MLS – Revolução táctica

MLS – Revolução táctica

Décadas atrás já havia quem ousasse falar numa revolução na MLS e como esta iria subir até ser uma das ligas mais importantes do mundo. A verdade é que tal nunca sucedeu e dificilmente virá a ser uma realidade pelo simples facto da sua localização geográfica que a mantém afastada dos grandes palcos. Mas a evolução para umas das ligas mais importantes e excitantes de acompanhar daquele continente é algo possível e creio cada vez mais provável dada uma certa revolução de pensamento que algumas novas equipas vieram trazer à MLS.

Nos últimos anos a liga alargou consideravelmente com a entrada de novas equipas e com elas trouxeram uma maneira diferente de olhar a constituição de um plantel. O pensamento mais vulgar sobre a MLS é que é uma liga conhecida por contratar algumas estrelas em decadência, que pouco ou nada acrescentam às equipas às quais se juntam, até porque é provável que os próprios jogadores vejam isso como uma “reforma dourada”. A verdade é que hoje em dia vemos equipas da MLS a captar jovens talentos, sobretudo sul-americanos, mas não só, e até jogadores com grande reputação ainda no pico das suas qualidades futebolísticas. O actual campeão, Toronto FC, já conta com Giovinco nos seus quadros desde 2015, LAFC estreou-se na liga com um Carlos Vela ainda com 29 anos e pronto para deixar a sua marca, Atlanta United tem no seu plantel jovens valores pretendidos por essa Europa fora como Almirón ou Barco e jogadores feitos e no seu auge como Martinez, González Pírez ou Villalba.

Tão ou mais importante que isso é que a “revolução” não se fica apenas pelos jogadores mas cada vez mais estão atentos a treinadores que tragam algo, que façam também eles a diferença e recentemente assistimos a um grande confronto tático entre dois excelentes treinadores de ideias muito diferentes: Tata Martino vs Patrick Vieira.

Desde o primeiro jogo do Atlanta United de Tata Martino que pensamento foi que esta seria a equipa mais excitante da MLS e ao mesmo tempo a mais frustrante, pela qualidade do seu futebol, mas também pela irregularidade. E assim foi. O NYC FC, de Patrick Vieira, por seu lado é algo bem diferente e é talvez a equipa da MLS mais “europeizada” em termos táticos. Vieira trouxe grande qualidade à equipa em termos de organização defensiva e transição ofensiva.

Passemos então a uma análise bastante superficial do jogo entre as duas equipas.

Tata Martino começou com um usual 4231 nesta sua experiência nos EUA que foi bem-sucedida em parte, levando a equipa até aos playoffs na sua primeira época mas muito provavelmente terá sentido desconfiança no processo defensivo da equipa e por isso levou a equipa a um sistema diferenciado nesta liga, um 3412 ou 3142 sendo a diferença entre ter um médio defensivo atrás da linha de meio campo ou um médio ofensivo à sua frente.

Acima vemos os 4 do meio campo (embora não seja comum ver o médio esquerdo Garza tão por dentro) e Almirón atrás de Martínez. Normalmente Almirón tem a companhia de Villalba que acaba por alternar com bola entre o 3412 (sobretudo sem bola) e o 343 com a deambulação de Villalba e Almirón. Algo parecido à imagem abaixo mas o médio que aparece mais recuado bem mais subido no terreno.

 

Dinâmicas muito interessantes e difíceis de defender contra jogadores com esta qualidade técnica.

O New York City FC tem um estilo bem diferente, mais ponderado e menos criativo mas extremamente eficaz. Começa logo com grande qualidade na primeira fase de construção em que, saindo sempre a 3 variam o método.

Nas saídas a 3 ora sai o lateral do lado da bola enquanto o do lado oposto junta aos centrais (como na imagem acima) ou baixa um médio e saem os dois laterais (como na imagem abaixo). Não são alterações aleatórias, estas ajudam a criar superioridade no lugar mais importante, onde está a bola. Seja numa ala ou no centro.

Como já referimos, talvez as mudanças de Martino tenham a ver com a vontade de querer uma maior segurança defensiva e dentro deste esquema o Atlanta United fecha sempre com uma linha defensiva de 5 enquanto Almirón se junta a Martínez para pressionar.

Aqui podemos também ver a organização ofensiva do clube de New York, que mantém os 3 atacantes constantemente a tentar explorar a profundidade, seja para receber ou para outro avançado ganhar espaço entre linhas.

Fica aqui apenas um “cheirinho” de que o nível na MLS está a subir e a ficar bastante agradável. Veremos como estas equipas depois conseguirão reagir à perda de talentos e como os vão substituir. Almirón muito dificilmente ficará após o Verão, sendo Itália ou Espanha o destino mais provável. O próprio NYCFC tem uma relação muito próxima com o Manchester City (têm o mesmo dono), tendo alguns emprestados e alguns jogadores nos quadros de observação dos ingleses. Veremos o que nos reserva o futuro em relação à liga norte-americana mas parece sem sombra de dúvida promissor, ficando a faltar a revolução na formação para evoluírem também a sua seleção nacional e captar ainda mais atenções.

Sobre o Autor

André Valente

Mais um apaixonado por futebol e pelo scouting que encontra o seu exponente máximo nos tempos áureos da Serie A. Continuo acompanhante sobretudo do futebol italiano em geral e argentino.

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