conhece a posição. Um jogador que foi Lateral Esquerdo toda a sua vida, está super automatizado a fazer x coisas de uma maneira. O jogo é sempre novo e diferente, e quem conhece o jogo está mais bem preparado para o jogar do que quem o sabe de cor.

 

ProScout: Como viste a conquista do Euro sub-17 por parte de Portugal? Uma consequência de algumas mudanças na formação ou ainda o aproveitamento de uma geração que estava fisicamente num patamar superior às restantes selecções?

Bruno Pereira: Foi um orgulho imenso ter assistido ao Euro de sub-17 deste ano, já que tive a felicidade de poder trabalhar com muitos deles directamente, e com outros como adversários. É uma conquista incrível, muito devido ao talento que têm mas muito também devido a estarem constantemente a ser postos a prova em condições de adversidade elevada. Há coisas que acontecem “graças a”, e outras que acontecem “apesar de”. Nessa geração há talentos incríveis, que vão de certeza chegar longe.

 

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ProScout: Como todos sabemos, Portugal ganhou também recentemente o Euro 2016. Jogámos de uma forma que vai muito contra a nossa cultura, numa dinâmica de ceder a bola e jogar na expectativa, retirando a bola aos nossos jogadores. Já que conquistámos o título a jogar desta maneira, achas que agora os responsáveis vão achar que é assim que resulta e vamos continuar com estes processos, mesmo que para isso se retire a bola aos Bernardos, aos João Mários, aos André Gomes?

Bruno Pereira: Não me parece. Gostamos demasiado do jogo para que ter a bola e desfrutar dela seja algo que se abdique. Ainda assim, esta brilhante conquista mostrou que somos capazes de ganhar. E se fomos capazes de ganhar uma vez, podemos ser mais vezes, e não há nada que nos possa impedir de o tentar de uma forma que nos dê mais prazer.

 

ProScout: Que jogadores esperas ver despontar provenientes dos escalões de formação nos próximos anos em Portugal?

Bruno Pereira: As gerações de 97, 99 e 2000 têm muita gente com muito muito talento. O que não quer dizer que cheguem todos “lá”.  Às vezes, basta o jogador A estar doente na semana em que alguém do escalão acima, ou até da equipa principal, não pode jogar para que se perca uma oportunidade de ouro de aparecer e depois fica “esquecido”. Nesta fase, em que os seniores estão mesmo ali ao lado, tudo pode acontecer. Esperemos que muitos deles consigam chegar a um patamar elevado. Quem gosta de futebol ficará entusiasmado de certeza.

 

ProScout: Que privilegias tu nos teus processos de treino, em traços gerais, tendo em conta a idade do praticante? Quanto tempo perdes a elaborar os exercícios? Rígidos ou abertos com escolha para o praticante?

Bruno Pereira: Apesar de considerar que há espaço para fazer quase tudo no treino, sempre que possível prefiro que a tarefa seja aberta. O jogo é de decisões e temos de as vivenciar constantemente. Tenho uma série de exercícios que me ajudam a resolver problemas típicos do jogo, e vou mexendo neles para adaptar ao contexto em que estou. Seja em Portugal, na China, ou no Qatar, os problemas do jogo não variam muito: ou não estão no sítio certo, ou não encontraram a solução certa, ou demoraram muito tempo a decidir. Os problemas são semelhantes. Muitas vezes, vamos adaptando durante o treino. Ou porque o problema foi solucionado, ou porque já apareceu outro, ou porque alguma coisa muito interessante está a começar a acontecer e queremos que isso aconteça muitas vezes. Isto dá para qualquer idade. Para poder ser mais especifico, esta conversa iria ficar muito longa.

 

ProScout: Qual foi o jogador treinado por ti que mais te encheu as medidas?

Bruno Pereira: Foram vários, por diversas razões. Muitos nem sequer têm hipóteses de chegar ao topo, mas naquele momento, foram incríveis.

 

ProScout: Algum que te fez chegar ao limite e não saberes mais o que fazer em termos de exercícios?

Bruno Pereira: Lembro-me bem de alguém que está quase-quase a aparecer – se for capaz de continuar a aprender e a querer fazer sempre mais e melhor – que me dava cabo da cabeça por, em 2 ou 3 tentativas, conseguir resolver sequências de relação com bola que tinham demorado horas a inventar e a ligar e a procurar coerência. E depois tinha a coragem de as fazer em treino e em jogo. Não vou dizer o nome, mas acredito que em breve será fácil perceber.

 

ProScout: Tens algum mentor? Com quem aprendeste mais até hoje ou te deu mais prazer em trabalhar?

Bruno Pereira: Não sei se se pode considerar mentor, mas há pessoas que têm uma tremenda influência na maneira como sinto e vejo o treino e o jogo. António Fonte Santa, Diogo Teixeira e Pedro Bouças. E mais dois, de uma modalidade completamente diferente, mas que são incríveis. José Curado e Olímpio Coelho.

 

ProScout: Qual o teu treinador preferido? Português e estrangeiro? Porquê?

Bruno Pereira: Só pode ser José Mourinho e Pep Guardiola. Mourinho, porque revolucionou a maneira de olhar para o treino, a liderança, a relação com os jogadores…tudo. Em Portugal foi um boom gigante graças aquilo que fez, e aquilo que se investigou sobre como fez. Guardiola porque pegou em ideias que já existiam, e conseguiu criar uma equipa que foi, sem dúvidas, a melhor de sempre. E mantendo algumas ideias, continua a revolucionar-se e a dominar, mesmo mudando muito os contextos.

 

ProScout: Sarri ou Tuchel? Simeone ou Klopp? Jorge Jesus ou Rui Vitória?

Bruno Pereira: Têm ideias quase antagónicas, e lideranças muito diferentes. Identifico-me muito com um clima de trabalho em que as pessoas são ouvidas, em que as relações são abertas e onde há espaço para toda a gente mostrar o que sabe. Esses tipos de liderança conseguem manter uma fase de rendimento durante mais tempo, já que os erros e as fraquezas de uns, são mascarados pelos outros. No fundo, é como o jogo. Um jogador que jogue sozinho, que queira brilhar sozinho, mesmo sendo muito bom, dificilmente está no topo muito tempo, mesmo que consiga conquistar coisas de vez em quando. Uma equipa, que partilha e que se ajuda, é sempre mais forte, mesmo que tenha líderes e que uns brilhem um pouco mais do que os outros.

 

ProScout: Concordas com a classificação dos treinadores como gestores e, por oposição, magos técnicos?

Bruno Pereira: Acredito que no topo, é mais fácil mascarar deficiências técnicas, do que deficiências de gestão. Quanto mais alto se está, mais importante é conseguir lidar com egos, com birras e com necessidade de brilhar, do que ensinar a fazer isto ou aquilo em campo. Como é óbvio, aquele que for bom em tudo, está mais próximo de se manter no topo.

 

ProScout: Há alguma oportunidade profissional que te fizesse voltar para Portugal, neste momento?

Bruno Pereira: Fomos muito bem-recebidos no Qatar, é um país muito interessante de se viver, e o projecto desportivo em que estou inserido é extremamente ambicioso e é um orgulho fazer parte dele. Muito dificilmente em Portugal, isto se for realista como é óbvio, pode surgir uma proposta que me faça voltar atrás.