Entrevista – Luís Berkemeier Pimenta

Entrevista – Luís Berkemeier Pimenta

Luís Berkemeier Pimenta, treinador português de 35 anos, fala 7 línguas e é no frio da Noruega que tem alcançado o sucesso, levando o Kongsvinger pela primeira vez nos seus 124 anos de história à final da Taça da Noruega mas o caminho não fica por aqui. Depois de no ano passado ter conquistado a 3ª divisão, este ano disputa o play-off de acesso ao principal escalão. 
 

ProScout: Quem é o Luís Berkemeier Pimenta e quando sentiu que o futebol era a sua paixão?

Luís Berkemeier Pimenta: Os sonhos de criança eram de ser jogador, mas felizmente rapidamente percebi que isso não iria acontecer. Nesse momento pensei dedicar-me ao estudo do jogo e, com essa decisão, começou a crescer a paixão pelo treino.

 

ProScout: O Luís está a dar nas vistas pelo excelente trabalho no Kongsvinger. Na época passada levou o Kongsvinger à conquista do 3ª escalão com 62 pontos, mais 20 que o 2º classificado. Esta temporada terminou em 5º lugar na 2ª divisão com 49 pontos, disputando agora o play-off de subida e a final da Taça da Noruega contra o Rosenborg. Quais são os factores que explicam este sucesso?

Luís Berkemeier Pimenta: Tivemos a capacidade de montar uma equipa homogénea no que diz respeito à personalidade e depois desenvolver essa consoante os valores do clube. É uma equipa muito jovem, solidária, ambiciosa e que acredita no processo (tanto do ponto de vista metodológico como de liderança). Esta personalidade colectiva foi sem dúvida o factor principal do nosso sucesso.

 

ProScout: Olhando para o que era o Luís e o Kongsvinger há dois anos atrás, na altura pensava que seria possível atingir este patamar tão pouco tempo?

Luís Berkemeier Pimenta: Quando há sintonia entre administração, equipa técnica e plantel dá para antecipar bons resultados e evolução a longo prazo. A escolha acertada do projecto foi fundamental.

 

ProScout: Como explica a escolha da Noruega para crescer como treinador?

Luís Berkemeier Pimenta: Tive a felicidade de ter sido a Noruega a escolher-me e não o contrário. Estava a seguir os meus passos em Portugal, mas houve quem acreditasse mais e quisesse dar oportunidade. Não hesitei

 

ProScout: Qual é a sua opinião sobre o nível de futebol praticado na Noruega e quais são as perspectivas para os próximos anos?

Luís Berkemeier Pimenta: O futebol norueguês tem uma reputação extremamente desajustada. Após há uma década terem começado a haver jogos oficiais em estádios com sintético, a nova geração evoluiu com atributos técnicos superiores à reputação internacional que têm. Outro factor surpreendente de discrepância entre o futebol praticado e a reputação é a intensidade e virilidade do jogo, que é bastante baixa. Esta discrepância deve-se sobretudo ao contexto socio-cultural: um jogador norueguês não precisa do futebol. Caso a carreira não esteja a evoluir conforme o desejado, opções de emprego em diversas áreas não lhe faltam (e muito bem remunerado!).

Último ponto que é importante destacar é a lealdade estratégico-táctica do jogador norueguês. Seguem o plano de jogo à risca. Isso cria um excelente ponto de partida para haver a possibilidade de, com um bom processo, desenvolver algo positivo a longo prazo.

 

ProScout: Lançando a antevisão do play-off de subida à 1ª liga e a final da Taça da Noruega, quais são os objectivospara o final da temporada e as dificuldades que espera encontrar dos adversários?

Luís Berkemeier Pimenta: Os adversários são bastante diferentes:

Para a Taça, contra o Rosenborg, há um desnível exorbitante em todos os aspectos (nenhum tipo de recursos é comparável). Apenas temos a vantagem mental de todos nos darem como mortos antes mesmo de chegarmos ao estádio. E não estamos.
Para o segundo jogo do playoff (entre as equipas da 2ª Div.), o adversário ainda está por definir (jogo entre eles será dia 19).
A final do playoff (contra antepenúltimo da 1ª div. – Stabaek), será repartida em duas mãos. Se lá chegarmos, serão dois jogos muito interessantes, contra uma equipa com sucesso recente (nos últimos dez anos, foi duas vezes 3º, uma vez 2º e uma vez campeão). Para além disso, têm princípios de jogo semelhantes aos nossos, muito devido a terem um treinador espanhol.

Como é lógico, independentemente da qualidade dos adversários, tendo em conta que apenas temos finais para jogar até ao final de época, o objectivo será sempre jogar para ganhar. Não existe outra opção em finais.

 

ProScout: Qual é a sua grande referência como treinador? Como é que se define enquanto treinador?luis

Luís Berkemeier Pimenta: Não me defino enquanto treinador. Qualquer definição é contraproducente para a desejada evolução. Considero-me um treinador em aprendizagem, em evolução; em, espero eu, constante redefinição. Não tenho referências, mas a nível pessoal, se pudesse escolher, gostaria de me sentar e partilhar ideias com o Brian Clough. Infelizmente já não vai ser possível.

 

ProScout: Como classifica a sua equipa? Quais são os pontos fortes e os menos fortes que caracterizam o Kongsvinger? Individualmente quais são os jogadores que destaca e os jovens valores que devemos seguir com atenção num futuro próximo?kongsvinger

Luís Berkemeier Pimenta: Como descrito acima, a personalidade colectiva é o ponto forte a destacar. Existe uma excelente harmonia no balneário e entre jogadores e equipa técnica. Sentimos que é um processo conjunto e não uma relação unidirecional. Isso nota-se no campo: há uma entre-ajuda muito acentuada tanto no processo ofensivo como defensivo. Os pontos fracos fora do campo são sem dúvida o baixo orçamento disponível comparativamente aos nossos adversários. Felizmente temos sido criativos e encontrado soluções, continuando a nossa evolução. Mas a realidade é que no ano passado estávamos na 3ª divisão e agora estamos a três jogos da primeira divisão e na final da Taça. Não enlouquecemos e não vamos sair do nosso orçamento. Necessário haver controlo emocional na gestão.

Relativamente às nossas lacunas dentro de campo, estarei disposto a responder após as finais. O Rosenborg tem um adjunto português e o Stabaek um principal espanhol.. e eles não andam a dormir.

 

ProScout: Como prepara a semana de trabalho e passa a mensagem ao grupo sobre o próximo jogo?

Luís Berkemeier Pimenta: Como sempre. O mesmo processo com apenas uma variante: viajámos a semana toda para um estágio em Berlim devido aos relvados naturais em Kongsvinger estarem gelados. Em contrapartida ao estádio nacional onde a final decorrerá, o nosso estádio tem relvado sintético e preferimos treinar em condições mais aproximadas ao contexto do jogo.

De resto, o nosso processo habitual (em conjunto com o treinador-adjunto Gonçalo Pereira), passa pela análise do adversário, a definição de estratégia de jogo, a divisão dos conteúdos prioritários pelas unidades de treino – leves adaptações ao modelo de jogo – a sua implementação, e a reunião de véspera de jogo com alguma informação adicional.
 

ProScout: A equipa técnica assume um papel fundamental na extensão das ideias do treinador. Como está dividida a estrutura de futebol do Kongsvinger?

Luís Berkemeier Pimenta: Um treinador adjunto, Gonçalo Pereira, que também é português e com quem já tinha estudado e trabalhado em Portugal. Devido a esse passado conjunto, o Gonçalo é alguém que percebe os conteúdos e que tem a confiança pessoal para me desafiar intelectualmente e sugerir soluções diferentes. Todo o processo passa pela nossa coordenação conjunta. Para além disso também é treinador principal da equipa B.  Um preparador físico (em part-time), responsável pelo trabalho desenvolvido no ginásio da parte da tarde.  Dois treinadores de guarda-redes, ambos voluntários. Um fisioterapeuta, também em part-time.

 

ProScout: Quais são os seus objectivos pessoais a longo-prazo?

Luís Berkemeier Pimenta: Neste momento apenas desejo olhar um dia para trás e ver três troféus nas primeiras duas épocas enquanto treinador.

Sobre o Autor

ProScout

A ProScout analisa o futebol do ponto de vista individual e colectivo, procurando identificar dinâmicas que possam ser discutidas no âmbito do contexto técnico-táctico.

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