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A Roma de Paulo Fonseca vista à lupa

A reestruturação

2018/2019 foi uma época fracassada para a Roma. Terminaram o campeonato no 6º lugar, não foram além dos quartos-de-final da Taça de Itália, e foram eliminados da Liga dos Campeões nos oitavos-de-final. Devido ao insucesso Di Francesco foi despedido e substituído por Claudio Ranieri, que também teve uma vida difícil na capital italiana.

Com objetivo de reerguer os romanos, Paulo Fonseca foi contratado para o comando técnico. O treinador português de 46 anos teve uma excelente passagem pelo Shakhtar Donetsk: em três temporadas foi campeão três vezes, venceu três Taça da Ucrânia, e uma Supertaça Ucraniana.

Paulo Fonseca contratou jogadores adequados aos seus princípios de jogo. Nomes como Pau Lopez, Mancini, Smalling, Spinazola, Mkhitaryan, entre outros, deram mais profundidade, qualidade e variedade ao plantel.

Até ao momento, a época da Roma tem sido boa. Encontram-se no 3º lugar do Campeonato e no 1º lugar do grupo J da Liga Europa.

Paulo Fonseca – o homem ideal

Paulo Fonseca não é um bom treinador apenas pelos títulos conquistados na carreira. É um treinador com características para uma equipa que pretenda construir e desenvolver um bom projeto desportivo, e a Roma é o seu primeiro grande teste. Tem princípios de jogo bem vincados, e procura que toda a equipa esteja bem ciente deles.

A sua formação preferida é o 4-2-3-1. No Shakhtar era usual ver a linha defensiva subida, laterais bem abertos, médios sempre em rotação posicional (um mais próximo dos centrais), e o médio mais ofensivo e os extremos posicionados entre linhas, com o avançado a ser a principal referência ofensiva. Paulo Fonseca privilegia um futebol de posse, com trocas posicionais, mas o destaque vai para as várias dinâmicas ofensivas criadas pela largura dos laterais e o posicionamento entre linhas dos médios e extremos.
Este futebol ofensivo pode deixar a equipa descompensada em vários momentos. Para isso Paulo Fonseca estrutura a sua dupla de médios mais recuados de duas formas: um aproxima-se mais dos centrais para poder formar uma linha de 3 e, em organização defensiva, uma linha de 5; ou os dois médios formam a segunda linha defensiva, ficando paralelos aos centrais.

11 base, peças-chave e lesões

Uma das valências da Roma é a profundidade do seu plantel. Paulo Fonseca tem à sua disposição várias opções, mas tem o infortúnio das lesões. De momento, são 6 os jogadores indisponíveis por lesão. Paulo Fonseca tem um onze inicial base. Mas uma das características do técnico, é que pode mudar alguns jogadores, que os princípios de jogo se mantêm. O importante é que os jogadores estejam cientes das ideias do treinador, para no caso de alterações ao onze, não se perderem as dinâmicas pretendidas.

Este é o onze base da Roma, e as setas representam algumas das dinâmicas que Paulo Fonseca pretende no momento ofensivo. Kolarov faz o corredor todo, e joga perto dos avançados de forma a participar na definição do ataque. Spinazzola também sobe, mas não tanto como o sérvio, ficando numa zona intermédia com os médios e Zaniolo. Mancini recua a joga perto dos centrais, e Veretout tem liberdade para percorrer o centro do campo, podendo progredir com bola e chegar junto à área para definir.

 Como a lateral é de Kolarov, Kluivert joga por dentro para explorar o half-space e ser uma das referências ofensivas juntamente com Dzeko. Pastore é o médio mais ofensivo, mas joga mais na interior direita, servindo como elo de ligação do meio campo com o ataque e dando liberdade a Zaniolo. Por sua vez, Zaniolo tem liberdade para abrir na lateral ou recuar para depois progredir com bola. É importante na definição ofensiva, seja através do último passe ou através do remate. Dzeko é a referência mais ofensiva, mas não fixa. Está constantemente a movimentar-se de forma a arrastar os defesas consigo, abrindo espaço para os três homens da frente atacarem o espaço ou receberem livres de marcação. O bósnio também recua no terreno, trocando de posição com Kluivert, para vir buscar jogo e receber orientado para a baliza.  

Este onze base pode sofrer alterações com o passar do tempo assim que certos jogadores regressem de lesão. Mas, como referi, as dinâmicas são semelhantes. Há sempre um médio mais defensivo (Diawara); um mais ofensivo (Cristante); extremo esquerdo como interior (Mkhitaryan ou Perotti); um médio ofensivo perto do avançado (Veretout ou Pellegrini) e ainda há Kalinic como alternativa a Dzeko.

Contudo, há certos jogadores que se têm destacado esta temporada:


Um dos mais decisivos no processo ofensivo é Zaniolo. O jovem de 20 anos tem muita qualidade no pé esquerdo, tem uma excelente capacidade de definição ofensiva, é inteligente nos seus movimentos, e tem faro de golo. Já leva 5 golos e 1 assistência esta época.

Aos 33 anos Kolarov continua a ser um lateral de excelência, e peça importante no ataque romano. Procura estar bem aberto para dar largura e ser opção de passe, tira bons cruzamentos, e é bom no último passe. Já marcou 4 golos e assistiu dois.

Menos vistoso, mas muito importante, Mancini tem tido performances de alto nível. É excelente a nível tático: sabe quando recuar, quando fechar a lateral, quando formar a linha de 5, e quando subir para pressionar alto. Tem qualidade na distribuição, apesar de se destacar mais pelas características defensivas. É um defesa-central que tem mostrado muita qualidade a médio-defensivo.

Momento ofensivo

Esta é a organização ofensiva habitual da Roma. Os dois centrais Smalling e Fazio estão subidos; Mancini é o médio mais recuado e Veretout mais subido; Spinazzola e Kolarov abertos na ala; Zaniolo e Perotti abertos para depois fazerem movimentos interiores; Pastore entre linhas, central com Dzeko, que não se vê neste momento.

Aqui vemos uma das formas de atacar mais habituais da Roma. Fazio sobe no terreno para construir (Mancini recua para não criar descompensações), Veretout mantém-se central. Kolarov está aberto na esquerda, mais que Spinazzola na direita. Perotti joga mais por dentro pois a lateral fica para Kolarov. Zaniolo joga mais aberto porque Pastore faz a função que Perotti desempenha do outro lado, e porque Spinazzola não abre tanto como Kolarov. Na zona interior Perotti e Zaniolo focam-se em explorar o half-space (espaço destacado). Dzeko é a referência ofensiva mais central.

O posicionamento entre linhas permite que seja mais fácil atacar o espaço, como é visto neste lance. Pastore entende que há espaço entre centrais e faz um movimento de rotura. Mas Zaniolo também tinha Dzeko solto de marcação, e teria a possibilidade de cruzar. Por norma um avançado mantém-se central, mas Dzeko percebeu que ao abrir ficaria livre para poder atacar o cruzamento.

Há várias coisas a destacar neste lance. As dinâmicas ofensivas mantêm-se, mesmo estando jogadores diferentes a ocupar posições diferentes. Mancini constrói como médio mais avançado, e Veretout recua, para dar o equilíbrio que o italiano costuma dar no meio campo. Pastore é a referência ofensiva central que Dzeko costuma ser, Zaniolo joga como interior direito onde Pastore costuma jogar, e Dzeko está aberto na direita como Zaniolo costuma estar. É importante que numa equipa vários jogadores se adaptem a outra posição de forma a manterem as dinâmicas. No momento de construção Mancini sabe que, apesar de serem outros jogadores, as linhas de passe são as mesmas.

A Roma é uma equipa que privilegia a posse de bola, mas uma posse dinâmica, onde há muito movimento. Para além disto, Paulo Fonseca pretende que o portador da bola tenha várias linhas de passe, e Mancini tem. À direita tem Spinazzola e Dzeko bem abertos; à esquerda tem Kolarov aberto e Perotti por dentro entre linhas; no corredor central tem Pastore e Zaniolo já a fazer um movimento no half-space.

No pontapé de baliza é usual vermos a Roma a sair apoiado. Para ter superioridade numérica, Mancini recua para junto dos centrais para fazer uma saída a 4. O portador da bola tem sempre várias opções de passe, e através de uma posse de bola dinâmica chega com qualidade à área contrária.

Momento defensivo

A Roma organiza-se defensivamente de várias formas. Habitualmente estrutura-se num 4-1-4-1, em que Mancini é sempre o médio mais recuado. Pastore recua da zona ofensiva e Veretout sobe no terreno para formarem uma linha de 4 com os dois extremos. Dzeko mantém-se na frente para pressionar os centrais. Desta forma Mancini consegue controlar os movimentos entre linhas dos adversários, e a Roma pressiona com uma linha de 4 o processo de construção do adversário.

Dependendo da estrutura do adversário, a organização defensiva da Roma pode alterar para um 4-4-2. Desta forma é Pastore que se junta a Dzeko mais à frente. Sem Mancini como primeiro médio, a linha defensiva tem de estar mais atenta aos jogadores entre linhas, pois não há esse médio de cobertura. Ter mais um homem na frente ajuda a equipa na transição ofensiva, já que a Roma aposta no contra-ataque depois de recuperar a posse.

Outra variação do sistema defensivo da Roma é Mancini juntar-se à defesa para formar uma linha de 5 defesas. Assim conseguem superiorizar-se face aos avançados contrários e tapar espaço que poderia existir entre centrais. Isto acontece normalmente quando Mancini acompanha o movimento de um avançado que recuou. Neste caso específico, o italiano acompanha Rafael Leão que procurava explorar o espaço entre Smalling e Fazio.

A Roma é uma equipa que pressiona de várias formas. Um dos objetivos dessa pressão é cortar as linhas de passe ao adversário. Os romanos nesta fase não pressionam necessariamente em cima do adversário. Ao invés, posicionam-se de forma a que o portador da bola tenha as linhas de passe cortadas. Caso exista algum colega livre, se a bola chegar a ele há sempre um jogador da Roma que pressiona imediatamente.

Dependendo do momento do jogo, a Roma pode pressionar com objetivo de limitar as opções de passe, mas de forma mais agressiva. Neste exemplo, Dzeko corta a linha de passe vertical para Biglia. Zaniolo e Pastore pressionam alto as linhas de passe mais próximas. Mesmo que o portador da bola abra na direita, Dzeko pode abrir para pressionar, que Perotti está a acompanhar Biglia. Este tipo de pressão encurrala os adversários e promove a perda de bola por falta de opção de passe.

Consequência desse tipo de pressão, o adversário sem opção de passe pode ficar obrigado a aliviar a bola. Neste exemplo vemos que a Roma foi pressionando de forma a empurrar o adversário para a lateral, e cortando as linhas de passe, encurralou-o. Visto numa situação de pressão alta e sem linha de passe, Di Lorenzo não tem outra opção se não aliviar a bola.

Como já analisado, em certos momentos a Roma pressiona de forma a encurralar o adversário na lateral. Mas o objetivo desta pressão é obter superioridade numérica. Aqui vemos que a equipa desloca-se para a lateral para não só cortar as linhas de passe, mas também ter superioridade numérica e recuperar a bola o mais rapidamente possível. Vemos uma situação de pressing de 5 para 2.

Uma das formas de combater uma pressão do género que a Roma faz é circular a bola com velocidade. E caso o adversário consiga fazer isso e soltar-se da pressão que a Roma faz junto à lateral, pode encontrar espaço livre do lado oposto do campo. Neste caso vemos que o passe chegou ao avançado entre linhas, e que há um jogador do lado oposto que faz um movimento para o espaço destacado completamente sozinho. Este tipo de descompensações é um dos aspetos a explorar contra a Roma.

O mesmo pode ser visível neste exemplo. Na sequência de um lançamento de linha lateral, a Roma tentou criar uma situação de superioridade defensiva 6 vs 5 na zona destacada. Mas o Milan conseguiu trocar a bola e tirar o cruzamento rapidamente, e encontrou Theo Hernandez sozinho do outro lado do campo.

Projeto promissor

A qualidade do futebol da Roma tem vindo a aumentar jogo após jogo. Nota-se que Paulo Fonseca ainda está a desenvolver certos princípios e que os jogadores estão a enquadrar-se cada vez mais com as ideias do treinador. A profundidade do plantel permitirá que o técnico ajuste as opções mediante o encontro, e faça uma gestão positiva. A Roma dificilmente terá capacidade de acompanhar Juventus e Inter na luta pelo campeonato. Mas competições como a Taça de Itália e a Liga Europa estão perfeitamente ao alcance da equipa.

Prova da qualidade do futebol exibido pela Roma esta temporada, é que a equipa de Paulo Fonseca encontra-se no terceiro lugar do campeonato, atrás dos principais candidatos ao título referidos anteriormente. A vitória no último jogo frente ao Nápoles, vice-campeão de Itália, mostrou que a Roma está de volta à sua melhor forma. Paulo Fonseca tem nas mãos um projeto que promete ser um dos mais interessantes da europa.