Entrevista a Rui Sousa – o analista português campeão da Série B

Entrevista a Rui Sousa – o analista português campeão da Série B

O América Mineiro conquistou o título da Série B em 2017 com uma campanha muito positiva, fixando um novo recorde no que toca a golos sofridos. Apenas 25 golos em 38 partidas.

O emblema de Belo Horizonte (MG) é orientado por Enderson Moreira e conta com o contributo de um português na estrutura do clube. Rui Sousa é um dos principais responsáveis pela evolução do Centro de Análise de Desempenho e Mercado do América.

 

ProScout – Começaste por colaborar no departamento de scouting do FC Infesta, tiveste a teu cargo a gestão de uma escola de futebol, passaste pelo Atlético Paranaense, Ferroviária e agora acabaste de subir ao Brasileirão com o América Mineiro, como foram todas estas mudanças?

Rui Sousa – Primeiramente, depois de ter acabado o percurso como jogador – e este percurso foi feito nas distritais da AF Porto – creio que investi na área com a realização do curso de treinadores, porque eu acho que é fundamental a gente conhecer o jogo para a partir de aí ser um bom observador e seguiram-se vários outros cursos nesta mesma área, cursos em Inglaterra, uma pós-graduação da área, alguns cursos administrados pela Quest, que é uma empresa especializada no próprio processo de observação e análise. E, portanto, acho que esse terá sido o inicio.
Posteriormente através desse networking e desses cursos que fui efectuando, o conhecimento de uma outra pessoa na área no Brasil, permitiu-me várias vezes a ida lá e que me fez interagir com alguns profissionais (no Brasil) e acho que a partir daí foi tudo uma questão de relacionamento, de trabalho, talvez competência e que tenha estado a interagir directamente porque acho que sem isso não é possível evoluir e a chegada ao Atlético-PR, talvez, eu diria que é o maior marco desta minha passagem por um processo de selecção, pelo qual eu passei e depois então com estas parcerias que o Atlético-PR acabou por realizar, quer na série C com o Guaratinguetá quer com a Ferroviária para o Campeonato Paulista de 2016 já inserido nas próprias comissões técnicas e por último depois no América-MG também na comissão técnica onde estou até hoje.

 

PS – Quando foi feito o convite para te iniciares nesta área e como te preparaste para estas funções? Que conhecimento tinhas na área do scouting?

RS – O fruto da passagem pelo futebol, de jogar e gostar do jogo, eu creio que o desempenho destas funções e de qualquer uma outra dentro de qualquer área merece, obviamente, uma preparação e acho que foi por aí que o sucesso dentro da área e as competências foram aparecendo através desses cursos que falei anteriormente. Esse inicio, eu diria que começou no Infesta junto com o professor José Manuel, na altura para estruturar o clube do ponto de vista da observação de jovens jogadores para as suas categorias de base e também para o elenco do plantel sénior. O conhecimento que eu tinha do scouting era muito curto, aliás, acho que há uns 10, 15 anos atrás esta área tem tido um desenvolvimento brutal e esse conhecimento acaba por ser todos os dias uma evolução constante, não só pelo conhecimento dos campeonatos, daquilo que é o scouting verdadeiramente dito bem como também pelo conhecimento do jogador em si e dos mercados. Então acho que o ter ou não ter conhecimento no inicio é muito fruto daquilo que ao longo da nossa experiência, ele acaba por advir.

 

PS – Desempenhas actualmente as funções de coordenador do Centro de Análise de Desempenho e de Mercado do América Mineiro. Como é o dia a dia no clube?

RS – Primeiro, só referenciar que o departamento está envolvido numa dinâmica de núcleos dentro do América-MG e o nome preciso é Núcleo de Análise e Mercado e de facto eu já o coordeno desde a altura em que me mudei para o América. As funções são basicamente coordenar tudo o que o próprio departamento realiza nas suas tarefas diárias. Primeiro, coordenar significa muitos processos, não é só coordenar pessoas, é coordenar tarefas, é fazer com que os timings, que eu acho que é fundamental no futebol, sejam cumpridos para que todos esses processos no dia a dia do clube interajam com as diversas áreas do próprio clube, porque fundamentalmente o que nos interessa é que a tomada de decisão das pessoas seja a mais qualificada possível e esse é o nosso contributo nesta área especifica. O dia a dia no clube é um dia acompanhando o treino junto da comissão técnica, junto dos jogadores, produzindo bastantes materiais quer ao nível daquilo que é a análise da própria equipa, a análise do adversário e depois aquilo que é o processo de observação, ou seja o scouting de jogadores e a gente começa, e eu digo a gente porque nós somos um departamento que envolve três pessoas, juntamente comigo e mais dois observadores, começa sempre muito cedo, os horários normalmente da manhã do treino começam por volta das nove 9h00 e eu cerca de 1h15 antes do treino começar acabo por já estar no clube e acabando o treino eu mantenho-me no clube até ao final do dia produzindo essas mesmas tarefas, dividindo então nesses que são os três pilares desse núcleo, a análise da própria equipa é muito ligada com aquilo que pensa o treinador, ideias e modelo de jogo, portanto esse trabalho é sempre directamente feito com o próprio Enderson e análise do adversário que normalmente é um colega no departamento que se dedica a esse estudo mas que depois é passado para mim para eu a dissecar de uma forma mais precisa para ser o porta voz do núcleo junto da comissão técnica. Eu diria então que eu faço muito a ligação do núcleo para com a equipa técnica e para com o próprio clube.

 

PS – Quantas pessoas trabalham contigo no departamento e como está dividida a estrutura de análise e scouting do clube?

RS – Nós somos no total cinco pessoas, duas se dedicam absolutamente à observação das categorias de base inclusive por exemplo neste momento uma delas está a dedicar 100% da observação do que é a maior competição de clubes sub-20 talvez do mundo, que é a Copa São Paulo que se vai disputar neste mês de Janeiro, depois as outras três pessoas incluindo eu, trabalhamos directamente naquilo que é o núcleo de análise propriamente dito, dedicado realmente àquilo que é a análise do jogo e ao recrutamento de jogadores profissionais para o clube. Então eu diria que o núcleo é dividido em três sectores, três pilares, um deles que faz a análise da própria equipa, um outro que se dedica a análise do adversário e um outro que se dedica àquilo que é a prospecção dos jogadores quer ao nível da equipa profissional quer das categorias de base, integrados depois com a estrutura das categorias de base, sub-15, sub-17 e dos sub-20.

Juan (esquerda), Rui Sousa (centro) e Frederico (direita)

 

PS – Como concilias a parte da análise com o treino? Como é gerir o pouco tempo que tens entre jogos para passar a informação aos jogadores?

RS – As tarefas que vamos realizando ali no departamento são efectivamente de uma complexidade, relativamente ao tempo para a sua produção, enorme, sendo que nós privilegiamos que as tarefas sejam bem optimizadas quanto àquilo que é a informação, ou seja nós não fazemos materiais por fazer, preferimos às vezes não realizar tantas tarefas, mas pelo contrário que essas tarefas e essas informações estejam com interacção directa com os processos de treino, com os processos de análise da própria equipa, do adversário e para que os timings sejam cumpridos. O essencial é que o departamento entregue materiais no timing correto. Não fazia sentido, por exemplo, a gente entregar um relatório do adversário dois dias antes, ao treinador, do próprio jogo, até porque esse planeamento relativamente ao processo de treino para criar uma determinada estratégia para esse jogo estaria completamente condenado ao fracasso dado o pouco tempo depois que o treinador teria para efectuar ou pensar nessa estratégia.

É um número de horas significativo, muitas vezes algumas noites sem dormir, a trabalhar em cima das próprias viagens até porque para termos umas ideia, este ano na Serie B o América fez mais de 60.000km em deslocações, o que é muito, então muitas das vezes esse trabalho era realizado nas próprias viagens e depois procurar no momento certo essa interação com os próprios jogadores, seja ela uma passagem de informação mais individualizada com a chamada de alguns deles à própria sala, tudo isto sempre sob a supervisão do treinador, nós nunca fazemos este tipo de processo individual com os jogadores sem que o próprio treinador saiba ou até sabendo o que é que nós vamos mostrar ou até sabendo qual é a informação que vamos passar. Muitas das vezes dado o excesso de trabalho e os micro ciclos serem muito curtos de jogo para jogo privilegio-os a estar mais na sala a produzir estes trabalhos às vezes até do que estar no treino, mas sempre que posso estou no treino porque eu acho que aí é extremamente essencial que nós possamos conhecer bem, para não dizer muito bem, todos os nossos jogadores porque sem esse conhecimento será impossível que o nosso trabalho seja qualificado e qualificável.

 

PS – Como funciona o processo de análise da equipa e do adversário?

RS – Nós temos uma série de materiais que nós produzimos durante o micro ciclo e esse dissecar do adversário, ele é realizado totalmente por uma pessoa que se dedica a exclusivo por essas informações, produzindo um vídeo e um relatório que é entregue ao treinador no primeiro momento depois do jogo acabar, ou seja, antes de a gente defrontar um adversário e no jogo anterior nós entregamos esse material ao Enderson para que ele possa trabalhar a semana de trabalho e já saber algumas informações para até durante a semana de treinos ir passando aos jogadores individualmente ou até colectivamente e eu depois pego nesse material e ainda faço uma informação mais curta que é depois passada aos jogadores, um ou dois dias antes do próprio jogo, um vídeo colectivo do próprio adversário, sobre a sua forma de jogar, mas essencialmente daquilo que nós achamos os aspectos positivos e aspectos a explorar no próprio adversário sobre o que também são as nossas dinâmicas de equipa, não faz sentido a gente fazer uma observação do adversário sem que as nossas dinâmicas estejam inseridas nessa mesma análise. Para além das nossas dinâmicas, aquilo que o nosso adversário pode ferir dentro dos nossos processos e aquilo que nós podemos explorar dentro daquilo que são os processos do próprio adversário.

Já no próprio dia do jogo é passado um último material aos próprios jogadores que serve como referência e características muito próprias do adversário da sua posição ou que interage no seu sector. Quanto àquilo que é o processo de análise à nossa própria equipa, em termos de materiais que o núcleo vai produzindo, no primeiro dia de treino, nós produzimos um vídeo de poucos minutos juntamente com o treinador em que fazemos uma avaliação mais colectiva sobre aquilo que foi o jogo em si, dentro daquilo que são os nossos processos, ideias de jogo do treinador, sobre aquilo que é realmente o nosso modelo e para aí depois ser o principio de uma semana de correcções ou até de um continuar de acções boas que realizamos no próprio jogo. Fundamentar isso também é importante.

Durante a semana, até às vezes durante o acompanhamento do próprio treino e no chamar daquilo que é os nossos jogadores no processo individual da própria análise, nós também fazemos essa avaliação do jogo. Obviamente que isso não acontece com todos os jogadores e é uma situação mais pontual, por exemplo muitas das vezes nós potenciamos uma saída a três na nossa primeira fase de construção e se às vezes um zagueiro (defesa central) não está a efectuar aquilo que para nós é fundamental nessa saída, nós chamamos e mostramos alguns vídeos do jogo dele e um outro vídeo de jogadores de referência mundial para que eles possam perceber que isso é feito ao mais alto nível pelos melhores do mundo, tratando-se por si só de um processo de ensino-aprendizagem, não só de convencimento dos jogadores de que aquilo efectivamente vai melhorar a sua performance individual e consequentemente colectiva.

Para conclusão daquilo que são estes dois processos, nomeadamente eu viajo com a equipa em todos os jogos, fazendo uma filmagem de câmara aberta onde nós conseguimos de facto de uma forma melhor visualizar todos os sectores da equipa, não só uma focagem como na televisão mais focada naquilo que é a bola, o jogador e os intervenientes num curto espaço de tempo, mas uma filmagem que nos permita ter essa avaliação constante de todos os elementos que participam no jogo desde o guarda-redes ao ponta de lança passando por todos os sectores da equipa, defesa, meio campo e ataque.

Observação no treino

 

PS – Quais as expectativas do América Mineiro para o Brasileirão 2018?

RS – Acho que de fato o grande desafio é manter o América no Brasileirão. Acho que o constante subir e descer não faz bem a nenhuma equipa e não faz bem ao América, aliás, o que aconteceu estes últimos dois anos, de ter caído para a série B e voltar a subir no ano seguinte é uma coisa extremamente difícil, a história diz-nos isso.

 

PS – Quais os jogadores que destacas e que devemos seguir com mais atenção na próxima época?

RS – Creio que não dá para dissociar estes três nomes que vou falar desta última campanha de série B, como provavelmente também daquilo que poderá ser a série A e já agora em Janeiro com o começo do campeonato Mineiro. São eles o Messias, defesa central, destaco pela forte marcação, do óptimo jogo aéreo, especialmente da sua primeira bola e da evolução que teve, que era um jogador essencialmente rebatedor, não tinha uma primeira fase de construção bem consolidada, tinha muito pouca coragem para abordar essa situação e eu acho que aos poucos e poucos ele foi mudando, foi ficando um pouquinho mais confiante, acho que isso é fundamental para qualquer jogador, essencialmente ele e evoluiu bastante naquilo que para nós é super importante, que é a construção dos centrais. Um outro jogador, o Zé Ricardo um primeiro volante, em Portugal nós chamaríamos um trinco, que também é um jogador com fortes características de marcação, mas que também dado o modelo e as próprias ideias do treinador para a nossa equipa, acabou por evoluir naquilo que é também a sua construção, especialmente na verticalidade ao nível do seu passe, não era um jogador muito lúcido, é um jovem, um menino, fez alguns jogos já em 2015, mas em 2016 acabou por nos ajudar bastante e de facto é um jogador que eu também destaco. Por último, o Matheusinho, que recentemente até foi eleito pela FourFourTwo, essa revista conceituada no mercado de jovens jogadores, o 14º jogador mais valioso do mundo para a sua idade. Ora o Matheusinho é um habilidoso por natureza, é um jogador que num metro quadrado acha a solução para um problema do jogo. Creio que nesses três jogadores, que até são oriundos da própria base do América, nós destacamos aquilo que possa ser um futuro promissor.

 

PS – Consegues destacar o melhor 11 da série B?

RS – Eu poderia iniciar com o Rodolfo, guarda redes do Oeste, um guarda redes que tem um percurso já no Atlético-PR, inclusive com quem eu já trabalhei, é um guarda redes extremamente rápido, com excelentes condições para abordar o jogo com os pés e de uma confiança extremamente positiva, naquilo que é a sua posição. O lateral direito, o Aderlan que nós até acabámos por contratar para este ano, lateral da Luverdense. Na lateral esquerda o Ayrton, que é um jogador do Londrina e que esteve emprestado pelo Fluminense. Dupla de centrais, Maidana do Paraná e Luiz Otávio do Ceará. Dupla de médios formada por Richardson do Ceará e Gabriel Dias do Paraná. Na frente quatro jogadores, Lima do Ceará e Artur do Londrina, os jogadores mais como extremos por dentro juntamente com William Pottker do Internacional, portanto estes três jogadores podem jogar nessas três posições atrás do ponta de lança, que será o Bérgson, atacante do Paysandu.

Fundamentalmente, muitos outros jogadores poderiam aparecer nesse onze, não posso deixar de referir por exemplo Henan, um atacante também que joga como ponta de lança do Figueirense. O próprio Nico López um outro atacante que pertence ao Internacional, o próprio Renatinho, um jogador que foi muito importante na caminhada do Paraná, enfim, haviam muitos outros jogadores, Leandro Damião, que dispensa comentários e teremos muitos mais para referir aqui porque de facto a série B tem jogadores de grande qualidade.

 

PS – Quais os teus objectivos a longo prazo na função de analista?

RS – Nesta questão eu iria até elencar objectivos a curto e a longo prazo, portanto a curto prazo vai passar aqui pelo Brasil, pelo América, mas também não vejo como um cenário improvável a passagem por outro clube, gostaria muito de trabalhar num daqueles doze grandes clubes do Brasil e quem sabe numa passagem até pela própria CBF – Confederação Brasileira de Futebol. A longo prazo eu diria que seria voltar a Portugal e trabalhar na primeira liga, embora eu acho que neste momento será uma situação difícil pelas questões meramente financeiras, hoje em dia o analista, o observador, o scout de primeira liga é uma função um pouco mal paga no meu entender.

 

PS – És apenas um fornecedor de informação ou também participas na estratégia da equipa com a tua opinião?

RS – Seria muito curto para um analista apenas ser um fornecedor de informação, ora isto passa muito por aquilo que é a tua dinâmica, a competência, mas fundamentalmente aquilo que o treinador pensa de ti para te dar esse espaço, como analistas nós temos que perceber isso, saber o espaço em que a gente se insere dentro da comissão técnica e eu estou muito feliz naquilo que é o relacionamento com o Enderson porque ele de fato me permite participar naquilo que são algumas decisões enquanto estratégia da própria equipa, relativamente a um ou outro adversário, as bolas paradas, portanto isso acho que vale muito mais do que propriamente às vezes até a questão financeira.

 

PS – Qual a tua opinião sobre a formação em Portugal e no Brasil nesta área?

RS – Eu acho que eu posso separar isso em duas situações, primeiro, o que é o investimento na área de análise de desempenho ou de scouting e uma outra que tem a ver com a qualificação dos profissionais e tanto em Portugal como no Brasil a gente pode ter essas situações bem diferenciadas. Começar aqui com o que se passa no Brasil ao nível daquilo que é o investimento. Há uns anos para esta parte, os clubes têm-se estruturado de forma boa quanto àquilo que são as infraestruturas profissionais, contratação de profissionais mesmo naquilo que é o vencimento desses próprios profissionais na área da análise de desempenho, compra de softwares bons que existem no mercado, infraestruturas com dimensões de um número de pessoas alargado, cinco ou seis por departamento, ou seja, comparativamente com Portugal a área de análise de desempenho no Brasil acaba por ser ao nível do investimento, melhor e maior, porque o Brasil tem também essas dimensões, quer ao nível dos clubes, quer ao nível daquilo que se paga e quer aquilo que é o fenómeno futebol dentro da próprio cultura do país, então acho que aqui isso acaba por ser um pouco do espelho na própria análise do desempenho. Já relativamente à formação dos profissionais na área, a diferença já é um pouco maior e tem a ver com aquilo que é a formação em Portugal e a formação no Brasil, os profissionais aí, em Portugal, acabam por ter uma formação que vem muito dos cursos da UEFA e do conhecimento próprio que as faculdades assim o vão fomentando naquilo que é o desenvolvimento da própria formação dos cursos de Educação Física. Depois muitos cursos virados propriamente para a área e a grande diferença talvez seja do próprio conhecimento do jogo enquanto aqui no Brasil estas formações dos profissionais acabam por ser muito à volta do conhecimento, da contratação de uma outra pessoa que está ligada, de uma pessoa que acaba por vir de uma experiência do campo e que chega à área um pouco sem saber o que tem de fazer, sem a formação especifica para a própria função do dia a dia.

PS – Que opinião tem sobre a área do scouting em Portugal? E no estrangeiro?

RS – Relativamente ao scouting estrangeiro, eu acredito que nós estejamos a falar num contexto global, eu acho que Portugal acabou por massificar um pouco essa área, ou seja, especialmente com o surgimento das equipas B, traz-se muitos jogadores ainda do desconhecido. Muitos deles são baratos, com ligações a empresários e experimentam-se nas equipas B a ver se dá certo ou se não dá, isso até é fácil de descortinar através dos últimos anos se nós formos aos elencos de todas as equipas B, nós vamos ver jogadores de muitas nacionalidades e depois o aproveitamento que se faz daquilo que foi o recrutamento é muito curto, isto na área do que é o recrutamento, o scouting em si. No estrangeiro nós vemos um investimento muito grande, ainda recentemente o Manchester United acaba por contratar 50 scouts para o seu departamento de observação, análise e prospecção do mercado, então são essas as grandes diferenças, o investimento em Portugal é proporcionalmente inferior àquilo que é ou está a ser feito no estrangeiro, especialmente nas grandes ligas e nos grandes clubes. Portugal que numa certa parte era um país que descobria talentos especialmente aqui na América do Sul, acaba por ser ultrapassado precisamente por esses clubes estrangeiros que fortaleceram essa prospecção e acabam por roubar muito mais cedo alguns talentos, aquilo que os principais clubes em Portugal faziam.

 

PS – Considera que a partilha de conhecimento entre treinadores está mais aberta ou ainda existe muito “secretismo”?

RS – Acredito que de há uns anos a esta parte existe muito mais abertura, especialmente naquilo que são os encontros entre treinadores, estamos a falar por exemplo na formação dos próprios, eu até acabo por encontrar um pouco desse espelho aqui no Brasil, que os treinadores que em anos próximos essa partilha era muito pouco fomentada, mas com o surgimento destes novos cursos e nesta nova onda de formação da própria CBF, acabam por se encontrar mais vezes e acabam por partilhar mais ideias. Eu acho que a evolução do próprio jogo parte muito disso, dessa interacção que é feita com os treinadores, com todos os elementos que estão à volta do próprio jogo, então não há nada mais rico do que a partilha do conhecimento e tanto mais com aqueles que directamente lidam com o fenómeno todos os dias, que são os treinadores, que são os ex-jogadores, são os próprios jogadores, os analistas, enfim, toda a gente que lida no dia a dia com o fenómeno do jogo. Concretamente em Portugal, dos treinadores como já não estou há algum tempo aí, não consigo dar essa resposta com mais certeza, mas acredito que essa interacção por si só já existe precisamente por causa disso, acho que os cursos, especialmente ao mais alto nível, falo de 1ª liga e 2ª liga, que aí sim pelo que vou sabendo, os cursos têm proporcionado essa partilha e o jogo está mais rico como nós vemos em situações propriamente estratégicas do jogo.

 

PS – Quais são ou quais foram os seus treinadores de referência?

RS – Não é muito difícil responder a essa questão dado que eu não trabalhei assim com tantos treinadores na minha vida que possa de fato referenciar, mas eu destaco essencialmente talvez dois ou três, primeiro eu não posso deixar nunca de referir o Sérgio Vieira pelas noções sobre o jogo, sobre o conhecimento do jogo que de fato me fizeram enquanto profissional ser melhor e nisso eu tenho que agradecer e muito essa partilha de conhecimento, esse crescimento quanto foi esse tempo que eu passei com o Sérgio. Depois o próprio Enderson com quem eu hoje tenho a felicidade de trabalhar, porque me tem possibilitado colocar várias ideias no processo e no modelo de análise que talvez seria difícil colocar com um outro treinador e isso logicamente também me fez evoluir e talvez um pouco lá atrás no começo da minha carreira, referenciar o professor José Ribeiro pela forma como em primeiro lugar me possibilitou o acesso ao futebol e pelas partilhas que sempre tivemos pelo jogo e isso naquela fase inicial foi muito importante, até porque me permitiu chegar aqui ao Brasil com alguma bagagem daquilo que é o jogo na Europa e que me permitiu talvez fazer a diferença para outro tipo de análise que se fazia por aqui.

Rui Sousa com Sérgio Vieira, agora treinador principal do Moreirense

 

PS – Qual o aspecto mais importante para se ser um bom analista de desempenho?

RS – Essencialmente eu destaco dois aspectos que do meu ponto de vista são os mais importantes, o primeiro de tudo, antes do conhecimento, do trabalho com as ferramentas, de tudo e acho que de um modo geral para quem está envolvido no futebol profissional, é saber estar e o saber estar, é ter a noção exacta de quais são as suas funções e tarefas dentro de um clube profissional e executa-las nas suas plenas capacidades de competências profissionais e pessoais. Acho que é fundamental a qualquer pessoa estar identificada com esse espaço, não invadir a área de outros nem se achar o mais sabedor nem o menos. Acho fundamental num analista de desempenho que saiba do fenómeno que é o jogo, o que é jogar, o que é que o jogo implica, como resolver os problemas do jogo porque um analista que não saiba dar algumas respostas ao treinador não pode ser um bom analista, não basta saber mexer nas ferramentas da informática quando o seu conteúdo do ponto de vista do jogo é pouco útil para uma equipa técnica e para um treinador. Nunca esqueçamos que nós somos os olhos do treinador talvez às vezes num plano superior, portanto o nosso conhecimento tem de ser de uma forma muito abrangente praticamente o mesmo que o treinador tem, pelo menos nas suas ideias de jogo, porque senão o trabalho não vai ser emparelhado da mesma forma.

Imagem do plano de observação de um jogo

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A ProScout analisa o futebol do ponto de vista individual e colectivo, procurando identificar dinâmicas que possam ser discutidas no âmbito do contexto técnico-táctico.

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