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Marítimo: defender bem e atacar rápido

2018/19 viu o Marítimo ficar pela 3.ª eliminatória da Taça de Portugal e alcançar o 7.º lugar na Liga BPI. Robert Teixeira saiu e Luís Gabriel chegou. O técnico de 40 anos está, por esta altura, a traçar um percurso similar ao do seu antecessor: pela altura da 13.ª jornada, o Marítimo de Robert Teixeira tinha 19 pontos. Esta época, apesar de ainda ter um jogo em atraso, Luís Gabriel conseguiu 18 pontos. A equipa insular não vacila nos jogos que se apresenta com teórico favoritismo. É, no entanto, no duelo contra os “grandes” e contra outras equipas “do mesmo campeonato” (CF Benfica e Estoril Praia) que as insulares têm mais dificuldades, sobretudo a jogar fora de portas. Ainda assim, a boa organização do conjunto leva a que seja muito difícil triunfar na Madeira.

Luís Gabriel – o homem do leme

O técnico de 40 anos chegou à Madeira esta época para substituir Robert Teixeira, que levou o clube ao 7.º lugar na Liga BPI e à terceira eliminatória na Taça de Portugal em 2018/19. Na primeira época ao serviço da turma insular, o jovem treinador conta por agora com seis triunfos em 13 partidas.

No campeonato, o Marítimo soma 18 pontos em 12 jogos, sendo que tem uma partida em atraso. Na época passada, à 13.ª jornada, a equipa madeirense tinha 19 pontos, uma marca ao alcance do novo timoneiro.

O esquema adotado pelo técnico na Madeira é preferencialmente um 4-2-3-1. O Marítimo varia entre um bloco baixo e um bloco médio em momento defensivo, mantendo sempre a estrutura da equipa mesmo com bola. O duplo pivot adotado na frente da defesa não desmonta em momento algum, com as duas atletas escaladas nesse lugar a não apoiarem o ataque e a estarem sempre prontas para reagir à perda da posse, fornecer os equilíbrios e fechar o espaço entre linhas. As laterais também não oferecem grande profundidade, pelo que são as extremos que conferem largura ao ataque. O espaço central fica entregue à ‘10’ da equipa, que procura explorar o espaço entre linhas e ao mesmo tempo fazer movimentos de rutura articulados com um recuo da ‘9’ no terreno para fornecer um apoio frontal e tentar receber.

11 base e peças-chave

Este é o onze base que o Marítimo apresenta. Um 4-2-3-1 com duplo pivot defensivo, habitualmente constituído por Lara Costa e pela capitã Neuza Caldeira (Diana Gonçalves também faz a posição por vezes), com Telma Encarnação a funcionar como médio mais ofensiva, no apoio a Nádia Freitas.

Em termos de dinâmicas, Luís Gabriel é um técnico que não “inventa” muito. Andreia Silva e Eliana Amado não abandonam a posição e raramente apoiam o ataque, assim como Lara Costa e Neuza Caldeira. Esta rigidez ao nível tático permite ao Marítimo defender com muita gente e tornar difícil a procura de jogo interior pelas adversárias. A ligação entre setores está a cabo de Telma Encarnação, numa filosofia de jogo direto e contra-ataque, onde o Marítimo raramente opta por um futebol junto à relva e de forma mais frequente por lançamentos longos à procura de Érica Costa e de Tânia Mateus, duas velocistas com técnica apurada e responsáveis por conferir largura ao ataque insular.

Na frente do ataque, Nádia Freitas é também ela uma avançada capaz de imprimir velocidade e de procurar a profundidade. Oferece muita mobilidade e tenta não se dar à marcação ora recuando, ora fazendo diagonais entre central e lateral para receber a bola longa.

A n.º 9 consegue ser capaz de fornecer apoios frontais, recuando alguns metros no terreno para receber (um movimento ainda assim pouco explorado pela equipa), dando a oportunidade a Érica Costa, Telma Encarnação e Tânia Mateus de atacarem de imediato a profundidade. Apesar do Marítimo recorrer poucas vezes a este desenho ofensivo, quando o consegue executar, consegue também causar desequilíbrios: ou Nádia atrai a marcação da defesa contrária e cria espaço suficiente na profundidade para ser atacado por Érica, Tânia e Telma, ou então a defesa contrária mantém o posicionamento e Nádia consegue espaço entre linhas para receber, orientar o corpo e procurar a melhor solução para dar continuidade ao ataque.

Jogadoras em Destaque:

A guarda-redes Bárbara Santos é uma das referências do conjunto insular. A guardiã transmite segurança entre os postes, tem um bom pontapé – que evita duelos aéreos que possam resultar em perda de bola no meio-campo defensivo – e está, aos 26 anos, a viver uma das melhores temporadas da carreira.

Érica Costa é a principal fonte de golos das maritimistas. São 10 remates certeiros em 13 encontros na presente temporada. Descaída para o flanco esquerdo, é a principal referência das transições insulares. Veloz, com técnica evoluída e uma canhota de qualidade.

Telma Encarnação é, aos 18 anos, uma das grandes promessas do futebol feminino nacional. Habitualmente ponta de lança nas seleções jovens, no Marítimo a camisola 10 joga mais recuada, no apoio à unidade mais adiantada. No entanto, não é por isso que deixa de ter golo (leva 5 em 11 jogos esta época), até porque o forte pontapé de perna direita que possui a isso ajuda. Evoluída tecnicamente e forte ao nível físico, é uma jogadora que precisa de melhorar na tomada de decisão para subir ao patamar seguinte. Esta é uma lacuna que fica à vista na função que lhe é designada dentro do esquema maritimista e que podia ser disfarçada com a colocação de Telma na sua posição de raiz.

Os momentos do jogo

O 4-2-3-1 maritimista em momento defensivo, após uma reposição lateral. O que está errado nesta fotografia? O posicionamento de Érica Costa. Nádia Freitas está a fechar a linha de passe para as centrais, Tânia Mateus fecha a lateral e Telma Encarnação completa o triângulo, impedindo a progressão da adversária. No entanto, há um espaço aberto para sair de pressão pela zona central, o que podia ser impedido por um posicionamento mais interior de Érica.

A bola chegou à lateral. O posicionamento maritimista está todo correto, à exceção de Telma Encarnação. Nádia Freitas impede que o jogo volte à central, Tânia Mateus está a fechar em posição interior, Érica Costa pressiona a lateral de frente. Sobra apenas um espaço para colocar em zona central. A jogadora livre de marcação deveria estar a ser marcada por Telma Encarnação e Lara Costa – que não aparece na imagem – deveria assumir a marcação da atleta que se encontra nas costas de Telma. Com este espaço, a pressão maritimista falha no momento em que a lateral se decida orientar para o meio e soltar a bola.

Este é um momento ofensivo do Marítimo. Em transição, como é habitual. Érica Costa recuperou uma bola ainda no meio-campo defensivo e desde logo é visível que as insulares colocam poucas unidades na frente na hora de atacar (a tal preferência por manter a organização da estrutura para defender). Habitualmente, o Marítimo opta por bolas longas à procura da profundidade mas, por vezes, a equipa consegue sair com qualidade, com a bola rente à relva e isso potencia as qualidades das quatro atletas da frente. Isto acontece sempre que Nádia Freitas consegue fazer aquilo que fez neste lance: recuar um/dois metros para se oferecer como apoio frontal, rodar e procurar a melhor opção de passe. Enquanto isso, Telma Encarnação dispara no sentido da baliza e deixa a defesa central na dúvida sobre manter a posição e deixar que Nádia vá receber sozinha nas costas das médios ou acompanhar Nádia e abrir espaço a que Érica coloque diretamente na profundidade para Telma.

Nádia recebeu sozinha, rodou e já está orientada para colocar a bola nos pés de Telma Encarnação. Em poucos toques, o Marítimo consegue construir uma transição com pés e cabeça e que termina em finalização (ainda que Telma pudesse ter optado por colocar em Érica Costa). Muito diferente (para melhor) de apostar na bola longa no instante em que se recupera a posse e com menor risco de nova perda de bola.

Bolas paradas defensivas: um problema

Este é o posicionamento base da equipa do Marítimo na altura de defender pontapés de canto. Uma jogadora em cada poste e uma defesa zonal da área. Existe um problema com defesas zonais: temos que atacar a bola e chegar primeiro do que as adversárias, que atacam de frente, ou seja, com a cabeça orientada para a baliza. A agressividade defensiva é uma peça fundamental para uma boa defesa zonal nas bolas paradas. Essa agressividade falta por vezes à equipa do Marítimo, o que já resultou em alguns golos sofridos de bola parada.

Espaço para melhorias

O Marítimo é uma das equipas mais organizadas da Liga BPI, não haja dúvida disso. Defensivamente a equipa de Luís Gabriel apresenta-se bem montada, apesar dos 27 golos sofridos em 12 jogos no campeonato. É no aspeto ofensivo que a equipa insular pode e deve melhorar.

Nádia Freitas, Érica Costa, Telma Encarnação e Tânia Mateus são jogadoras muito evoluídas tecnicamente e com velocidade, mas nem sempre são servidas nas melhores condições. Há correções que podem ser feitas ao nível da primeira fase de construção, que muitas das vezes nem chega sequer a existir porque à recuperação de bola segue-se um “chutão” para a frente.

Existe também um problema na ligação de setores, porque Telma Encarnação é uma finalizadora por natureza e não tem a tomada de decisão apurada o suficiente para desempenhar uma função onde obrigatoriamente tem que saber servir as companheiras. Uma eventual mudança para o 4-4-2, com Nádia Freitas mais móvel e a ligar setores, ou uma troca direta com Telma Encarnação – que regressaria à sua posição de origem – podiam beneficiar o momento ofensivo da equipa.