Entrevista – Pedro Bouças

Entrevista – Pedro Bouças

Pedro Bouças, treinador português que conquistou diversos títulos ao serviço da equipa feminina do Clube Futebol Benfica ao mesmo tempo que era coordenador da formação do clube e dava aulas de educação física. Criador do blogue Lateral Esquerdo, fala-nos um pouco de si e das suas ideias sobre o desporto-rei.

 
 

ProScout: Quem é o Pedro Bouças e quando sentiu que o futebol era a sua paixão?

Pedro Bouças: O Pedro Bouças é licenciado em Educação Física e Desporto pela Universidade Lusófona. Para além de treinador e criador do blog “Lateral Esquerdo”, sou também professor de Educação Física numa escola e no Estádio Universitário de Lisboa. O futebol é algo que vem de família. Desde pequeno que me acostumei a ir ao futebol com o meu pai, e portanto foi natural que o interesse fosse crescendo.

 

ProScout: O Pedro começou a sua carreira no 1º Dezembro como adjunto do plantel de seniores feminino na época de 2011/2012. Em 2013/2014, assumiu o Clube Futebol Benfica, cargo que abandonou esta temporada. Como explica a preferência pelo futebol feminino?

Pedro Bouças: Não há preferência pelo futebol feminino. O percurso é esse porque foi aí que as pessoas apostaram em mim. É um percurso de que me orgulho mas que findou recentemente.

 

ProScout: Olhando para o que era o Pedro e o Clube Futebol Benfica em 2013, na altura pensava que seria possível atingir um patamar tão elevado em pouco tempo com a conquista de uma Supertaça, duas Taças de Portugal e dois Campeonatos?

Pedro Bouças: Quando propus o projecto no Futebol Benfica a minha ideia era clara. Sagrar-me campeão nacional e depois sair. Hoje estou feliz por não ter saído logo após o primeiro título. Porque a seguir a esse vieram outros quatro, porque fui retirando prazer do que fazia e porque pude conhecer pessoas que me marcam a vida.

 

ProScout: Depois de ter terminado um ciclo no Clube Futebol Benfica podemos ver o Pedro em breve no futebol masculino? Fecha as portas ao futebol feminino nos próximos tempos?

Pedro Bouças: Há algumas coisas a surgirem no futebol masculino e se as coisas que tenho projectadas acontecerem, em 2017 estarei de volta ao futebol. Desta vez entrando pela porta de um futebol mais profissional. Mas no futebol tudo muda muito rápido e portanto resta-me aguardar com serenidade que o momento chegue. E naturalmente que as portas do feminino estão agora fechadas por mim.

 

ProScout: Qual é a sua grande referência como treinador?

Pedro Bouças: José Mourinho foi sem duvida uma espécie de primeira paixão, pela pedrada no charco que constituiu a sua entrada no futebol. Posteriormente, há que referenciar Guardiola. Mais do que vencer troféus, que também os vence e como ninguém, é um revolucionário. Conseguiu colocar em prática o que tantos apenas idealizam. Ficará na história.

 

ProScout: Como se classifica enquanto treinador?pboucas

Pedro Bouças: Alguém apaixonado pelo trabalho de campo, pelo modelar do colectivo e pelo potenciar das qualidades dos jogadores, em função de ideias comuns a todos. Alguém que valoriza a fidelidade a objectivos comuns em que o “nós” estará sempre ante do “eu”.

 

ProScout: Como prepara a semana de trabalho e passa a mensagem ao grupo sobre o próximo jogo?

Pedro Bouças: A semana é sempre preparada tendo em conta o modelo de jogo da nossa equipa e a forma como queremos que se comporte em cada um dos momentos e das fases do jogo. Procuramos retirar ao máximo o caos e a aleatoriedade do jogo, mesmo sabendo que esta será sempre elevada estará sempre presente. E naturalmente que dentro do nosso modelo de jogo há sempre lugar para pequenas adaptações estratégicas em função daquilo que será o jogo do fim de semana seguinte. Seja na forma como pressionamos, ou como construímos, ou como repetimos determinados comportamentos que sabemos que em função das características do adversário nos serão requeridos na competição.

 

ProScout: A equipa técnica assume um papel fundamental na extensão das ideias do treinador. Como está dividida a sua estrutura de futebol e as pessoas que integram a sua equipa técnica?

Pedro Bouças: Ao longo destes anos trabalharam comigo várias pessoas. O Bruno Pereira, o Manuel Cadete, o João Frutuoso e o Blessing Lumueno, todos eles integram hoje, também a equipa do “Lateral Esquerdo” e com os guarda-redes esteve sempre o André Rocha. Ainda que a última decisão fosse minha, entre nós tudo era partilhado. Todos tínhamos um papel activo não só no perceber que modelo de jogo adoptar, que ideias seguir, como na observação de adversários ou na definição do planeamento e na sua operacionalização. Isto obviamente porque há um reconhecimento da minha parte da enorme competência de cada um deles. Não eram só colaboradores. São também referências para mim. Todos eles foram elementos que acrescentaram qualidade. Eu apenas tive maior visibilidade porque a última decisão era minha! Ou seja, ao longo destes anos, sempre soubemos partilhar funções, em função da maior ou menor disponibilidade temporal de cada um, uma vez que estamos a falar de uma realidade amadora, e que cada um de nós teve sempre de conciliar o treino desportivo no Futebol Benfica com as suas profissões fora do futebol feminino.

 

ProScout: Há treinadores que valorizam muito a observação do adversário e outros que não lhe dão tanta importância. Em que grupo se insere?

Pedro Bouças: Na actualidade é decisivo perceber o que se vai encontrar na competição. Obviamente que mais importante que isso será ter um bom modelo de jogo. Um modelo assente nos pontos fortes das individualidades, e que esconda ao máximo o que há de menos bom nos nossos atletas. Mas, sem perceber o que se irá encontrar ao fim de semana na competição, será mais difícil preparar os jogadores para o jogo. Maior caos haverá e portanto menos preparados estarão os jogadores para dar respostas ao que poderá acontecer.
 

ProScout: Como coordenador da formação do Futebol Benfica, de que forma tentou melhorar aquilo que encontrou para tornar a mesma mais frutífera? Haverá mais Gelson’s ou Rúben’s Semedo na calha?

Pedro Bouças: Havia sobretudo que dotar os treinadores com formação para que partilhassem as mesmas ideias em termos de processo de treino e de modelo de jogo. Fiz algumas escolhas e ministrei algumas formações, por forma a ter treinadores com pensamentos comuns em termos do que é um processo de treino com qualidade, preocupado com tempos de empenhamento motor, com contextualização dos exercícios e com o potenciar da criatividade dos atletas. E também, com ideias comuns sobre o que é o jogo, os seus factores de rendimento e de que forma o podemos sistematizar, e que jogo pretendíamos no nosso clube.

Trabalhando melhor, estaríamos mais perto de voltar a ajudar os miúdos talentosos a chegar ao profissionalismo. Infelizmente não havia possibilidades financeiras de dotar o clube com um departamento de prospecção, o que nos dias de hoje é tão decisivo quanto uma boa formação, quando pretendes ter equipas competitivas e com qualidade.

Foi importante ir percebendo e avaliando todo o trabalho que é feito pelos treinadores para que se continuasse permanentemente a evoluir.

Dentro das dificuldades financeiras próprias de um clube desta dimensão procurei na minha rede de contactos encontrar pessoas competentes das diversas áreas que ajudassem os atletas em coisas tão simples como maior acompanhamento nutricional, nas lesões e prevenção destas e até na vertente social e escolar.

Promoveu-se também uma ligação muito forte com a comunidade envolvente, o que nos fez disparar o número de atletas no clube. Seja na competição ou na pré competição.

Também o trabalho e a relação mais pessoal com os miúdos e com os seus encarregados de educação foi decisivo. Fazê-los sentir o clube como uma segunda casa. Fazê-los sentir que há quem tenha planeado o seu desenvolvimento enquanto jogadores, que há quem se preocupe e esteja constantemente não só em contacto, como a tratar do seu crescimento. Foi muito por este trabalho que de uma época para a outra conseguimos preservar a grande maioria dos miúdos que foram assediados por clubes de maior nomeada. Os pais sabiam que eles ali iriam evoluir mais, pela qualidade do trabalho que desenvolvia em conjunto com o nosso leque de treinadores.

Criámos a primeira edição do “Torneio Aurélio Pereira” que tem sido um verdadeiro sucesso. Aliás, incrementámos de forma significativa a participação em torneios nos escalões jovens. O que por um lado nos permitia aumentar a competitividade das nossas equipas e proporcionar experiências variadas que ajudassem os jogadores a evoluir, e por outro servia sempre como momentos interessantes para observação de talentos de outros clubes…

Hoje, com a visibilidade que o Gelson e o Rúben trouxeram à formação do Futebol Benfica e com a subida da equipa sub19 ao nacional, fruto de um excelente trabalho do mister Hélder Clara, creio que será mais fácil atrair muitos e bons miúdos para o clube.
 

ProScout: De que forma vê clubes com menores recursos a trabalhar a formação?

Pedro Bouças: Por vezes pode ser ingrato. Porque no final da época todos são livres para sair. Perdi a conta ao número de miúdos entre os 6 e os 16 anos que saíram para clubes mais poderosos. E quando essas saídas ocorrem antes dos miúdos chegarem a iniciados, o clube formador não terá nunca direito a qualquer verba no futuro, porque não contará como formador.

Fica o orgulho porque se ajuda os miúdos a chegar mais longe, mas talvez devesse haver uma maior protecção a quem com menos recursos, não se coíbem de continuar a tentar dar as melhores condições aos seus atletas. E é importante referir que raros são os casos dos jogadores que chegam a um Sporting, um Benfica ou um FC Porto sem nunca terem representado clubes de outra dimensão. No fundo é sempre no clube do bairro que tudo começa. E sem o tal clube do bairro, quantos nunca jogariam sequer futebol? Quantos não teriam lá chegado?

 

ProScout: Quais são os pequenos pormenores em que crê que o futebol português pode melhorar no futuro próximo de forma a manter-se na luta contra as grandes potências mundiais?

Pedro Bouças: Ao nível dos clubes, trabalha-se bastante bem por cá. É por isso que continuamos a ser competitivos na Europa, tendo orçamentos infinitamente inferiores. Os nossos treinadores são bastante astutos e não será por acaso que temos um reconhecimento gigante no mundo. Temos gerações de jogadores cheios de qualidade a chegar a seniores e creio que nos próximos tempos continuaremos a ter uma selecção capaz de discutir jogos contra federações cujo leque de escolha em termos de jogadores federados nos é superior ou catorze ou quinze vezes. Mas, não podemos adormecer à sombra dos recentes êxitos. Há que melhorar o que temos sido com bola. Precisamos de mais gente com mais criatividade, com maior gosto pela bola e com maior capacidade para improvisar e desequilibrar com ela. Mas creio que o caminho está a ser percorrido…

 

ProScout: Se estivesse num cargo com poder decisório, que alterações implementaria ao nível da formação, da protecção do jogador português?

Pedro Bouças: Não sei se o jogador português está desprotegido. Creio que as equipas B têm contribuído fortemente para que apareçam mais jovens com qualidade. É um bom espaço para quem tem qualidade usar como etapa antes da chegada à primeira liga. Não posso dizer que sou contra a chegada de jogadores jovens estrangeiros. Só com um contexto forte os nossos evoluirão. E se não conseguem chegar lá, se calhar temos também de considerar que a sua qualidade poderá não ser a que desejávamos. Da mesma forma que faz todo o sentido termos os melhores a treinar e eventualmente competir em escalões acima, para que o contexto continue a potenciar a sua evolução, se os estrangeiros que chegam a Portugal servirem o mesmo propósito, creio que é algo benéfico. Talvez seja quem forma que mais precisa de uma protecção, uma vez que nos dias de hoje no futebol amador, no final da época todos os jogadores são livres. E é muito ingrato estar a colocar tudo de nós no desenvolvimento de determinado atleta durante anos e no final da época perdê-lo sem qualquer retribuição.

 

ProScout: É um dos mentores de um site de referência em Portugal, Lateral Esquerdo. Como nasceu o projecto e quais são os objectivos do mesmo? Como classifica o site em termos de alcance nacional e internacional?

Pedro Bouças: Nasceu de uma brincadeira com alguns ex jogadores meus. Eles tinham um blog e pediram-me que o lesse. Eu gostei do que vi e resolvi criar também um.boucas

No início o objectivo era claro. Demonstrar que o jogo era um jogo bastante diferente do que o comum dos mortais idealizava. Pretendia demonstrar que a táctica era o factor de rendimento diferenciador entre as melhores equipas e a tomada de decisão entre os melhores jogadores. Foi uma enorme pedrada no charco e serviu de influência a muita gente que hoje ocupa cargos importantes, seja na TV ou no futebol. Foi um projecto altamente bem-sucedido naquilo a que se propôs. Hoje, nada do que é defendido por lá soa a um língua estrangeira, mas há oito anos atrás praticamente ninguém tinha esta visão do jogo…

Sobre o alcance já falei um pouco, mas não posso deixar de referir também que o alcance é tão grande que hoje sempre que tenho oportunidade de falar com “famosos” do nosso futebol, sejam jogadores, treinadores ou comentadores, não há quem não conheça o “Lateral Esquerdo”. Aliás, tantos e tantos são os que pude conhecer pessoalmente fruto do blog. Mesmo que não se concorde com tudo, são milhares os que seguem.

 

ProScout: A título pessoal quais são as suas metas a longo-prazo?

Pedro Bouças: Não quero falar muito sobre isso, uma vez que aguardo com expectativa que algumas das possibilidades que tenho se confirmem. Mas posso sempre deixar no ar que a longo prazo me imagino bastante útil na estrutura de um clube de primeira liga.

 

O site Lateral Esquerdo é um dos nomeados nos Blogs do Ano na categoria de Desporto. Podem votar aqui.

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A ProScout analisa o futebol do ponto de vista individual e colectivo, procurando identificar dinâmicas que possam ser discutidas no âmbito do contexto técnico-táctico.

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