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Entrevista – Nuno Gomes

Numa altura em que a época está a começar e com a aproximação do Europeu Sub-19, fomos tentar perceber como é que o clube que mais elementos coloca na pré-convocatória trabalha os jovens atletas. Para isso, entrevistámos o Director do Caixa Futebol Campus, Nuno Gomes, que hoje completa o seu 40º aniversário.

 

ProScout: Como se processa o recrutamento para a formação do Benfica e quais são as características que privilegiam?

Nuno Gomes: Eu tenho uma resposta logo na ponta da língua, que é, nós queremos os bons jogadores [risos]. Portanto como é óbvio, o Benfica está sempre interessado nos melhores jogadores e acima de tudo tem uma maneira de trabalhar hoje em dia, que consegue ter uma rede de observadores que abrange praticamente todo o país e portanto conseguimos estar presentes, espalhados por todo o país, conseguimos observar a maior parte dos jogos e também creio que não é segredo que o estar mais cedo ou ver os jogadores mais cedo, é sempre uma vantagem em relação aos outros, porque se pode ter uma avaliação melhor. Depois acima de tudo a relação com a bola porque cada vez mais cedo se estão a recrutar jovens jogadores e nestas idades há muitos que fazem a diferença porque se calhar já têm uma evolução física ou uma maturidade diferente porque cresceram mais rápido e nessas idades fazem a diferença mas muitas das vezes acho que o mais importante, acima de tudo, é a relação que eles têm com a bola e com o próprio jogo, os colegas, a maneira de jogar, a maneira de receber a bola, como é que são tecnicamente. Depois a questão física temos tempo para a trabalhar, porque se tu vires um miúdo que sabe jogar à bola, mas que se calhar não faz a diferença naquelas idades porque tem um físico mais débil em relação aos outros, não vamos deixar de continuar a observá-lo, porque damos primazia aos melhores jogadores.

 

 

PS: O papel da formação deve passar pelo desenvolvimento do jovem enquanto jogador e homem mas muitos clubes adoptam uma filosofia mais resultadista do que formadora. Como é que o Sport Lisboa e Benfica se posiciona relativamente a esta matéria?

NG: O objectivo ideal é conseguir conciliar as duas coisas, que é formar jogadores e conseguir títulos nos escalões mais jovens, mas o objectivo principal é conseguir proporcionar ao jogador as melhores condições para que possa evoluir no sentido de um dia poder chegar à equipa principal. Queremos acompanhar a carreira de um jogador para que ele nos possa servir e ser útil na equipa principal. É esse o primeiro objectivo. Como é óbvio queremos ganhar ao mesmo tempo que se faz essa formação. Não dizemos que não nos interessa o resultado, isso seria estar a mentir mas não é o mais importante. Mas acima de tudo o mais importante é conseguir acompanhá-los da melhor maneira no dia a dia para que possam chegar à equipa principal.

 

PS: Fala-se muito que vários clubes apostam em jogadores fisicamente mais desenvolvidos para obter melhores resultados nas camadas jovens. Este atributo continua a ter muita importância no processo de recrutamento do clube?

NG: O factor físico é importante até determinada altura porque faz a diferença, nós vemos jovens que se calhar estão mais evoluídos que outros fisicamente e conseguem até determinada fase da carreira fazer a diferença dentro do campo e acho que esses também ajudam os outros a crescer mas não é o mais importante, o mais importante é darmos tempo para que possam crescer da maneira mais natural possível. Sabemos que há jovens jogadores que crescem mais rápido que outros, hoje em dia há técnicas e maneiras de saber o quanto vão os jogadores crescer no futuro. Nós damos importância a esse facto, também é um dos métodos de avaliação, poder saber a altura daqui a uns anos, qual será a evolução física de um jogador, mas lá está, no futebol temos o exemplo do Messi e do Cristiano, que um é mais forte que o outro e são os dois os melhores do mundo, é muito relativo a altura, o peso, a força física,  se souberem jogar à bola com os pés [risos]. Acho que uma das armas principais é eles saberem jogar futebol e serem inteligentes a jogar, como é óbvio. É muito relativo, existe a tendência, hoje em dia, de o futebol profissional se tornar cada vez mais físico, é claro que o jogador mais forte fisicamente tem vantagem em relação a outros que não são tão fortes, mas esses menos fortes fisicamente, a maior parte do tempo têm outras armas que esses fortes fisicamente não têm. Nós não nos preocupamos em demasia com essa questão porque sabemos que o jogador de futebol bom, é bom por natureza independentemente do quanto vai crescer ou o quanto forte fisicamente será.

 

PS: Quais são as ideias que existem para a promoção de jovens de escalões etários inferiores a escalões superiores? Como se processam?

NG: Não é caso a caso, mas talvez geração em geração, porque há gerações que conseguimos essa promoção, jogar um escalão acima, e há outras gerações que se calhar não dão para fazer. Este ano deu-se o caso de termos oito, nove, às vezes dez jogadores na equipa B. Foi uma decisão nossa eles poderem jogar acima porque achamos que lhes proporciona outro tipo de jogo, outro tipo de competição que os ajuda se calhar a acelerar o processo de crescimento e de os preparar melhor para o futebol profissional. Corremos os nossos riscos, assumimos isso mas creio que proporcionamos um convívio no futebol profissional que é sempre importante e creio que esses jogadores estão mais preparados para dar uma melhor resposta quando forem chamados à equipa principal. Sofreu muito com isso a nossa equipa de juniores que ficou muito desfalcada, mas a importância de se ganhar títulos nesse caso não foi o primeiro objectivo.

 

PS: Essa promoção de jogadores é incompreendida por alguns adeptos que defendem a tese contrária. Afirmam que esta medida dificulta a conquista de títulos e que impede a formação de um espírito de vitória. De que forma vê esta corrente de pensamento?

NG: Temos este caso, por exemplo, que na equipa B este ano o plantel tinha muitos jogadores com a idade júnior e que pouco jogaram na fase final do campeonato de juniores mas quanto a mim eles conseguiram ter um ano de segunda liga que se calhar em termos individuais foi melhor para a evolução deles como jogadores do que no campeonato nacional de juniores.

 

PS: Disse em entrevistas anteriores que vê no José Gomes qualidades que o podem tornar no futuro número 9 da selecção nacional. Tendo sido ponta de lança, como é que explica que não existam pontas de lanças de créditos firmados em quantidade no nosso país? Encontra explicação para isso agora que trabalha nesta área?

NG: Isso não é de agora, já vem de há muito tempo. Portugal esporadicamente vai tendo um ou outro ponta de lança que faz a diferença, mas nos últimos anos tem-se debatido mais essa questão, desde o Pauleta, o próprio Hélder Postiga, eu, fomos os últimos, agora o Éder, Hugo Almeida. Já se debatia antes, eu próprio quando cheguei à selecção se falava nisso, porque Portugal jogava sem avançado, jogava o João Pinto adaptado, o Sá Pinto, antes disso tivemos o Paulo Alves, não tivemos muitas mais soluções, havia Fernando Gomes na altura, o Jordão. Nós sempre tivemos assim uma carência de muitos avançados em relação por exemplo a médios ou extremos, tem a ver com a nossa mentalidade, com o nosso país, com o nosso futebol. Se calhar por não produzirmos jogadores que estejam mais habituados, porque se formos a ver nas outras selecções, o estilo de ponta de lança que usam são os jogadores que estão ali para fazer golos e, se calhar, não participam tanto no jogo. Nós gostamos de ter a bola, de passar o pé por cima da bola, fazer umas fintas e conseguimos criar muitos jogadores com esse talento natural. É tudo uma questão de treino. Eu próprio não era um ponta de lança natural e quando subo aos seniores, não foi uma adaptação imposta porque gostava de jogar a nove, mas sempre fiz as camadas jovens como falso ponta de lança. Na minha carreira jogava muitas vezes sozinho, mas também jogava com outro ponta de lança porque eu próprio também gostava muitas vezes de não passar muito tempo sem contacto com a bola e o ponta de lança muitas vezes, se não tiver jogo, não toca na bola e a coisa torna-se aborrecida [risos].

Eu lembro-me que, quando subi aos seniores no Boavista, o Manuel José – que era o treinador na altura – disse-me: “tens de deixar de vir cá para trás fazer rodriguinhos, tens é que estar lá na frente. Habitua-te a estar lá à frente à espera da bola para metê-la lá para dentro, que é isso que quero de ti” e já na altura me dizia que “Portugal tem falta de pontas de lança e tu consegues fazer carreira [nessa posição] se quiseres”.

O José Gomes, vejo-o como um talento natural e nato para assumir essa posição, apesar de ele gostar também, porque é bom tecnicamente, de ter a posse de bola. É um número nove que pode fazer a diferença no futuro e pode chegar à selecção nacional por aquilo que temos visto na carreira dele. Ele próprio também o provou agora, no Europeu sub-17, que é um marcador de golos nato, tem esse faro pelo golo que é necessário nos pontas de lança mas é uma questão de trabalho. Nós também, os clubes, a selecção temos de identificar potenciais jogadores aptos para essa posição e depois trabalhá-los, incutir-lhes essa mentalidade de serem o homem golo, de terem paciência, pois muitas vezes durante o jogo só vão ter duas ou três oportunidades, e nessas marcar uma ou duas. Sei que há iniciativas para isso. Já alguns clubes e nós próprios trabalhamos individualmente os avançados. A selecção está a pensar – porque criou há pouco tempo um plano de desenvolvimento de áreas especificas em campo, onde começaram pelos guarda-redes – em também dar início a esse projecto de poderem trabalhar mais especificamente os avançados. Mas tem a ver com as culturas. A Alemanha fabrica mais pontas de lança do que nós, mas nós fabricamos mais extremos ou centrais, até porque é uma posição em que se formos frios, os pontas de lança têm melhor rendimento. Nós juntamente com a Espanha temos um sangue diferente dos Alemães [risos].

 

PS: É possível ver José Gomes na equipa B já na próxima época?

NG: Isso são decisões a tomar pelo clube, que vão ser ponderadas e como é óbvio o José tem possibilidades de poder chegar à equipa B, de chegar à equipa A se as coisas acontecerem naturalmente. Acho que não podemos estar com essa pressa de querer também fornecer o mais rápido possível jogadores à equipa A, equipa B e vamos analisar essa situação, vamos com calma decidir aquilo que é melhor para o José e para o clube.

 

PS: Outro tema que tem sido falado nos meios de comunicação social é a importância do futebol de rua. Como é que vê este tema? Partilha da opinião que o facto das crianças já não jogarem nas ruas com os amigos, sendo que alguns deles são de idades superiores, está de alguma forma a retirar criatividade e capacidade no 1×1 ofensivo aos jogadores que estão a ser formados de momento? Quais são as medidas que o clube tem implementado para contornar esse problema?

NG: O futebol de rua é importante quanto a mim, na própria relação com a bola, na própria evolução de um jovem jogador mas hoje em dia é complicado nós vermos jovens a jogar na rua porque a maneira como o país e o mundo está, quanto a mim a própria insegurança e a violência que se criou tira um pouco de jovens da rua e eu lembro-me na minha altura, eu pegava na bola e ia jogar para onde me apetecesse, até na porta da igreja jogava, a fazer de baliza, o átrio da igreja era o campo, mas era pedra da calçada e nós jogávamos ali, pegávamos em duas pedras e fazíamos uma baliza em qualquer lado e lembro-me que não tinha telemóvel, que os meus pais me viam sair de manhã e estavam o dia todo sem saber de mim mas sabiam que eu estaria ali a jogar futebol e hoje em dia é quase impossível um filho sair de casa e estar horas sem dizer nada aos pais e os pais não estarem preocupados, não é? Portanto, a solução encontrada pelos pais é poderem ocupar os tempos livres dos filhos em locais seguros. Há muitas escolas de futebol, escolas, colégios que têm ocupação de tempos livres. Se calhar, há uns anos atrás, não existiam essas opções e, por isso, estávamos a jogar na rua.

Há muitas escolas de futebol, há escolas, colégios que têm ocupação também de tempos livres, opções que há uns anos atrás não existiam e por isso nós estávamos na rua a jogar. Eu sei que há clubes hoje em dia que estão a pegar nessa ideia e proporcionar aos atletas, momentos diferentes em espaços diferentes que não sejam o sintético, que não seja a relva e acho que até é uma boa ideia porque isso também proporciona uma evolução ao atleta. Em relação aos nossos jogadores, temos pensado também nessas soluções, temos criado ambientes aqui dentro do Caixa Futebol Campus fora do horário normal dos treinos, principalmente aos jogadores que residem aqui poderem também ter actividades diferentes e um pouco aquilo que é o futebol de rua e estão pensadas algumas coisas que poderemos dentro em breve a começar a pôr em pratica, que vai de encontro a essa necessidade dos jogadores não ficarem só formatados para o treino que têm diariamente nas equipas, mas que possam também ser apresentadas outras situações em que lhes permita também estar num contexto diferente e evoluírem não só tecnicamente mas também em jogo com os colegas.

 

PS: Quais são as grandes diferenças entre o jogador português do seu tempo e o jogador português da actualidade? Considera que essa diferença tem a ver com a evolução do jogo em si, e se é positiva; ou acha que essa evolução tem levado à formatação do jogador, para que este se torne mais mecânico e menos criativo?

NG: Sim, há quem defenda essa teoria, que há um excesso de treino por posição e formatação dos jogadores em que depois o jogador é habituado a jogar sempre naquela maneira, naquela posição e depois com o passar do tempo só sabe jogar naquela posição e só sabe ter aquelas acções. Nós nos escalões mais baixos ali pelos traquinas, benjamins e infantis temos feito algumas acções internas para contornar essa situação e muitas vezes criamos uma espécie de liga interna onde os jogadores não podem jogar na posição habitual, mas em posições completamente diferentes daquelas em que normalmente jogam no fim de semana. Criamos também treinos em que isto acontece, do lateral direito ir jogar para médio centro e o ponta de lança para central, muitas vezes fazemos esses treinos com jogadores destros a jogar do lado esquerdo ou só com o pé esquerdo por exemplo, para gerar também outras opções, para melhorar também o conhecimento do jogo, para que nessas idades, o defesa possa perceber o que é que o avançado da sua equipa sofre ou o que é que tem de fazer, o lateral sabe assim os movimentos do médio, e não estão apenas formatados ou fechados naquele mundo que é a sua própria posição, para poderem experimentar outras posições. Muitas vezes também dá-se o caso de nós termos agradáveis surpresas de alguns jogadores de que nós à partida olhamos e que definimos que este jogador é desta posição e depois com o passar do tempo percebemos que se calhar pode ter outro rendimento noutra posição. Serve para ver também como eles reagem e para lhes dar o conhecimento do jogo de outras posições.

 

PS: Já falámos do José Gomes e da perspectiva de futuro que lhe fez. Como acha que se deve promover o desenvolvimento de jogadores para posições que parecem estar em défice no futebol nacional da actualidade: designadamente, guarda-redes, defesas centrais ou defesas laterais?

NG: Acima de tudo é necessário percebermos em que posições temos mais carência. Portugal vai tendo sempre excelentes jogadores, apesar de sermos pequenos como país, em comparação a outros mas temos a sorte de ter jovens jogadores muito talentosos, portanto essa carência é um pouco subjectiva porque se nós formos analisar o passado do nosso futebol português vamos encontrar sempre grandes craques em todas as posições, se calhar o avançado e o guarda-redes são aquelas posições que conseguimos à partida conseguimos identificar que há mais carência ao longo da história do futebol português. Mas sim, a ideia aí passa por criar projectos próprios. De vez em quando aparecem uns projectos de escolas de guarda-redes, uma ou outra para avançados que não tiveram se calhar grande sucesso, mas pode passar por aí, por criar projectos específicos só para quem quer ser guarda-redes ou para quem quer ser avançado e depois é necessário trabalho.

 

PS: Acredita que a experiência que teve enquanto jogador o preparou para o papel que desempenha actualmente? Ou teve de frequentar algum tipo de formação para fortalecer o seu conhecimento na área?

NG: Eu acho que não deixa de ser uma vantagem, uma grande vantagem, eu ter sido jogador e de ter feito ao fim ao cabo um percurso que os jovens jogadores estão a fazer e estão a passar. Também saí cedo da casa dos meus pais e fui viver na altura para o lar do Boavista, depois fui viver sozinho para uma casa, ainda jovem. É um pouco ainda a imagem que eu ainda encontro em jovens jogadores aqui, embora as condições não tenham nada a ver com as condições que apanhei há vinte anos atrás. As condições que existiam não eram as condições que vemos hoje em dia. Hoje, um jovem jogador que venha para o Benfica, para o Sporting, para o Porto ou até para outros clubes, que estão cada vez mais a direccionar as suas agulhas para a formação, como o caso do Belenenses, Braga ou Guimarães, que têm condições que eu, na altura, não tinha. Nas condições logísticas, não falta nada, às vezes até posso dizer até que são coisas demais para um jovem de catorze ou quinze anos [risos]. Tratamos da escola, temos um acompanhamento escolar que eu próprio não tinha na altura, safava-me sozinho e era até pouca ajuda porque os pais viviam longe na altura e portanto as condições hoje em dia melhoraram muito. A minha experiência como jogador e o percurso que tive como jogador jovem ajuda-me a lidar com estes jovens atletas, a perceber os receios deles, as dúvidas e, portanto, nesse sentido, considero uma mais-valia.

Quando terminei a carreira futebolística, quis ir estudar e ainda estou a frequentar a Licenciatura em Gestão Desportiva que, quanto a mim, é uma mais-valia para as funções que desempenho actualmente. Eu quando recebi o convite para assumir estas funções, não me passava pela cabeça que era isto que eu queria fazer, que era para aqui que eu ia direccionar a minha carreira fora dos relvados, mas aconteceu, surgiu o convite, eu ponderei e decidi aceitar este desafio que é enorme, porque é uma máquina muito grande e com muita responsabilidade mas como se diz, dei o peito às balas, e estou aqui para ajudar o Benfica a conseguir o principal objectivo que é formar jogadores para alimentar a primeira equipa e depois tenho uma equipa que trabalha aqui no Seixal que é fantástica porque me tem ajudado muito. Outra situação que gostava de falar em relação a isso é que também no meu tempo as solicitações que existiam eram muito menores do que existem hoje em dia e estou a falar por exemplo, na altura existiam se calhar quatro ou cinco empresários e hoje em dia existem quatrocentos ou quinhentos. E eu acho que há empresários que fazem mal aos jovens jogadores portugueses, que os iludem, bem como aos pais e que é uma desvantagem em relação àquilo que eu vivi, porque, na minha altura o sonho dos jovens jogadores era poderem ir para o Boavista, para o Porto, Benfica ou para o Sporting e se calhar muitos deles até pagavam. Hoje em dia, há empresários a prometer coisas a partir dos dezasseis anos que dificulta muito também o trabalho de muitos clubes portugueses e são empresários desses que fazem mal ao futebol.

 

PS: Ainda sobre o objectivo do Benfica de formar jogadores nas camadas jovens para chegarem à equipa principal, tivemos um caso de sucesso esta época transacta que foi do Renato Sanches, se esse caso vai ser para perdurar, se é um exemplo para todos os jovens que frequentam o Caixa Futebol Campus e se o Benfica nos últimos anos tem formado jogadores que chegando à equipa principal, em menos de uma época acabam por sair para clubes estrangeiros financeiramente mais fortes que o Benfica, temos o caso do Renato Sanches mais recentemente, o Bernardo Silva, o André Gomes, o João Cancelo e o Ivan Cavaleiro. Como é que o Benfica pode de certa forma formar os jogadores para a equipa principal mas conseguir mantê-los no plantel?

NG: Isso é uma excelente pergunta ao qual eu não consigo responder porque estamos económica e financeiramente longe como país, e não apenas ao nível dos clubes, daquilo que é praticado noutros países. Portanto o cenário ideal era nós conseguirmos formar os jogadores e conseguir mantê-los muitos anos no clube. Nós lutamos para que um dia isso possa acontecer e vamos fazer com que isso possa ser, futuramente, uma realidade, mas neste momento nós olhamos para aquilo que se pratica lá fora e é impossível competir. Já ao nível de condições nós somos tão bons, ou melhores até,  que muitos desses clubes. Porém, economicamente, esses clubes têm um poder financeiro contra o qual é impossível competir, não só ao Benfica, como aos outros clubes portugueses. A própria crise que atravessa o país leva a que muitas pessoas procurem sair para o estrangeiro à procura de melhores condições. No futebol é igual. Os futebolistas têm a ambição de poder ir para o estrangeiro, porque economicamente é-lhes favorável. Podem ter a ambição de ganhar uma Champions League por exemplo. Não acho que seja impossível o Benfica, o Porto ou o Sporting um dia poderem ganhar num futuro mais próximo mas que se formos analisar friamente, há sempre cinco, seis equipas mais candidatas do que as próprias equipas portuguesas e portanto não é fácil conseguir segurar esses jogadores na medida em que a vida deles economicamente dá uma volta muito grande e o próprio encaixe financeiro para os clubes é muito importante, portanto é sempre uma questão muito difícil de responder porque para dar a volta a essa situação se calhar temos que exigir aos jogadores algum sacrifício financeiro para poderem estar connosco e muitos deles não estão dispostos a fazê-lo.

 

PS: Qual é a estratégia transversal aos escalões de formação em termos de modelo de jogo? Isso influencia, de alguma forma, a criação de jogadores com um certo leque de características? Quais são as características que os treinadores devem apresentar para ir ao encontro do modelo de jogo que o clube pretende implementar?

NG: Nós temos uma maneira de jogar que à partida é transversal para todos mas depois cada treinador dá o seu cunho pessoal ou a sua maneira de treinar e de jogar, embora a ideia é não fugir muito uns dos outros, os treinadores são acima de tudo formadores de jogadores, é-lhes passada a ideia de que queremos formar jogadores e dar possibilidade destes jogadores individualmente poderem crescer como jogadores e também como homens para se tornarem activos importantes do clube e também para conseguirem o sonho que perseguem, que é chegar à primeira equipa. Talvez uma ou outra vez haja uma diferença de maneira de jogar ou porque o adversário é outro ou porque há lesões e olhamos para o plantel de um escalão e não se consegue jogar da maneira que queremos mas à partida a ideia é poderem seguir uma metodologia de treino e de jogo que é muito idêntica entre escalões e neste momento também com uma forte ligação à equipa sénior, porque o Mister Rui Vitória é uma pessoa que se preocupa muito com o jovem da nossa formação, que não tem medo de arriscar se achar que algum deles tem qualidade para jogar na equipa principal e portanto tem havido maior proximidade com a equipa sénior também nesse sentido. Temos estado todos em sintonia até porque podem surgir imprevistos na própria equipa A, e é necessário chamar jogadores da equipa B ou dos próprios juniores e nessa altura eles precisam estar preparados.

 

PS: Portugal foi campeão europeu Sub-17 com 5 jogadores do Benfica e no Euro Sub-19 foram convocados 9 atletas do clube. Isto é o reflexo do trabalho realizado nos últimos anos? O scouting do Benfica está atento a jovens jogadores de outras selecções?

NG: Sim, começando pela ultima parte da pergunta, sim, o nosso departamento de prospecção está atento também a esses eventos mas também a outros torneios internacionais que os jogadores participam com as suas equipas. Damos sempre prioridade ao jogador português e poucas vezes olhamos para aquilo que se pratica lá fora se não tivermos a solução internamente, ou seja se não conseguirmos detectar ou encontrar alguma posição que o Benfica esteja mais carente ou que haja uma posição que precisemos de reforçar, primeiro olhamos para aquilo que temos e só em último recurso lá fora. Mas sim, estamos atentos como é óbvio aos jogadores estrangeiros e aos jovens jogadores estrangeiros. Tem sido politica também nos últimos anos, termos alguns jogadores estrangeiros em que depositamos alguma esperança e iremos continuar a fazê-lo. Olhamos para o talento de um jogador e achamos que devemos contratar.

Nas selecções, sim, esse é o reflexo do bom trabalho que se tem feito aqui nos últimos anos, é poder alimentar também as selecções e tem sido hábito nos últimos anos o Benfica ter jogadores dos seus plantéis nas selecções. Também já cheguei à conclusão que especificamente os Europeus Sub-17, já há dois anos aconteceu, este ano poderá acontecer depois do Europeu Sub-17 os nossos jogadores, porque se calhar são em maioria, vêm fazer a fase final de juvenis e nota-se ali uma quebra do rendimento já que é natural depois de eles estarem num Europeu, chegarem cansados e a precisarem de férias. Não sei se o quadro competitivo poderia ser ajustado de maneira a que a fase final de juvenis fosse realizada antes do Europeu porque nós temos sofrido na pele os jogadores que vêm da selecção de rastos e que depois o rendimento não é o ideal, mas teremos que repensar essa matéria porque têm sido muitos os casos de jogadores e porque eles são muitos, porque eles são bons e a selecção precisa deles e eles vão e dão a resposta mas depois muitas vezes estão a chegar ao clube cansados para fazer uma fase final de Juvenis que é exigente. Nós gostamos muito de estar nas selecções, é bom sinal, é sinal do nosso trabalho e portanto o Benfica vai continuar como é óbvio a meter muitos jogadores na selecção porque o ultimo caso é deste Europeu Sub-19 que está à porta e que o Benfica tem nove jogadores e que deveriam estar a começar a pré-época para a próxima semana e só vão continuar no fim do mês se tudo correr bem para a selecção.

 

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