Tendências Tácticas do Euro

Tendências Tácticas do Euro

Com a progressão da competição, fomos capazes de testemunhar uma série de tendências tácticas partilhadas por muitas equipas no torneio. Embora não tenha havido um padrão específico em termos de formações como vimos com as defesas a 3 no Campeonato do Mundo de 2014, houve tendências claras em regimes de marcação, estratégias ofensivas e outras características tácticas.

Neste artigo, vou olhar para os dois temas mais prevalecentes que vimos na competição internacional deste ano.

Marcação ao Homem

A orientação é uma das acções mais básicas no futebol, o que implica o modo de agir de acordo com certos pontos de referência. Do ponto de vista defensivo, é um dos factores mais decisivos na forma como a equipa decide organizar-se contra a oposição. No geral, há quatro pontos de referência no futebol – a baliza, a posição da bola, a oposição e os seus companheiros de equipa. A bola e a baliza são as duas orientações base porque o objetivo do futebol é marcar, colocando a bola na baliza do adversário, enquanto os impedimos de fazer o mesmo. A oposição e os seus companheiros de equipa são, por outro lado, algo mais dinâmico e complexo.

In a position-oriented defence, the team maintains its shape as it shifts across the pitch.
Numa defesa orientada para a posição, a equipa mantém a sua posição ao longo do campo

Por exemplo, se uma equipa defende com um esquema de marcação à zona orientada ao posicionamento, então o seu ponto de referência principal para o seu posicionamento é a posição de seus companheiros de equipa. Eles mantêm o seu esquema face aos movimentos dos opositores e agem num bloco fechado sem sair para seguir os oponentes nos corredores. Um bom exemplo disso foi o Gladbach de Lucien Favre, ou a equipe atual do Villarreal.

Durante toda a competição do EURO 2016, a orientação defensiva mais comum tem sido o posicionamento da oposição, ou uma defesa orientada para o homem. Ao agir a partir de uma posição de base zonal com tais orientações ao homem, trata-se de uma equipa de marcação à zona onde os jogadores irão orientar-se para cobrir um oponente se eles vêm para dentro de seu espaço.

In a man-oriented defence, the players flexibly cover nearby opponents.
Numa defesa orientada para o homem, os jogadores cobrem os seus adversários mais próximos

No cenário acima, a bola é tocada para o lateral direito e a defesa reage, cobrindo todos os jogadores próximos. O ‘8’ perto da bola posiciona-se para cobrir o ‘8’ do lado direito do adversário enquanto o ‘8’ mais afastado da bola está a cobrir o atacante no meio. Enquanto eles cobrem os adversários no centro, o extremo mais perto da bola move-se para a atacar enquanto o atacante bloqueia o acesso para o ‘6’ adversário.

Observe a diferença fundamental para a abordagem mais rígida da marcação ao homem. Em vez de seguir os jogadores individuais de perto e de se manterem de pé, os defensores estão a posicionar-se de forma flexível, para que possam cobrir o jogador sem ser em cima dele. Devido a isso, podem manter uma posição defensiva mais apropriada e não são arrastados para fora da posição muitas das vezes.

Em comparação com os meios mais extremos de orientações à posição e marcação ao homem, este esquema é um pouco o intermediário entre as diferentes formas de orientação defensiva. Ele permite que uma equipa tenha um posicionamento mais consistente e estável em relação à marcação ao homem já que o seu posicionamento não é tão afectado pelos adversários. Por outro lado, eles são mais capazes de pressionar eficazmente do que com uma abordagem orientada para a posição devido à proximidade mais estreita para os jogadores adversários.

Esta flexibilidade é, possivelmente, uma razão significativa pela qual tantas equipas têm defendido neste estilo ao longo do torneio. A abordagem orientada para o homem pode atender às necessidades de estratégias defensivas de muitas das equipas e em nível teórico permite manter um posicionamento estável tendo ao mesmo tempo possibilidade de aplicar pressão sobre a bola. É relativamente um bom ponto médio entre os dois extremos da marcação à zona e marcação ao homem. (Se for executado de forma eficaz) pode combinar as vantagens de ambas as extremidades.

Fora de essa explicação, uma abordagem orientada para o homem permite que uma equipa possa mascarar os efeitos negativos do tempo reduzido de treino que passou como um grupo. Uma abordagem mais simples do que algo como um bloco orientado à posição, que exige um nível menor de coesão e sinergia dos jogadores – algo que as equipas tinham claramente em falta ao longo do torneio. Com jogadores juntos por um tempo tão curto antes do torneio começar, é muito difícil para os treinadores os terem a actuar num sistema complexo.

Muitas equipas, como Portugal e a Croácia exerceram essas orientações ao homem quando não tinham a posse. Contra a Espanha, a Croácia usou a táctica para tentar e forçar situações 1v1 e desafiou-se para recuperar a bola em posições adiantadas no campo. Ao cobrir de perto os jogadores da oposição, enquanto defendia, a Croácia foi capaz de aplicar pressão individual e, assim, criar situações instáveis de 1v1 adequadas ao seu plano. Com uma capacidade reduzida para combinar como um grupo, a Espanha não foi capaz de ter o nível de circulação de bola por qual são famosos, a fim de contornar a pressão. A Croácia executou esta estratégia defensiva de forma eficaz na sua vitória e esteve perto do golo em algumas ocasiões, depois de ganhar a bola dentro do último terço da Espanha.

Croatia used man-orientations against Spain to generate access and force 1v1 defending.
Croácia usou um marcação ao homem frente à Espanha para criar espaço e forcar o 1×1 defensivo

Por outro lado, Portugal recorreu a este regime numa abordagem mais defensiva contra a Croácia na primeira fase a eliminar. Os jogadores cobriam o seu homem no meio-campo para bloquear opções de passe para o centro e beneficiar do acesso defensivo acima mencionado. Através disso, a sua pressão no meio-campo tornou difícil para a Croácia jogar através dos seus médios-campistas pelo interior. Em casos específicos, os portugueses chegaram mais longe, por vezes usando a marcação ao homem para impedirem jogadores-chave como Modric e Rakitic de terem a sua influência habitual no jogo.

Portugal covered their man closely against Croatia in order to restrict the influence of players such as Luka Modric.
Portugal fez uma boa cobertura defensiva contra a Croácia para restringir a influência de jogadores como Luka Modric

Exemplos destes podem ser vistos por toda a parte. Na surpreendente vitória da Islândia sobre a Inglaterra, os dois atacantes posicionaram-se de forma flexível quando pressionavam para cobrir eventuais passes para Eric Dier, que era o único ‘6’ da Inglaterra para começar. Apesar de ter sido feito circunstancialmente, eles geralmente não marcaram directamente Dier mas em vez disso mantiveram o acesso da defesa a partir de posições próximas, dando-lhes maior flexibilidade e ao mesmo tempo capaz de interceptar qualquer passe para o espaço à frente do meio-campo.

Em posições mais recuadas, o quarteto estreito no meio campo ajustou-se de acordo com a presença de Rooney e Alli. Ainda que o Alli tivesse sido muito dinâmico nos seus movimentos, os islandeses restringiram a sua influência em posições adiantadas enquanto mantinham a estabilidade defensiva, o que atenuou significativamente o ataque inglês. Através deste esquema defensivo, os “peixinhos” foram capazes de manter uma defesa estável que raramente perdeu o seu posicionamento enquanto que a Inglaterra falhou dramaticamente na abertura de espaços pelo centro do terreno.

Problemas
Enquanto algumas equipas tiveram sucesso a defender de tal forma, muitas equipas foram bastante inflexíveis nas suas abordagens da marcação ao homem. Os jogadores fixam-se muito perto do seu adversário e por consequência são arrastados para fora da sua posição tal como a defesa perde o seu posicionamento e estabilidade.

Reacção

Uma das maiores limitações no que toca a esta forma de defender é a sua natureza reactiva. Quando se fica perto do adversário e a seguir os seus movimentos na defesa, as tuas acções são inteiramente reaccionárias porque estarás a copiar o que vês o teu oponente fazer. Quando temos em conta o tempo de reacção de um jogador, pode ser problemático porque inevitavelmente significa que o defesa está um passo atrás do opositor.

Obviamente, um atacante sabe os seus movimentos antes de os executar e pode com antecedência planeá-los de acordo com a informação contextual e a sua leitura táctica. Entretanto, um defesa em perseguição deve esperar que o atacante faça o seu movimento para que então possa ler a situação e reagir de acordo com o contexto e a sua leitura. Neste tempo de reacção entre ver a acção do atacante e ter a sua própria reacção, o avançado pode ganhar tempo valioso que lhe pode dar espaço para infligir danos. Apesar da reacção visual de um futebolista ser muito baixa, estes milissegundos podem fazer toda a diferença em situações de aperto, especialmente se Otto Porter decidir saltar da NBA.

Fora do tempo actual de reacção, a reactividade da marcação ao homem é problemática já que a posição da tua defesa é determinada pelo posicionamento da oposição. É o convite perfeito para os atacantes desestabilizarem o bloco defensivo ao arrastar jogadores para fora de posição. Se for bem implementado, então a flexibilidade de um esquema orientado ao homem significa que tal não acontece face ao movimento da oposição. Mas, assim que os defesas comecem a fixar de forma muito rígida perto do seu homem tal como muito aconteceu no EURO, o posicionamento pode-se perder.

A man-oriented defence without flexibility can result in a unstable shape.
Uma defesa orientada ao homem pode tornar-se instável se for inflexível

Flexibilidade e individualismo

Outro problema é se uma defesa orientada ao homem se torna demasiado próxima à marcação ao homem com uma flexibilidade reduzida. Se um jogador utiliza de forma tão rígida um oponente como a sua referência primaria, então torna-se difícil para ele ter em conta outros factores que requerem mais atenção. Os jogadores podem-se focar no seu oponente designado e a sua ‘visão em túnel’ reduz a capacidade de os apanhar em outras situações tácticas que vão assim passar despercebidas.

If a player is tightly covering his man, he's less able to support teammates and cover space.
Se um jogador está a cobrir um homem, é menos capaz de ajudar os colegas e preencher os espaços

A fixação de um jogador do seu oponente significa que o jogador pode muitas vezes ter uma capacidade reduzida para cobrir espaço ou mudar para outro atacante por exemplo. Esta abordagem defensiva rígida pode levar a uma natureza robusta para um único jogador já que lhe foi designado um oponente e nada mais. Se a sua responsabilidade for simplesmente seguir o seu alvo e parar passes a ele dirigidos, então o defesa não vai ser capaz de cobrir espaço e os seus colegas de forma eficaz. Outra característica de uma abordagem defensiva rigidamente focada no adversário é a natureza individualista que mostra. Similarmente ao ponto acima, se um jogador está demasiado focado nas suas próprias responsabilidades então a sua capacidade de apoiar os colegas de equipa é reduzida. Isto não só dá à defesa menos flexibilidade, mas geralmente significa que o suporte entre jogadores é difícil de concretizar.

Contrastando com um esquema orientado ao homem melhor executado as diferenças são claras. Com defesas a cobrir os oponentes flexivelmente enquanto mantêm a sua posição, podem ajudar a cobrir espaços abertos ou apoiar colegas de equipas nas suas funções sem a posse de bola. Como resultado desta flexibilidade, a defesa torna-se mais adaptável contra a oposição e com isso ser mais estável em manter o controlo sem a posse de bola.

Marcação ao homem especifica/situacional

Com este esquema defensivo orientado ao homem, um número significativo de equipas estão também a usar uma marcação ao homem situacional para contrariar cenários específicos. Quando é necessária uma maior pressão defensiva, um oponente chave é preciso ser seguido de perto ou simplesmente uma função mais básica e pedida a um jogador, isto pode ser usado para atingir certos objectivos da equipa que defende. No exemplo dado acima, Portugal usou uma marcação ao homem situacional no meio campo de forma a travar Modric, Badelj e Rakitic de influenciarem o jogo.

Many teams shifted to pure man-marking when pressing higher up.
Muitas equipas adoptam uma marcação ao homem quando pressionam alto

Muitas equipas alternam para uma defesa baseada na marcação ao homem quando procuram pressionar alto até à metade do campo adversário. Cada avançado marca um adversário e bloqueiam qualquer opção de passe para o jogador com a bola enquanto pressionam alto no campo com a intenção de forçar contra-ataques. Em muitos casos são capazes de dividir o momento em duelos individuais e isolar jogadores para longe do portador da bola de forma a romper a construção adversária. Em certas equipas isto é estendido para a base das funções defensivas de alguns jogadores. Aos jogadores são lhes dadas responsabilidades defensivas especificas que são alheias ao esquema colectivo. Enquanto os seus colegas são mais flexíveis, esses jogadores seguem de forma mais rígida o seu adversário num estilo defensivo de marcação ao homem. É mais comum isto se verificar em zonas abertas do terreno nas funções dos extremos em que lhes é pedido para seguirem os laterais adversários nas suas investidas nos flancos. Se os laterais estiverem principalmente a atacar, pode levar a que uma defesa se forme com uma linha de 5 ou 6 atrás com os extremos a baixar no terreno para junto dos colegas laterais.

Slovakia moved into a back-5 due to the man-marking of the wingers in deeper zones.
A Eslováquia adoptou uma defesa a 5 devido à marcação ao homem dos seus extremos aos laterais contrários

Não havendo a ajuda dos extremos nas zonas de meio campo, pode-se criar uma defesa instável que certamente fraquejará. Tendencialmente assumindo um esquema 5-3-2 ou um esquema 6-3-1, a cobertura defensiva dos extremos (que alternadamente estão nos seus respectivos espaços médios) falta e os médios interiores podem ser expostos sem esta ajuda.
Como resultado da falta de apoio do extremo que está perto da bola, a cobertura defensiva do espaço médio perto da bola é mínimo. O médio interior é geralmente o único jogador a ocupar esta zona e assim exposto à superioridade numérica dos atacantes pelo seu lado. Desde o espaço médio, a equipa que ataca pode beneficiar de maior tempo e espaço ao fazer passes na diagonal para dentro para chegar ao golo.
Se os dois laterais caírem na linha defensiva e assim formando uma cadeia de 6 homens, então a equipa atacante pode procurar explorar tais situações com mudanças de jogo. Ao trocar a bola de um espaço médio para outro, a equipa pode explorar espaços descobertos no lado oposto do campo devido ao posicionamento recuado dos laterais defensores. É um bom método para abrir linhas de passe uma vez que os defesas ainda estão a mudar-se para ganhar acesso defensivo e a partir disto, podem ser ultrapassados.

No confronto da Inglaterra com a Eslováquia, isto foi uma situação comum quando a equipa de Hodgson tinha a bola no terço do adversário. Quando Bertrand ou Clyne se movimentavam para posições avançadas, os extremos opositores seguiam-nos de perto e caíam em zonas recuadas na linha defensiva. Através disto gozaram de maior espaço no centro do terreno e dominaram bem o jogo, criando 2,1 golos esperados ao longo dos 90 minutos.

Problemas estruturais

Um tema comum para muitas equipas, tanto de elite como mais pequenas no torneio tem sido o fraco nível de espaçamento quando em posse de bola. As estruturas posicionais das equipas eram desequilibradas com áreas chave do terreno deixadas desocupadas o que tem um efeito prejudicial nos seus jogos de posse. Quando em posse, os jogadores demonstram falta de sinergia e entendimento o que é comum a níveis internacionais e como resultado, o nível e qualidade das ligações dentro das estruturas atacantes são geralmente insuficientes.

O posicionamento é uma das, se não mesmo a mais importante parte do futebol e é crucial ao determinar como e quão bem uma equipa ataca. A sua estrutura deve ser adequada à estratégia atacante, permitindo um certo nível de circulação de bola ao mesmo tempo. De forma a criar e a abrir espaço, a equipa geralmente precisa de ser bem estendida ao longo do campo com boas distâncias entre colegas de equipa. Apesar da sua importância, muitas equipas falharam em fazê-lo no torneio com uma distribuição fraca dos jogadores na largura e comprimento do campo.

Criação e utilização do espaço

Um dos principais benefícios de uma estrutura posicional forte é, e como acima mencionado, que permite uma equipa que maximize o espaço utilizável. Isto não significa simplesmente esticar a oposição dos dois lados, mas também ocupar os espaços interiores chave. Se existem dois extremos a esticar o jogo mas ninguém a aparecer entre linhas no centro então a vantagem da largura é bastante desperdiçada. Ao ser bem espaçada em campo, a equipa pode ter ligações fortes entre colegas de equipa enquanto se distanciam dos defesas opositores de forma a criar espaço. Através disto, uma equipa automaticamente tem uma grande capacidade de gerar buracos entre a defesa adversária e em áreas ao longo de toda a largura do terreno.

Embora escusado será dizer que tais benefícios significam que automaticamente um ataque será um processo mais facilmente executado. A circulação de bola é ajudada através do aumento de espaço para a equipa e para a individualidade enquanto que espaços eficientes entre jogadores fazem do movimento da bola mais livre e rápida contra os movimentos dos defesas. Ao ocupar variavelmente posições horizontais e verticais no campo, a equipa é também mais capaz de gerar triângulos e outras formas para ajudar as combinações, tal como a procurar espaços entre linhas da oposição também.

Russia's attacks were often severely disconnected.
Ataque russo com pouca conexão entre sectores

Uma equipa que particularmente teve problemas com isso foi a Rússia. Uma das maiores decepções da competição, a equipa que geralmente deixava largos espaços descobertos no ataque o que fez com que fosse um conjunto disfuncional. Com esses espaços desocupados, eles obviamente não foram capazes de atacar usando os mesmos e não só resultou num ataque mais fraco, mas também permitiu a defesa focar-se em outras áreas.
Como resultado dos largos espaços deixados abertos, a Rússia não só foi incapaz de os usar mas também significou que os seus ataques foram desconetados. Sem jogadores entre esses espaços para ligar todo o esquema, a posse pôde ser isolada num lado do campo sem maneira de progressivamente trocar a bola. No exemplo à esquerda, a Rússia teve de recorrer a uma troca longa para uma área isolada do campo porque não tiveram nenhumas opções de passe para a progressão pelo meio. Sem ninguém para passar entre as linhas defensivas eslovacas tiveram de tentar bolas longas para o flanco esquerdo. Com o ponta de lança mal posicionado, os laterais facilmente interceptam uma bola longa com os seus colegas de equipa a oferecer maior apoio que o adversário.

Proteger a transição

Outro benefício importante de uma boa estrutural posicional vem depois da perda de bola. Com os contra-ataques da oposição na mente da maioria das equipas, uma forte estrutura posicional é importante na prevenção ou pelo menos para retardar os ataques adversários.

Having strong numbers around the ball upon turning it over allows for a stronger counterpress.
Ter um bom número de jogadores à volta da bola após a perda, permite uma melhor contrapressão.

O conceito é simples – Se tiver jogadores a cobrir as zonas chave do meio campo e espaços à volta da bola quando se a tem, então estarão numa boa posição para se defenderem se ocorrer uma perda de posse. Rodeando a bola de jogadores permite que uma rápida contrapressão possa ser feita, enquanto que membros extra estão a cobrir espaços importantes no meio campo o que significa que podem proteger esses espaços de um contra-ataque da oposição.
Ter uma forte estrutura posicional com uma alta orientação da bola é importante quando chega a altura de contra pressionar depois de perder a bola. Como mostrado à esquerda, o elevado número de jogadores perto da bola significa que um deles pode aplicar uma maior pressão e como resultado ter uma maior probabilidade de voltar a ganhar rapidamente a posse de bola. A contrapressão em si é muito benéfica tanto pela perspectiva defensiva como atacante.

A pressão defensiva imediata pode resultar como meio para retardar qualquer ataque da oposição. Ao pressionar imediatamente quando a bola é perdida, uma equipa pode forçar a oposição para longe do seu objectivo e congelar um potencial ataque rápido. Através da cobertura imediata das opções de passe do portador da bola para os atacantes, a agora equipa que defende pode impedir os seus adversários de progredir com a bola para a frente depois de a ganhar e em vez de isso forçar ou um drible pouco eficaz ou um passe atrasado. Também pode ser usado para forçar um corte para fora (e com isso ganhar a posse) através da pressão imediata no adversário. Como a bola é ganha no fundo entre o meio campo adversário, é provável que eles não queiram correr o risco de a perder de novo em posições perigosas e optam assim pelo seguro que é o alivio. Além disso, uma vez que a bola é ganha via contrapressão em zonas altas um contra-ataque perigoso pode ser feito. A oposição é muitas vezes instável uma vez que os jogadores já começaram a movimentarem-se para o ataque de forma a apoiar o contragolpe. Devido a isto, a equipa que faz contrapressão tem mais espaços abertos para atacar depois de ganhar a bola numa já posição avançada. O treinador do Liverpool Jürgen Klopp descreveu a contrapressão como o “melhor construtor de jogo do mundo” devido ao potencial ofensivo encontrado ao pressionar logo após perder a bola.

Due to their disconnected attacking shape, Hungary were exposed on defensive transition.
Devido à sua falta de ligação no ataque, a Hungria ficou exposta em transições defensivas

A Hungria foi uma das muitas equipas durante o torneio que muitas vezes falhou a fazer uma contrapressão eficaz, como na sua pesada derrota frente à Bélgica. A maior razão da sua incapacidade recai sobre a sua fraca estrutura posicional quando em posse, que pode ser traduzida num fraco posicionamento para contra pressionar aquando uma perda de bola. Não só o seu ataque levou pouco perigo devido à falta de ligações fortes durante a organização atacante, mas assim que concederam a posse, o seu meio campo estava também aberto. Devido à sua organização desconexa, os velozes atacantes da Bélgica foram capazes de rapidamente atacar os espaços depois de ganharem a bola. O cenário à esquerda é um exemplo primário das falhas da Hungria na sua derrota de 4-0 contra a Bélgica de Wilmots. A cobertura dos húngaros no centro do meio campo é quase inexistente e sem surpresa entregam a bola. A Bélgica teve de imediato convite para espaços por onde pôde atacar.

Integração do jogador

Um terceiro factor chave de uma estrutura posicional é a importância de retirar o melhor de cada jogador dentro dela. Quase tudo no futebol é apontado de uma maneira ou de outra para a maximização da capacidade dos jogadores em executar uma acção. Em termos de espaçamento, é uma questão geralmente de criar espaço para um jogador, ou metê-los numa posição em campo que sirva melhor as suas capacidades. Por exemplo, um jogador como Mesut Özil que é um dos melhores do mundo na posição de médio ofensivo centro. Desde esta zona ele tem um forte acesso a outras áreas do terreno e está melhor posicionado para se ligar a outros atacantes como ele faz tão bem. Mas, se for colocado na linha, de repente terá menos espaço, estará mais isolado e o mais certo é haverem menos colegas de equipas ao seu alcance.

Uma grande parte do futebol é meter os jogadores numa posição onde tenham sucesso e isto pode ser feito como parte de uma estrutura posicional de longa escala. Apesar do acto de colocar “uma cavilha redonda num buraco redondo” ser simples, nem sempre é feito no terreno, como foi verificado neste torneio. Sem os jogadores actuarem nos seus espaços predilectos, as suas capacidades para brilhar e influenciar o jogo não serão vistas em todo o seu potencial. Um exemplo disto pode ser verificado em Wayne Rooney, que foi geralmente colocado como o segundo médio mais recuado durante a construção Inglesa e este excelente jogador não foi capaz de utilizar todas as suas capacidades ao máximo tão longe da baliza.

Austria's disconnected attack.
A falta de ligação no ataque da Áustria

Outra equipa que foi fraca na sua estrutura quando em posse foi a Áustria, que apesar de ter um plantel talentoso foi uma das formações mais desapontantes do torneio. A estrela da equipa David Alaba, teve um torneio particularmente fraco e esteve desaparecido no empate com Portugal. Longe das funções mais recuadas, o jogador do Bayern sendo um dos mais versáteis do mundo teve dificuldades na sua função como número 10 neste jogo. Mas factores secundários estavam a influenciar, tais como a pouca ligação na forma de atacar da equipa e por consequência o médio teve dificuldades numa posição adiantada.

Como ilustrado no gráfico, a Áustria teve uma estrutura esticada que utilizou muitos passes longos vindos de posições recuadas. Com Alaba isolado e incapaz de influenciar a construção, ele não teve o impacto que podia ter tido e em vez disso tornou-se algo perdido subido no terreno. Mas apesar de ter tido bola a certo ponto, raramente teve sucesso na continuação do ataque muito devido à natureza directa dos passes e da pressão defensiva.

Além de Alaba, Marko Arnautovic e Marcel Sabitzer estavam constantemente demasiado abertos para tanto poderem apoiar os colegas de equipa e de serem uma força mais activa individualmente. Os quatro da frente estavam todos claramente esticados no ataque com a largura do terreno coberta mas ainda assim sem ligações na linha da frente. Ligando isto com a falta de ligação vertical como resultado das posições recuadas de Ilsanker e Baumgartlinger, a Áustria teve dificuldades para formular ataques significativos.

De certas maneiras, a estrutura posicional da Áustria representa a sua estratégia atacante. Geralmente procuraram construir de forma directa e vertical com muitas bolas longas a serem jogadas para os quatro da frente, o que de certa forma explica o elevado espaço entre os dois pivots e os atacantes. Apesar disto a estrutura posicional teve um impacto negativo significativo nas suas jogadas. As distâncias verticais eram geralmente pouco ligadas mesmo com passes directos enquanto que os quatro da frente estiveram muito pouco ligados para permitir à equipa fazer combinações e ganhar segundas bolas. Quando concediam a posse de bola depois das bolas longas, a falta de ligação no meio campo significou que uma contrapressão eficaz foi algo difícil de gerar e a oposição pôde começar a desenvolver a sua posse de bola.

Criação de situações de superioridade

Um derradeiro factor chave de uma estrutura posicional é a sua capacidade de criar situações de superioridade para a equipa atacante. Com um nível semelhante de importância nas áreas acima, é um outro aspecto importante de espaçamento e de futebol no geral. Se a equipa atacante poder criar um momento de superioridade de alguma maneira, então têm obviamente uma maior capacidade de causar instabilidade defensiva neste cenário.

A superioridade numérica é um dos aspectos mais comuns e fáceis de formar níveis de superioridade através de uma estrutura posicional. Consiste largamente em criar sobrecargas em certas áreas do campo o que pode ajudar o ataque seguir em frente – geralmente ao encontrar um homem solto que é o extra num ‘4v3’ por exemplo. Muitas vezes em áreas perto da bola, a equipa pode focar a sua forma de criar sobrecargas nesses espaços. Ao fazê-lo, têm apoio à volta da bola mas também pode potencialmente exceder os defesas e, desde que os jogadores se distanciem bem, é provável um jogador estar solto. A Espanha é uma equipa que o fez regularmente no lado esquerdo do espaço médio, com David Silva geralmente a vir da direita para actuar como esse jogador mais solto.

Outra maneira de criar tais situações proveitosas é ao aproveitar a qualidade individual dos jogadores. Enquanto isto pode ser feito como acima mencionado, ao encaixar “cavilhas redondas em buracos redondos”, também pode ser exagerado através da criação de situações isoladas. A criar um momento 1v1, uma equipa pode simplesmente (em que há menos factores influenciadores no momento como no apoio do colega de equipa) colocar uma capacidade individual atacante de um jogador contra uma capacidade defensiva individual de um jogador adversário. Obviamente, se o atacante for notavelmente melhor que o defesa, então isso cria uma situação benéfica para a equipa atacante.

No basquetebol isto também é utilizado, quando uma equipa atacante tem um desfasamento. Isto pode ser feito quando um jogador mais pequeno e técnico (tal como um Base ou Extremo-Base) é colocado contra um defesa maior e mais lento (Poste ou Extremo-Poste). Durante tal situação isolada, o atacante pode usar a sua capacidade de manuseamento da bola para explorar a falta de mobilidade do jogador mais alto e a superioridade qualitativa é criada através deste desfasamento.

Um exemplo de tal lance foi visto na construção do segundo golo da Alemanha contra a Eslováquia. Os avançados de Löw procuraram muito o uso desta estratégia de forma mostrar a sua capacidade superior em relação aos seus adversários da Europa de Leste. Neste caso, Draxler movimentou-se em direcção à linha de fundo e através disto criou uma situação de 1v1 com o defesa. A partir daqui, ele usou a sua forte capacidade de drible para bater o seu adversário e abrir espaço para colocar um passe curto para trás em Mario Gomez que aumentou a vantagem Alemã.

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Considerando que o espaçamento é um factor importante numa partida de futebol, porque é que muitas equipas tiveram dificuldades em ter uma estrutura posicional eficaz?

Tempo de treino e comunicação não verbal

Uma explicação para a queda de muitas equipas é a falta de tempo de treino juntos. Com apenas algumas semanas de preparação depois do fecho das cortinas nas competições domésticas, é muito possível que as equipas não tenham tempo suficiente para treinar o seu espaçamento. O conceito pode ser complexo em muitos casos e o facto de geralmente envolver uma coesão de uma equipa inteira, algo raro no futebol internacional, quase uma necessidade.

Não é surpresa que equipas como a Alemanha, que têm alguns jogadores que jogam, ou jogaram no mesmo clube são uma das melhores posicionalmente. Mostram níveis de comunicação não verbal que faltaram no resto da competição com os jogadores a mostrarem altos níveis de entendimento uns com os outros.

Esta sugestão também tem evidência no desenvolvimento das equipas ao longo da competição. Enquanto a França foi algo decepcionante na noite de abertura com um ataque mal estruturado, foi a sua dinâmica espacial que acabou por ser a chave na demolição da Islândia nos quartos-de-final. Com equipas a melhorar ao longo da curta prova, pode bem ser a sua coesão a crescer e a sua comunicação não verbal num maior nível, o seu posicionamento colectivo melhora com isso.

Apesar de não ser no Europeu, uma das maiores excepções para este problema é o Chile. Mas, quando se começa a considerar o historial da equipa então começa a fazer claramente sentido. Já há uma década que a equipa Sul-Americana tem jogado num estilo de futebol muito similar implementado por Marcelo Bielsa. Devido a sua consistência no seu estilo de jogo, a sua familiaridade com o lado posicional do seu estilo de jogo é muito superior a qualquer outra selecção. Se isto for contrastado com muitas das equipas do EURO, que tiveram estilos de jogo inconsistentes, então a diferença é compreensível.

Fadiga

Uma segunda explicação para este problema de espaçamento é o físico. A larga maioria dos jogadores vêm de uma época doméstica fisicamente debilitante e entram no torneio com baixos níveis físicos. Enquanto isto obviamente tem um impacto directo nas suas capacidades de actuar, isto é ligado também a um problema colectivo. Com o baixar dos níveis energéticos, é comum que se verifiquem jogadores a movimentarem-se de forma lenta sem a bola e de uma maneira letárgica. Devido a isto, muitas equipas fazem mudanças orientadas à bola (o acto de se moverem em direcção à bola, normalmente horizontal para seguir a circulação da bola e manter o apoio) de forma demasiado lenta para manter o apoio nos espaços à volta da bola.

Como resultado da fadiga, os jogadores não são capazes de consistentemente oferecer apoio e ligações em volta da bola que já fizeram pelos seus clubes. Não conseguem seguir o movimento da bola o que significa inevitavelmente que o apoio ao portador da bola vai ser perdida durante a posse.

Conclusão

Enquanto a falta de tempo de treino e fadiga são explicações para o mau espaçamento que foi visto, é também um factor naquilo que foi um torneio pouco interessante. Tal como é comum no futebol internacional, o nível de jogo foi decepcionante e levou a muitos jogos aborrecidos ao longo do torneio. Os próprios jogadores cansados após uma época inteira estão desculpados já que chegaram ao torneio compreensivelmente fatigados, enquanto que o seu jogo entre colegas de equipa delineou pouca familiaridade e tempo de treino para formarem um conjunto coeso.

Mesmo no jogo da final, vimos duas equipas com falhas tácticas distintas. Apesar da falta de estabilidade do bloco defensivo português com espaços a abrirem devido à sua natureza orientada ao homem, a França foi apenas capaz de verdadeiramente explorar esta situação mais tarde aquando a entrada de Coman, já que sua formula anterior foi demasiado disfuncional.

Apesar do fraco nível de jogo tactico, vimos algum sucesso para equipas mais pequenas na competição. Equipas como a Islândia ou País de Gales foram capazes de passarem oposições mais fortes através da implementação e execução de um plano de jogo claro e efectivo – algo que muitas equipas aparentemente tiveram falta. Mas, o torneio serviu maioritariamente como outro exemplo de o quanto a sinergia e entendimento de uma equipa são importantes na utilização de uma estratégia.

Artigo traduzido de Spielverlagerung.com

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