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Reflexões – O treinador no futebol de formação

“Só é contexto de formação
o que te pode parecer utópico…
Cada jovem na “interacção”
é aprendiz e mestre de si próprio.” (Frade, 2014)

Ser treinador em contexto sénior, não pode nunca ser o mesmo treinador na formação de jogadores. Idades diferentes, e conceitos para aplicar necessariamente diferentes. Se por um lado, procura-se vencer e pontuar para o rendimento, na formação vencer é apenas um acréscimo ao que será desenvolvido.

Há uma necessidade de ensinar o jogo de futebol, fomentando acima de tudo o gosto e paixão do atleta pelo jogo de futebol. De que serve a prática, se a mesma não for propositada, ocorrida com dedicação aliada ao sentimento?

Nunca poderemos deixar de parte o facto de que, antes de estarmos a formar jogadores, estamos também a formar homens e mulheres das próximas gerações. Segundo Sacchi (2015) o futebol sempre foi um modo de tornar um homem (indivíduo) melhor. Torna-se fundamental a procura da transmissão de valores individuais e coletivos.

Segundo Cunha(2006) citado por Garganta & Fonseca(2006) dizem-nos que as melhores equipas e organizações são aquelas que toleram o erro cometido em prol da aprendizagem. Elas dissecam aquilo que correu mal para fazerem melhor no futuro. Aqui entra a importância da liberdade dada ao jogador! Quando falo em liberdade, não falo numa anarquia. Porque as regras de um grupo, de uma sociedade são a base para a sua organização.

A liberdade neste caso, tem o sentido do jogador se autodescobrir enquanto atleta e jogador de futebol. Ou seja, fazer com que o jogador desperte e trabalhe a sua criatividade e independência. Criatividade em resolver problemas do jogo de futebol. Procurar que o erro seja um meio para o sucesso, e nunca ver o erro como um entrave para esse sucesso.

Fazer com que o jovem jogador não tenha medo de errar, irá fazer dele um melhor jogador no futuro. Se no presente irá falhar constantemente pelo risco, é nesse risco e erros que fará dele futuramente melhor, assente nisto os autores Garganta & Fonseca (2006) afirmam que muitos jogadores seniores não manifestam iniciativa, porque esta foi reprimida durante o seu processo de formação. Não arriscam com medo de errar.

“Não pode haver tática sem liberdade, e se não há liberdade no jogo, a tática converte-se em atos de obediência, sem nenhum valor cognitivo, escravizam o jogador e vedam o sistema” (Lavera, 2002)

O jovem jogador de futebol deverá ser potencializado naquilo que é a sua individualidade. No fundo, o futebol não é mais que um conjunto de individualidades, únicas em cada ser, dentro de um contexto coletivo, de interligação entre essas mesmas individualidades.

E ser individual não é procurar jogar para si. É procurar dar o melhor de si para o coletivo. Citando Johan Cruyff, “(…)eu, como jogador, era individual, mas nunca individualista.”

No ponto de vista do trabalho com jovens, a gestão de expectativas dos atletas e também dos pais deverá ser feita com grande equilíbrio. Se por um lado, no caso concreto do futebol, observamos que nem todos poderão chegar a um patamar superior, terá que haver por parte do treinador uma gestão constantemente. Nunca, de modo algum, podemos permitir que o sonho se apague da cabeça e coração do jovem, porque é também através do sonho que se alcança a transcendência. No entanto, demonstrar as dificuldades presentes em alcançar os sonhos, para caso esses não sejam concretizados, estarem cientes que essas dificuldades e insucessos fazem parte daquilo que é tudo o que nos rodeia, pode ser determinante. A dificuldade e o insucesso são constantes presentes…no jogo e na vida.

O que é o sucesso num treinador de jovens jogadores?

No meu ponto de vista, o sucesso é mais simples do que possa parecer. O sucesso, entre o treino de jovens, é em primeiro lugar fazer os jovens melhores pessoas e melhores jogadores de futebol. A qualidade de transmissão de valores, aliados ao conhecimento do jogo de futebol, é onde acredito e assento o sucesso no futebol de formação.

Nakamura (1996) afirma que o sucesso tem a ver com compreensão, dar apoio e ir ao encontro das necessidades emocionais e sociais dos atletas, ensinando-lhes responsabilidades, auto disciplina, interação social e autoconfiança através do Desporto.

Segundo Henry (2018),  o treinador é suposto fazer as pessoas melhores, primeiramente e acima de tudo. E que isto, fazer as pessoas melhores, já é um verdadeiro sucesso.

Para terminar, e procurando uma correlação entre o futebol de formação e a entrada no alto rendimento, o treinador (Bielsa, 2013) afirma o seguinte: “É fácil meter jogadores jovens e acrescentar na lista de estreantes, o que é necessário fazer é meter jogadores jovens e que não fracassem, porque meter jogadores mais jovens, para demonstrar que não servem, essa não é a nossa função. A nossa função é meter jogadores jovens para demonstrar que sim, eles servem.

As vitórias, os golos, os pontos, isso tudo virá como acréscimo. Mas nunca, na minha opinião, devemos olhar para os jovens como meio para se chegar ao alto rendimento, através dos resultados. No futebol de formação…onde diferenças morfológicas têm um peso gigante.

Ganhar é importante, e todos gostamos de ganhar, no entanto, ganhar é uma consequência, da finalidade que é fazer os jovens melhores pessoas e melhores jogadores.