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A posse de bola no futebol é um indicador de desempenho bastante discutível no seu sentido prático. O futebol moderno trouxe vários exemplos de equipas que traduzem a mesma nas mais diversas formas atacar.

É consensual que o seguimento que cada equipa dá a uma posse de bola é diferenciado, pois nem todas jogam de igual forma. Contudo, é comum associar a posse de bola como um indicador base para justificar resultados ou sugerir que uma equipa obteve um melhor desempenho do que a outra. Esta posse de bola é apenas um indicador de performance, entre tantos outros, que deve ser contextualizado de igual forma. No fundo deste conceito está a valorização da mesma e seu significado, ou, neste caso a sua eficácia. Não irá adiantar muito a manutenção da posse de bola em meio campo defensivo e com um resultado negativo no jogo.

A evolução do futebol aponta para uma constante adaptação na estratégia e formas de jogar, o que permite, consoante o momento, valorizar de forma diferente a posse de bola. Mas nem todas as equipas dispõe das mesmas armas, e, neste sentido, umas preferem dar a posse de bola ao adversário e depois contra-atacar, esperando que o adversário se desorganize. Outras optam por desenvolver um ataque rápido, independentemente da organização do mesmo, preferem não ter muito tempo a bola, e procuram essencialmente a eficácia no processo. Por fim, existem equipas em que a posse de bola é um fator primordial no jogo, e que, a partir deste ponto, pensam mais no jogo e na forma de chegar ao sucesso. A valorização da posse de bola para determinado tipo de equipas até poderá ser feita com o intuito de desmontar a estrutura do adversário, obrigando o mesmo a pressionar em espaços estratégicos.

Após abordar o tema da posse de bola e as implicações práticas da mesma quanto às várias formas de jogar para cada equipa, iremos partir para uma análise e contextualização da posse de bola referente às equipas da Liga Portuguesa. Os dados apresentados de seguida foram retirados da plataforma Instat.

Posse de bola por jogo

No seguinte ranking da posse de bola (tabela 1), é possível verificar que entre o primeiro classificado e o último, a diferença para o tempo de posse é de 10 segundos, o suficiente para uma equipa obter vantagem através da desorganização do adversário, ou, por outro lado, o tempo necessário para pensar e encontrar a fragilidade do adversário (equipas de topo).

Entre o top-3 das equipas com mais tempo de posse de bola, os valores diferem muito pouco, com a equipa do Sporting Clube de Portugal a liderar o ranking do tempo de posse de bola. Abordando este ponto pelo aspeto defensivo, as equipas mais pequenas geralmente assumem um bloco baixo contra as equipas grandes. Podemos constatar atualmente que o nosso futebol (liga Portuguesa) apresenta uma evolução no sentido em que existem mais equipas a procurar jogar de igual para igual, não necessariamente pelo bloco defensivo, mas pela capacidade de manter a posse de bola com um objetivo. Partindo do princípio que existem adversários a jogar com blocos mais baixos, algum do tempo de posse de bola poderá ter sido consentido à equipa do Sporting. As equipas que não têm capacidade para pressionar em zonas altas do campo não vão arriscar a deixar tanto espaço nas costas da defesa, “oferecendo” desta forma o tempo e espaço ao adversário para ter a bola em primeira fase (meio campo defensivo).

Desta forma, nas últimas 3 jornadas do campeonato, a equipa do Sporting obteve 83% de posse de bola na 24ª jornada, a jogar em superioridade numérica contra o Clube Desportivo das Aves (último classificado). Na 23ª jornada, obteve 65% de posse de bola, contra a equipa do Futebol Clube de Famalicão (sexto classificado) e, finalmente, a 22ª jornada, contra a equipa do Boavista Futebol clube (oitavo classificado) com 63% de posse de bola. Tendo em conta a constatação anterior, estes dados podem bem cruzar com formas de jogar, posicionamentos baixos e/ou mesmo necessidades momentâneas dos adversários. Uma abordagem diferente poderá ser feita em relação ao aspeto ofensivo, pois verificamos nas situações de posse de bola até 5 segundos, que quanto mais baixo descemos no ranking, mais ocasiões temos. Este dado sugere, de algum modo, a necessidade da maioria das equipas em atacar rapidamente. A diferença já não é tão acentuada no desenvolvimento dos ataques entre 5 a 15 segundos. Daqui para frente, quanto mais duração de ataque, menos ocasiões, separando-se assim, as ditas equipas grandes, para as restantes. A equipa do Rio Ave Futebol Clube, uma agradável surpresa, confirma a referência anterior, quando falamos na evolução do futebol em Portugal, pois consegue estar no topo das equipas que mantêm a posse de bola por mais tempo.

A equipa do Sport Lisboa e Benfica surge no 2º lugar neste ranking, apresentando menos posse de bola, consegue ser mais eficaz ao concretizar 52 golos (mais 15 golos do que o líder do ranking). No 3º lugar do ranking, a equipa do Futebol Clube do Porto, é a que tem maior percentagem média de posse de bola por jogo, mas das equipas em que houve menos quantidade de posses de bola. É também das equipas do topo da tabela classificativa da liga Portuguesa que tem mais ataques até 5 segundos de duração, concretizando 50 golos (mais 13 golos do que o líder do ranking). Novamente, com menos tempo para desenvolver o ataque, consegue ser mais eficaz.

Posse de bola em meio campo ofensivo

No seguinte ranking de posse de bola (tabela 2), temos o número de entradas para cada equipa em setor ofensivo.
A equipa do Vitória de Guimarães, 6ª classificado da liga Portuguesa, não sendo a que tem melhor média de ataques por jogo, é a que consegue passar mais tempo em posse de bola no meio campo ofensivo (67%), quarto final de campo (48%) e área do adversário (18%), juntamente com o Porto (esta última). O Vitória de Guimarães, é mais uma equipa em constante evolução quanto aos processos de jogo, e que na presente época participou nas competições Europeias.

Contrariamente ao que vimos na tabela anterior, neste ranking, a equipa do Sporting apresenta-se em último lugar, como a equipa com menos ataques, o que significa que apesar de mais tempo de posse de bola (valores da tabela anterior), é uma equipa que, consoante estes dados, sugere a valorização da mesma com menos objetividade. É apenas o 5º classificado do ranking, no que se refere à posse de bola no meio campo e área do adversário e 4º classificado em relação ao quarto final.

Média de ataques por jogo

O Sporting Clube de Braga é a equipa que lidera o ranking de ataques (tabela 3), no entanto, não significa que também tenha a melhor média de golos. Neste ranking, é a equipa do Benfica que traduz o melhor aproveitamento em relação ao número de ataques, embora estando apenas posicionado em 4º lugar, consegue ser a mais eficaz.

Em relação ao número de ataques, podemos verificar que as equipas com mais eficácia são as que estão presentes também no topo da classificação do campeonato Português à 24ª jornada (Porto – 1ª classificado, Benfica – 2º classificado e Sporting de Braga – 3º classificado).

Em relação ao método de ataque, podemos indicar que nem todas as equipas conseguem jogar em ataque posicional, pois existe uma maior variação em relação ao número médio de ataques através desta forma de jogar. Por outro lado, o mesmo não se sucede no contra-ataque, em que a mesma variação é mínima, sugerindo que a maioria das equipas conseguem, mais facilmente contra-atacar do que realizar um ataque posicional.

A melhor média de golos em ataque posicional é apresentada pela equipa do Sporting de Braga, em conjunto com o Porto. O mesmo já não se sucede em relação ao contra-ataque, pois neste parâmetro, a equipa do Famalicão é a que mais eficácia tem, seguindo-se o Benfica e Vitória de Guimarães.

Se relacionarmos a eficácia das bolas paradas com os restantes métodos, é o segundo que mais eficácia tem em média por jogo. Neste indicador, a equipa do Porto é a que mais eficácia apresenta, seguido de Benfica, Sporting e Moreirense Futebol Clube. Podemos ainda constatar que várias equipas têm mais sucesso nas bolas paradas do que nos restantes métodos, como os casos do Clube Desportivo Santa Clara, Clube Desportivo das Aves, Clube Sport Marítimo, Clube Desportivo de Tondela e Boavista Futebol Clube. Isto significa que este conjunto de equipas podendo ter mais dificuldades em ser eficazes na chegada ao golo através de ataque posicional ou contra-ataque, procuram apostar nas bolas paradas. Neste momento do jogo, realce novamente para o lote de equipas que conseguem ser de algum modo destacadas pelo seu processo de qualidade.

Passes

No ranking de passes (tabela 4), a equipa do Benfica é a que mais ações em média executa por jogo, embora a equipa mais eficaz neste parâmetro seja o Sporting (86%), seguido de Porto (85%) e Benfica (84%). Em termos de precisão no passe ofensivo, a equipa do Sporting é novamente líder (81%), seguida de Benfica e Porto (ambas com 79%).

Se formos a considerar a valorização que cada equipa oferece à manutenção da posse de bola, naturalmente que equipas como o Benfica aparecem no topo. Mas se verificarmos a eficácia em relação aos passes chave, a equipa do Futebol Clube Paços de Ferreira é a que lidera o ranking com 56% de eficácia, seguindo-se a equipa do Vitória de Guimarães (54%), Porto e Moreirense (ambos com 52%). Estes dados conferem o que foi dito no início do artigo: as diferentes equipas podem dar seguimentos diferentes à posse de bola, procurando umas ter a bola mais tempo, com atletas para desequilibrar a qualquer momento, e outras em que, interessa aproveitar o tempo de ataque em curta duração e poucos passes.

Análise individual

Em termos de passes (tabela 5), Wendel (médio do Sporting) é o jogador com mais eficácia na ação (93%), com um total de 1134 ações e uma média 65 passes certos por jogo. Apesar de apresentar uma boa relação entre ação/eficácia, é apenas o 17º do ranking de passes, liderado por Alex Grimaldo (lateral do Benfica), com 1662 ações e uma eficácia de 82%. Estes dados destacam a importância de ambos na etapa de construção das respetivas equipas, o primeiro pelo corredor central e o último corredor esquerdo. Em relação ao passe chave, apesar de Pizzi (médio do Benfica) liderar este ranking, com 88 passes chave em média por jogo, tem apenas uma eficácia de 44%, um pouco distante do melhor jogador neste parâmetro, Acunã (extremo do Sporting), com 67% de eficácia em 45 passes.

Em zonas mais próximas à baliza do adversário, referente a passes dentro da área, temos novamente Pizzi no topo da tabela, embora sem ser o jogador mais eficaz (49% em 247 ações), é Jesús Corona (extremo do Porto) o mais eficaz (55% em 179 ações). Nos cruzamentos, temos Nuno Santos (extremo do Rio Ave) a liderar com 28% de eficácia em 114 ações, perdendo a nível de eficácia neste parâmetro para Ricardo Esgaio (lateral do Sporting de Braga), com 40% de eficácia em 81 ações.

O maior destaque em ataques com golo vai para Pizzi, com uma média de 58% de eficácia. Tem 14 golos marcados (média de 0,60 por jogo) e 8 assistências para golo no campeonato (média de 0,30 por jogo). Na segunda posição deste ranking, da mesma equipa, está Carlos Vinícios (avançado do Benfica), com uma média de 44% de eficácia, conta com 16 golos marcados (média de 1 por jogo) e 5 assistências (média de 0,30 por jogo). Para fechar o top-3, temos Alex Telles (lateral do Porto), com uma média de 42% de eficácia. Este último, conta com 8 golos marcados (média de 0,40 por jogo) e 5 assistências (média de 0,20 por jogo). Estes dados espelham a qualidade a nível individual que as equipas com maior performance dispõe para atingir os melhores resultados.

Análise resumo da eficácia ofensiva à 24ª jornada

Como podemos constatar, existiram vários indicadores de performance apetecíveis de discussão, que de alguma forma conseguem traduzir-se em resultados desportivos, embora uns mais eficazes do que outros (tabela 7).
Assim, podemos concluir que o sucesso não se sucede para a equipa que mais ocasiões dispõe para a manutenção da posse de bola, mas sim na tradução de uma maior eficácia quando a mesma procura um dos objetivos do jogo (marcar golo). Neste caso, o 1º atual classificado da liga Portuguesa, lidera a tabela com menos quantidade de posses de bola, mas com uma maior percentagem de entradas na área do adversário e passes chave. O método de jogo ataque posicional da equipa do Porto e o momento das bolas paradas parecem ser os mais eficazes, numa equipa em que a agressividade está patente, traduz bem a eficácia ofensiva na relação qualidade/quantidade, quer em momentos de jogo, quer em ações.

Em 2º lugar, a equipa do Benfica, parece adotar um estilo de jogo em ataque rápido e contra-ataque (seguindo os dados fornecidos), pois é a equipa que melhor proveito retira através deste último método de jogo. Os números de posses de bola não diferem muito da equipa anterior, tal como a percentagem de entradas na área, embora com uma menor diferença em relação os passes chave. A eficácia das bolas paradas, também aqui bem presente, são efetivadas por jogadores de grande qualidade técnica a nível de execução (como já vimos anteriormente em relação à eficácia do passe), pelo que é bastante previsível este tipo de equipas conseguirem obter golos através deste momento.
Em 3º lugar, a equipa do Sporting de Braga, é a que tem maior número de posses de bola, embora com menos entradas na área do adversário, é através do ataque posicional que retira a maior eficácia para obter golo. Não é das equipas com menos eficácia no contra-ataque, pois neste top classificativo de equipas com probabilidade de serem qualificadas para as competições europeias, é a segunda com maior eficácia. É também a segunda que mais eficácia tem em relação ao passe chave, indicador que ao juntar ambos os métodos patentes nesta equipa, consegue para além de ser moldável, também ser eficaz. Por fim, é nas bolas paradas que a equipa demonstra menos resultados, sendo a pior deste grupo.

Na cauda das equipas com pretensões europeias, a equipa do Sporting é a que menor quantidade de posses de bola tem em média por jogo, pior eficácia a nível do ataque posicional e contra-ataque (este último a par com o Porto). É também a 3ª pior em termos de eficácia nas bolas paradas e passes chave.
Todos estes indicadores de performance originam resultados desportivos, em que, quanto mais objetiva for a posse de bola, maior eficácia terá a equipa.