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Tottenham Hotspur: Investir ou Desinvestir?

Uma das questões do momento no futebol europeu prende-se com a não contratação de nenhum jogador por parte do Tottenham para época 2018-2019. Mais interesse suscita dado ser um clube a disputar a Premier League, competição conhecida por ser a mais rica do mundo, onde os clubes que a disputam gastam milhões de euros ou libras todas as épocas em estrelas sonantes que acrescentam qualidade à competição.

Alvo de “chacota” nas redes sociais e media britânicos, surgiu a dúvida se esta falta de investimento seria motivada pelos gastos na construção do seu novo estádio ou apenas uma opção de gestão do clube por sentirem que o plantel é suficiente para a época que se avizinha.

Segundo as declarações de Pochettino :

“O que o clube está a fazer é corajoso porque construir um novo centro de estágios e terminar o alojamento dos jogadores este verão é um investimento massivo. Construir um estádio que custa quase 4 mil milhões de libras – essa é a verdade, não acreditem quando dizem que são 400 milhões. E depois com o Brexit é pior ainda porque os jogadores custam 30% mais. É um drama. Tenho pena do povo inglês”

Suscita então uma análise/discussão sobre a contratação de jogadores e rendimento da equipa:

Valerá mesmo a pena contratar para apenas mostrar a sócios, adeptos e imprensa “trabalho feito”, mesmo que essas contratações não venham a ser reforços na verdadeira dimensão da palavra e que pouco ou nada venham acrescentar à equipa?

Deixamos ainda a seguinte frase do técnico dos Spurs para reflexão:

“Estou contente por termos conseguido manter a equipa toda junta. Com o dinheiro que estamos a investir no estádio, a direção fez um esforço enorme para renovar contratos e mantê-la unida. Estou muito contente com os jogadores que temos”

Esta declaração e revendo o plantel ao dispor, leva-nos a questionar se realmente o renovar com jogadores importantes como o goleador Kane (com bastante mercado) e manter jogadores experientes, de classe mundial que conhecem o clube por dentro e fora como Verthonghen, Lloris, Alli ou Eriksen, já não será uma forma de reforçar a equipa e torná-la forte e competitiva. Outros, certamente afirmarão que com esses mesmos jogadores em anos anteriores não conseguiram o tão desejado título, principalmente na época que o deixaram escapar a poucas jornadas do final para o “outsider” da prova Leicester City.

Contudo, os dois jogos analisados não vêm ajudar a chegar a qualquer conclusão, dado que no difícil jogo em Old Traford conquistam uma vitória avolumada por 0-3, conseguindo 9 pontos nos 3 primeiros jogos da época, com o seu treinador a ser considerado como o “treinador do mês de Agosto”.

Já frente ao Watford tiveram o primeiro desaire por 1-2 quando menos se esperaria, suscitando a dúvida se os Spurs poderão ser ou não, verdadeiros candidatos a vencer a Premier League. Esta tarde em casa perderam contra o Liverpool por 2-1 em jogo a contar para a 5ª jornada.

Identificámos a existência de dois planos de jogo completamente distintos, definidos de acordo com a estratégia montada para cada jogo, sendo que em Manchester, o sistema tático partiu do 4-2-3-1. Já em Watford passou por uma espécie de “plano B”, recorrendo a um sistema de  3-5-2.

 

No processo defensivo, chamamos à atenção a boa organização defensiva da equipa, baseando-se numa pressão alta procurando condicionar a 1º fase de construção adversária. Caso a equipa contrária consiga sair da pressão, os Spurs reagem com uma recuperação rápida nas transições ataque-defesa. Procuram organizar-se no seu meio-campo defensivo com linhas bem juntas, sendo pacientes e organizados a defender atrás, através de boas contenções defensivas, não permitindo bolas descobertas à entrada da sua área, tentando sobretudo evitar remates à sua baliza.

 

Contudo, verificam-se alguns erros de marcação dentro de área, muitos deles devido aos seus defesas procurarem jogar em antecipação, mais preocupados com a bola e não com as movimentações do atacante adversário.

 

 

 

Importa ainda reforçar, a importância da dupla de centrais belga Vertonghen e Alderweireld que após várias épocas a jogarem juntos (clube e seleção nacional) conhecem-se muito bem, aliado ao facto de terem várias experiências tanto um como outro, como “laterais adaptados”, sabem como ninguém fazer a leitura correta dos lances, definindo os timings exatos para realização de coberturas e dobras aos laterais.

Isto ainda permite à equipa puder formar um trio de centrais com estes colocados ao lado de um central mais fixo como Sánchez. Os dois belgas conseguem fazer as coberturas necessárias ao ala. Reconhecem os espaços laterais e sabem como abordar cada lance da melhor forma possível tanto no centro, como junto à linha.

 

Neste parâmetro, revelar ainda a importância do trinco Dier que procura sempre estar atento às dobras aos seus laterais na defesa a 4, bem como o fechar da zona central da grande área, sendo a sua presença no jogo com o United fulcral pela necessidade de ter um jogador de meio campo com capacidade para equilibrar a equipa no processo defensivo. Wanyama é a outra opção para o lugar de médio defensivo. Um médio muito forte fisicamente .

De reforçar ainda que no 3-5-2 há uma inversão no triângulo de médios centrais, passando de um duplo pivot (4-2-3-1) para apenas a colocação de um médio defensivo colocado nas costas dos médios mais criativos formando um 3-1-4-2.

A não presença de um médio defensivo mais posicional ao lado do box-to-box Dembelé, foi um dos aspetos menos conseguidos no jogo com o Watford, permitindo à equipa da casa mais saídas em lances de contra-ataque pela zona central, onde Alli e Eriksen não têm as características desejáveis para prestar o auxílio defensivo necessário ao belga que por sua vez não é um trinco tradicional, desposicionando-se muitas vezes devido à sua participação ofensiva.

Existe ainda um maior desgaste por parte de Dele Alli e Eriksen que neste sistema de 3 centrais têm mais missões defensivas, pois possuem mais zonas de pressão, uma vez que têm de se preocupar não só com a sua zona central e pressão ao médio adversário mas também com o corredor lateral, procurando evitar que os alas dos Spurs tenham de fazer esse trabalho, o que deixaria o extremo adversário livre nas suas costas.

 

No plano ofensivo, a diferença no plano tático-estratégico é ainda mais acentuada e notória entre sistemas, aliás, na nossa análise foi a grande razão para a troca de esquema de um jogo para o outro. Frente ao Watford (talvez para fugir dos confrontos físicos com os médios adversários Capoue e Doucouré) o treinador argentino pretendeu um futebol mais simples, com a equipa mais larga no terreno de jogo (campo grande), com grande exploração das faixas laterais e consequentemente cruzamentos para a área (importância das ligações central–ala–médio central, com o defesa central do lado da bola a incluir-se no processo ofensivo, aproveitando falhas de marcação por parte dos adversários que são surpreendidos).

 

Como falado anteriormente em relação às tarefas defensivas entregues aos médios centrais mais criativos da equipa denotou-se esse maior desgaste também no processo ofensivo, dado que ambos os futebolistas tiveram muito apagados ao longo dos 90 minutos. Aliado a esse desgaste defensivo:

  • as constantes desmarcações de apoio aos corredores laterais para a ligação entre central-ala;
  • funcionaram ainda como falsos extremos, deram largura ao jogo da equipa, realizaram desmarcações de rutura nas costas dos laterais do Watford e procuraram surpreender e ganhar a linha de fundo sem oposição;
  • ocuparam e promoveram o jogo interior da equipa.

 

Existe ainda o aproveitamento de um jogo mais direto promovido pelos passes longos realizados pelos centrais/alas, procurando assim colocar a bola nas costas da defesa contrária. O Tottenham aproveita as demarcações de rutura dos atacantes nas costas das defesas adversárias, sobretudo o rapidíssimo Lucas Moura, também muito importante nas penetrações com bola na área em velocidade.

 

Já frente à equipa de Mourinho, o Tottenham procurou um jogo mais pensado e trabalhado desde trás, com maior segurança na posse de bola, com a colocação de bastantes jogadores na 1ª fase de criação de jogo, para conseguir mais linhas de passe curtas e saídas de jogo. Verificou-se que isto provocou a falta de elementos na frente que conjugando com uma boa pressão alta adversária, bloqueou por vezes a progressão da equipa no terreno, algo só solucionado com os apoios frontais dados por Harry Kane que segurou a bola de costas para a baliza adversária, permitindo que a equipa subisse no terreno. O avançado inglês prendia os centrais e devolvia a bola aos médios entrando assim na 2 fase de criação de jogo já no meio campo do United em segurança.

De salientar ainda, o poderoso jogo posicional, aéreo e de cabeceamento do possante avançado e capitão da seleção inglesa o que permite à equipa poder explorar cruzamentos para a área tanto em bola corrida, como de bola parada, pois tem uma referência sempre presente.

 

Tanto no modelo de 4 defesas, como no de 3 defesas verificam-se princípios de jogo bem definidos e comuns, como a presença de laterais/alas muito ofensivos e largos aos quais procura-se entregar o corredor lateral para explorarem.

No 4-2-3-1 Alli é um falso extremo, na maioria da vezes juntando-se à posição de Nº10 onde também se encontra Eriksen, fomentando o jogo interior da equipa e garantindo passes de rutura no último terço do terreno com o extremo Lucas Moura a juntar-se mais a Harry Kane como avançado móvel, procurando assim explorar as costas da defesa dos Red Devils (Smalling e Phill Jones) e desenhando no terreno de jogo um quadrado (Alli + Eriksen + Kane  + Lucas), com a largura de jogo a ser promovida pelos velozes Trippier e Rose.

Apesar das derrotas contra o Watford e Liverpool, a equipa do norte de Londres parece estar preparada para os desafios desta época. Com 9 pontos em 5 jornadas, os Spurs tiveram um dos melhores arranques de sempre e prometem voltar às vitórias rapidamente. A equipa de Pochettino terá agora pela frente um calendário teoricamente mais acessível nas competições internas em comparação com os primeiros desafios da época.