Euro 2016: Análise Islândia

Euro 2016: Análise Islândia

Lars Lagerbäck é o homem por detrás do sucesso da Islândia, assentando o seu futebol num clássico 4x4x2 pleno de entrega e capacidade colectiva.

A selecção nórdica estará no caminho de Portugal no Euro 2016 já está terça-feira, dia 14, depois de uma excelente campanha na fase de qualificação onde terminou em 2º lugar com 20 pontos, 17 golos marcados e 6 sofridos.

Sistema dinâmico

Muito se tem discutido sobre o fim do ciclo de vida para alguns sistemas tácticos. O 4x4x2 é um exemplo claro desta afirmação. Hoje, mais importante do que discutir as diferenças entre o sistema e as dinâmicas de uma equipa, é descobrir um sistema dinâmico dentro da própria equipa. É isso que tem feito Lars Lagerbäck, seleccionador da Islândia.

O experiente sueco de 67 anos adoptou um 4x4x2 clássico. Um quarteto seguro que não arrisca na primeira fase de construção, um médio-defensivo que oferece estabilidade, um criativo que organiza as manobras ofensivas, dois médios-alas de equilíbrios e dois avançados que conseguem facilmente adaptar-se às exigências do jogo e desdobrarem-se nas suas acções.

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A Islândia joga ao ritmo de Sigur Rós, com paciência, expectativa e pragmatismo. Uma selecção que vale pelo seu colectivo e demonstra um grande espírito de sacrifício e união.

Halldórsson assume o lugar de última barreira. O experiente guardião de 32 anos oferece tranquilidade e segurança à sua equipa.

O quarteto defensivo, composto por Saevarsson, lateral direito mais de contenção e que não arrisca muito, Árnason e Sigurdsson no eixo da defesa e com uma fraca relação com bola e Skúlason na esquerda que procura sempre cruzamentos para as referências e é o elemento mais evoluído tecnicamente dos quatro.

No meio-campo, Sigurdsson assume o papel de número “10”, com Gunnarsson, capitão, a proteger-lhe o espaço nas costas, concedendo liberdade para conseguir, através da sua qualidade individual, desequilibrar no momento ofensivo.

Nos corredores, Gudmundsson e Bjarnason alinham como médios-alas, na direita e esquerda respectivamente. Os dois islandeses apresentam um elevado nível de solidariedade defensiva, apoiando os laterais nas suas missões. O equilíbrio que conseguem transmitir para a equipa é fundamental para que a Islândia só tenha sofrido 6 golos na fase de qualificação. Gudmundsson é mais vertical e procura o corredor, contrariamente a Bjarnason que é dos jogadores mais inteligentes e pacientes no plantel. Explora os terrenos interiores e joga de forma mais solta, dando espaço a Skúlason a aparecer nas suas costas.

Na frente de ataque, Sigthórsson e Bodvarsson formam uma dupla versátil e com características complementares. Normalmente cabe a Sigthórsson o papel de avançado mais fixo, com Bodvarsson a aproveitar os espaços e a descair no terreno para ter a bola. Por vezes alteram as suas funções, com qualidade, pela versatilidade que ambos apresentam. Finnbogason é outra opção que pode espreitar a titularidade a qualquer momento. Insistência no jogo aéreo de Sigthórsson pela capacidade de vencer os duelos, com os restantes colegas a reagirem rápido à segunda bola.

A equipa sente algumas dificuldades a construir a partir de trás quando os seus centrais são pressionados mas através dos laterais e dos dois médios apresenta qualidade na saída e chega com facilidade às zonas de decisão. Quando não tem espaço para criar aposta no futebol directo com os dois laterais a procurarem cruzamentos largos para as referências ofensivas. Mais Skúlason que Saevarsson. Outra solução que é muito recorrente são os remates de longe, onde Sigurdsson assume um papel crucial. Exploram os lances de bola parada como fora de chegar ao golo, um momento de jogo onde são particularmente fortes.

Defensivamente, adoptam um bloco baixo, sem pressionarem os adversários na saída de bola. Concedem muito espaço no corredor central com os dois médios a não terem capacidade para preencherem o meio-campo defensivo sozinhos. Quando a bola entra nas faixas, são agressivos e reagem rapidamente com o médio-ala a ajudar o lateral, mais o médio-centro desse lado a fechar. Sempre em superioridade numérica para obrigarem a equipa contrária a voltar atrás na sua organização.

Uma característica que importa frisar é a facilidade de adaptação ao estilo de jogo. A Islândia apresenta um futebol apoiado, com Sigurdsson e Gunnarsson a assumirem a partir do miolo. Noutros momentos de jogo transfigura-se numa equipa que recorre a um estilo mais expectante, explorando os espaços que os adversários lhe concedem. Um futebol aliciante por parte dos nórdicos.

Destaques

Longe vão os tempos em que Gudjohnsen era a principal figura da selecção nórdica. Actualmente as atenções viraram-se para jogadores como Gunnarsson, Sigurdsson, Bjarnason, Gudmundsson, Sigthórsson, Finnbogason e Bodvarsson. Todos eles apresentam uma característica em comum. Possuem um nome de difícil pronúncia para os comentadores de futebol.

Sigurdsson é o jogador mais criativo deste conjunto. O médio do Swansea marcou a diferença na fase inicial ao apontar 6 dos 17 golos na campanha de qualificação. Os laterais e os médios-ala representam um dos pontos fortes deste grupo. Skúlason é um médios-centro adaptado com sucesso a lateral, imprimindo uma dinâmica ofensiva muito interessante. Gudmundsson e Bjarnason possuem características muito distintas mas são igualmente competentes nas suas missões.

Lars Lagerbäck realizou um trabalho muito respeitável, ao apresentar uma selecção muito competente nos diversos processos de jogo, com ideias bem assimiladas e com uma identidade própria. Os resultados partem de uma base de recrutamento escassa e com falta de qualidade individual face à concorrência. A Islândia é o país mais pequeno em prova com apenas 330 mil habitantes.

O conjunto orientado por Lars assenta o seu jogo no futebol colectivo, entrega e vontade de vencer. O objectivo passa por colocar a Islândia na rota do futebol europeu, um cenário já alcançado com a presença dos nórdicos no Europeu de 2016.

Sobre o Autor

Francisco Gomes da Silva

Nasceu pouco tempo antes do Verão Quente de 1993 e hoje com 25 anos é licenciado em Economia e apaixonado por Futebol. Um campo, uma bola e 22 jogadores, uma paixão que despertou bem cedo na sua vida. Jogou até aos 19 anos, seguindo-se passagens como treinador-adjunto no Grupo Desportivo Alcochetense, colaborador da Revista Futebolista e outros sites. É observador no Departamento de Prospeção do Benfica desde 2012.

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