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¡Por la gloria Boca!

Um golo de Carlitos Tevez, a dezoito minutos dos noventa, deu o título de campeão da Superliga Argentina ao Boca Juniors. O clube de Buenos Aires conseguiu assim, ultrapassar na última jornada o seu eterno rival River Plate.

Foi um 2020 quase imaculado para o treinador Miguel Ángel Russo, que substituiu Gustavo Alfaro no final de 2019. Em sete jogos do campeonato Argentino, Russo conseguiu obter números impressionantes, com seis vitórias, um empate (no seu primeiro jogo), 16 golos marcados e apenas um golo sofrido.

Assente num 1x4x4x2 muito ofensivo, os Xeneizes podem ser caraterizados pela intensidade e garra com que disputam os seus duelos, mas também pela qualidade individual e coletiva no seu momento ofensivo.

Sistema Tático: 1x4x4x2
1x4x4x2

Em organização ofensiva, o Boca Juniors opta por sair preferencialmente numa construção curta e apoiada, procurando achar continuamente homens livres para lá da primeira linha de pressão adversária, ou, em alguns casos aproveitar a profundidade através de um dos avançados ou dos médios alas (principalmente quando Tevez atrai um dos centrais e liberta espaço entre a linha defensiva). O padrão identificado passa pela construção a dois, com projeção dos laterais e jogo associativo com os pivots defensivos. Por vezes, existe uma permuta de funções entre os dois jogadores do setor médio (e posicionamento – já que um aclara para o outro poder aproveitar esse espaço e receber de frente para o jogo).

Também nesta etapa de construção, existe a tendência para Tevez procurar ser um terceiro médio baixando para o espaço entre linhas de forma a poder receber e desequilibrar. Os médios alas variam a sua posição. Estão maioritariamente abertos, dando largura máxima enquanto criam espaço para a ligação por dentro com o Avançado (principalmente com Tevez em apoio ou com Soldano em profundidade).

Boca Juniors – Etapa de Construção

Na etapa de criação o jogo do Boca define-se pela qualidade individual dos seus jogadores e pela colocação de muitos jogadores no meio campo adversário. Destes destacam-se os médios alas Salvio e Sebastián Villa, o inevitável Carlos Tevez, a qualidade de passe e de associação do médio Pol Fernandez, bem como a potência dos dois laterais (Buffarini e Fabra). Quando a bola recua aos defesas centrais, é comum um dos pivots defensivos entrar no alinhamento (entre os centrais), ou numa posição aberta, quase como lateral, a aparecer de frente para o jogo.

Pol Fernandez baixa entre os dois defesas centrais

Em zonas mais ofensivas, é comum a projeção dos dois laterais ao mesmo tempo, com os médios alas a alternarem um posicionamento por dentro com a largura anteriormente falada. Ambos jogam melhor por fora, embora Salvio consiga jogar por dentro com qualidade. Também nesta etapa, o avançado Tevez, um dos jogadores chaves da equipa, baixa no terreno, procurando ligar o momento ofensivo e potenciar a criação de situações de ataque.
O equilíbrio da equipa neste momento fica um pouco comprometido pela colocação de muitos jogadores à frente. É oferecido apenas pelos centrais e pelos pivots defensivos (embora um deles, principalmente Pol Fernandez, tenha a liberdade para fazer movimentos de rotura e associar-se ao ataque, seja a aparecer na área ou em diagonais exteriores).

Projeção de muitos jogadores no momento ofensivo
Boca Juniors – Etapa de Criação

Embora apresentem um forte ataque posicional, é em ataque rápido e principalmente em contra-ataque que a equipa se revela mais perigosa e capaz de criar danos ao adversário. Quando a equipa recupera a bola, é muito agressiva a transitar para o ataque, procurando criar situações de finalização num reduzido período de tempo.

Estas situações são criadas muitas vezes com uma transição em passe para os jogadores mais adiantados, que por sua vez tentam resolver a situação com a superioridade numérica criada mas também com uma transição em condução rápida, com o portador da bola a recuperar a bola e a progredir rapidamente no terreno (preferencialmente pelo corredor central), com os colegas sem bola a tentarem oferecer o máximo de soluções de passe.

Boca Juniors – Transição Ofensiva

No seu Processo Defensivo, mais do que qualquer questão “tática”, o novo campeão Argentino carateriza-se pela agressividade que os seus jogadores põem em cada duelo defensivo. Procurando organizar-se maioritariamente através de uma marcação com referências individuais, o Boca Juniors tenta pressionar o adversário à saída da sua área, colocando o portador da bola com constante pressão promovendo o erro.

Quando procura Impedir a Construção adversária, o Boca Juniores coloca os seus dois avançados sobre os dois centrais adversários, com o segundo pivot (Pol Fernandez) a pressionar o “seis” adversário. Jorman Campuzano (primeiro pivot) cai sobre o lado da bola procurando condicionar o médio adversário, enquanto o médio ala do lado da bola se ocupa do lateral. O médio ala do lado contrário preocupa-se em fechar um pouco dentro, dividindo a sua atenção com o terceiro médio adversário e o “seu” lateral.

Referências Individuais durante o Processo Defensivo
Boca Juniors: Impedir a construção

Quando o adversário consegue furar esta pressão, a armada Xeneize costuma optar por continuar a pressionar o portador, procurando forçar o erro como forma de impedir a criação adversária. Os jogadores à frente da linha da bola tentam recuperar a sua posição e a organização defensiva compõem-se em duas linhas de quatro mais dois (ou um mais um, quando um dos avançados ajuda no processo defensivo). Com o passar do tempo, é comum vermos a equipa mais exposta, com os jogadores a demorarem mais tempo a voltar e a organização defensiva a ser feita em quatro mais um ou quatro mais dois.

Nestes momentos, conseguimos perceber que existe a preocupação em fechar o corredor central (principalmente os dois laterais), orientar o adversário para os corredores e proteger a baliza a um possível cruzamento com os seus defesas centrais e o lateral do lado oposto. Contudo, e apesar de apenas um golo sofrido em sete jogos, a equipa passou por alguns calafrios consequência de alguns dos seus comportamentos. Destes, podemos destacar algumas dificuldades com o controlo da profundidade e os espaços criados entre a sua linha defensiva, fruto das referências individuais na marcação.

Boca Juniors: Impedir a criação
Fragilidades demonstradas no Processo Defensivo

Ainda descrevendo o processo defensivo, podemos salientar que a transição defensiva é uma réplica da identidade da equipa. Podemos observar que a primeira prioridade após a perda é dar “o passo à frente”, pressionar o portador e tentar recuperar a bola o mais rápido possível. Muitas vezes, e apesar de ser um comportamento mais individual (do jogador que irá “cair em cima” do portador) do que coletivo, a equipa tem sucesso neste momento. Quando o adversário conquista situações de ataque, a equipa volta a tentar organizar-se protegendo a sua baliza e orientando o adversário para o corredor lateral.

Agressividade característica no instante após a perda da bola
Boca Juniors – Momento de Transição Defensiva

À semelhança dos processos em organização defensiva, quando a equipa adversária consegue furar esta pressão, o Boca Juniors mostra-se um pouco desequilibrado, face à inferioridade numérica que passa a apresentar. Também as “virtudes e defeitos” nessa fase do jogo se espelham neste momento. A pressão sobre o adversário, obrigando ao erro costuma ser norma, tendo os restantes jogadores a função de voltar aos seus posicionamentos o mais rápido que consigam. A agressividade e eficácia com que disputam os duelos aquando do passe adversário, acabam por resolver muitos dos seus problemas. Contudo, face a alguns comportamentos (necessidade do portador estar sob constante pressão, mesmo que para tal seja necessário sair um defesa central da linha de quatro; marcações homem-a-homem; e ausência de grandes referências no controlo da profundidade) nem sempre tal é possível.

Quando a defesa está exposta a tendência é de não retirar muita profundidade, manter a altura da linha com um DC a preparar o encurtamento sobre o portador.
Fragilidades no momento após Transição Defensiva

Face à sua campanha com resultados e exibições em crescendo, podemos considerar esta potência futebolística como uma obra em evolução que ainda poderá melhorar e dar ainda mais alegrias ao seu 12º Jogador, os seus adeptos na Bombonera. Para eles, o céu é o limite e a “Libertadores uma obsessão”, mas esta reviravolta no campeonato deixou todos a sonhar.