Vitória Sport Clube: Análise aos Conquistadores

Vitória Sport Clube: Análise aos Conquistadores

O Vitória Sport Clube caracteriza-se como um clube com muitas tradições no futebol português, fruto de excelentes campanhas realizadas no principal escalão e devido ao fanatismo da sua massa adepta, tendo sede na cidade Guimarães.

Já a alguns anos, trava uma luta diária pela conquista do “rótulo” do 4º grande em Portugal, juntamente com outras equipas como os rivais do Sporting Clube de Braga ou Boavista. Foi com este pensamento e ideologia que esta época contratam Luís Castro, treinador de créditos firmados do futebol Português, defensor de um futebol apoiado e mais virado para o espectáculo/qualidade de jogo, contando com inúmeros fãs pela forma de jogar das suas equipas.

Ainda houve um inegável esforço financeiro para o reforço do seu plantel, procurando jogadores com características capazes de interpretarem da melhor forma possível esta nova filosofia de jogo do seu novo líder. Acompanham-no nesta nova aventura até á cidade berço, nada mais nada menos do que 14 contratações e mais 2 subidas oriundas da equipa B.

Fonte: transfermarkt

 

Através da imagem acima apresentada, podemos identificar a presença de diversos jogadores provenientes das 3 principais equipas da Liga Nos: Ola John, Pêpê (Benfica); André André, Rafa Soares, João Carlos Teixeira, Osório (Porto); Matheus (Sporting).

Todos eles identificados com uma forma de jogar de “equipa grande”: pressionante, dominadora, com futebol positivo assente na posse de bola, taticamente evoluídos, tudo requisitos que Luís Castro pretende numa equipa com a sua assinatura.

 

Apesar do investimento realizado, o começo de época não tem sido fácil, talvez a necessitar de amadurecer sobre as exigentes ideias de jogo do seu novo treinador.

Nos primeiros jogos, a equipa inicia com uma derrota/eliminação para a Taça da Liga perante o Tondela em casa. Perde na 1ª e 2ª jornadas da Liga Nos perante Benfica (fora) e Feirense em casa, vence e surpreende na difícil deslocação ao Dragão à 3ª jornada e no jogo seguinte vence o Tondela (casa).

O regresso às derrotas dá-se em Portimão e empata com o Vitória FC na “cidade berço”.

Após vitória na difícil deslocação à Madeira (frente ao Marítimo), consegue dois empates, um no exigente “derby do Minho” frente ao que tudo indica ser o novo candidato ao título SC Braga e na delocação ao estádio do Bessa.  No penúltimo duelo frente ao Santa Clara, conquistou os 3 pontos. Na última jornada fora contra o GD Chaves, novamente 3 pontos.

 

Claramente, há aqui alguma irregularidade em termos de rendimento desportivo nesta fase inicial, com um saldo actual de:  5 vitórias, 3 empates e 3 derrotas  e 17 golos marcados (1,54 por jogo) e 12 golos sofridos (1,09 golos por jogo).

 

Analisámos os 2 encontros para o campeonato frente a  Boavista e Santa Clara para tentar perceber se esta irregularidade também se reflectirá na qualidade do seu jogo.

 

Titulares

1. Douglas – Experiente guarda redes brasileiro de 35 anos de idade, revelou em ambos jogos bastante segurança e reflexos apurados. Apenas transmitiu algumas dificuldade no domínio de “bolas aéreas”, procurando sempre socar a bola e poucas vezes o agarrar da mesma

17. Sacko – Lateral titular oriundo da equipa B, cumprindo jogos seguros do ponto de vista defensivo, raramente se desposicionando. Pode, no entanto, arriscar e desequilibrar mais do ponto de vista ofensivo, pois tem qualidade técnica para tal, mas ainda apresenta algum receio de subir e desequilibrar a equipa

24 – Osorio – Central emprestado pelo Porto, demonstra na “cidade berço” qualidade para puder regressar ao Dragão. Rápido, forte no jogo aéreo, forte na marcação e desarme, boas coberturas defensivas e ainda apresenta qualidade a sair a jogar

2. Pedrão (C) – Capitão da equipa, experiente apesar de ainda muito novo (25 anos), muito forte fisicamente, bom na marcação e desarme, bom jogo aéreo. Faz uma boa dupla com o companheiro de posição Osorio, sendo apenas um pouco lento. É a voz de comando da linha defensiva do Vitória, coordenando os movimentos de recuo e subidas da mesma

5. Rafa – Lateral esquerdino com bom sentido posicional defensivo e qualidade técnica acima da média.  Junto com Davidson, formam o corredor mais solicitado e perigoso da equipa. Realizou já algumas assistências para golo através de cruzamentos para a área. 

25. Wakaso – Apresentou no jogos analisados algumas dificuldades a construir jogo, sobretudo quando pressionado. No entanto, é o garante de estabilidade defensiva do meio campo, sendo um precioso auxílio à linha defensiva, e às suas coberturas. Raramente sobe no terreno, sendo um dos principais referências das transições ataque-defesa

16. Matheus– O médio apresenta regularidade defensiva. Longe de ser um jogador técnicamente dotado, consegue dar maior estabilidade às transições Ataque-defesa da equipa e organização defensiva. Ofensivamente é um jogador também regular, falhando poucos passes, mas sempre sem arriscar muito do ponto de vista ofensivo

11. Andre Andre– Regressado a Guimarães, procura-se que seja o organizador ofensivo da equipa. Consegue pautar o jogo da equipa, definindo os momentos de pausar ou acelerar o jogo. No entanto, não possuí a criatividade técnica necessária para a função de médio mais criativo e desequilibrador

91 . Davidson – Oriundo do GD Chaves, é muito solicitado nos lances de 1×1 da equipa para criar desequilíbrios no corredor esquerdo.  Com boa capacidade de finalização (golo frente Santa Clara), portador de um remate forte, tira bons cruzamentos para a área e ainda consegue explorar espaços mais interiores.

20. Tozé – Médio mais habituado a ocupar zonas centrais no terreno, foi adaptado ao corredor direito. Fruto dessa adaptação, procura sobretudo movimentos mais interiores, abrindo no corredor apenas quando necessário. Na nossa análise, poderia render mais no corredor esquerdo, aproveitando diagonais com bola para zona central e remates à entrada da área, utilizando o seu forte remate de longe

9. Guedes – Jogador chave nesta equipa e bastante completo. Exímio dentro da área, onde realiza movimentos dignos de um verdadeiro ponta de lança de área (como comprova o golo de cabeça marcado ao Braga). Boa capacidade de finalização, realiza desmarcações em ambos os corredores, dando largura/profundidade ao jogo da equipa e gerando situações de superioridade nessas zonas. Importante a segurar a bola de costas para a baliza adversária, os seus “apoios frontais” são importantes para que o resto da equipa (quando em posse de bola) possa subir e “respirar”.

Sistema táctico 

  • 4-3-3
Fonte: transfermarkt

 

Organização e Transições Defensivas:

  • Realiza uma pressão média / baixa , sendo que a principal reacção da equipa perante perda de bola, será o de recuar e conseguir organizar-se posicionalmente o mais rápido possível
  • Por vezes, os seus jogadores do meio campo são atraídos pela pressão ao portador da bola adversário, desposicionando-se em demasia, e abrindo espaços entre linhas.
  • Procura da equipa em manter os seus posicionamentos defensivos e sua organização, defendendo com grande rigor posicional, sempre muito concentrados nas coberturas defensivas, sobretudo no último terço defensivo.
  • Dupla de centrais fortíssima no jogo aéreo, boa capacidade de desarme, fortes na marcação aos atacantes contrários e boas coberturas/dobras aos laterais
  • Central Pedrão comanda a linha defensiva dos Vitorianos, sendo ele a “voz de comando” que coordena toda a linha de 4, ajudando-a a definir os timings de subir/ recuar e juntar linhas.
  • Lateral Sacko procura não subir demasiado, procura sobretudo manter um certo rigor posicional na tentativa de não descompensar a equipa aquando das transições ataque-defesa. Já Rafa Soares procura mais envolvimentos pelo seu corredor, sendo rápido a recuperar posição aquando da perda da bola.
  • Importância do médio mais defensivo Wakaso nas transições ataque-defesa, não se envolvendo muito no processo ofensivo e aquando da recuperação da bola por parte do adversário dá equilíbrio defensivo à equipa, sendo importante a dobrar laterais. Ainda em organização defensiva é um elemento importante para os equilíbrios da equipa, procurando sempre estar atento às coberturas defensivas e gerar igualdade/superioridade numéricas nos 3 corredores
  • Importância dos médios André André e Matheus no processo defensivo, sendo jogadores rápidos a recuperar após perda da bola, tendo ambos um equilibrado posicionamento defensivo.
  • Consegue fechar muito bem os corredores laterais, através da colocação de 3 jogadores ( Lateral + MC a fechar zonas mais interiores + extremo). Caso médio central não consiga chegar a tempo de fechar o corredor, há a preocupação do Central para realizar a cobertura ao lateral já em zonas defensivas (último terço do terreno defensivo).

Organização e Transições Ofensivas:

  • Saída a 3 na 1ª fase de construção de jogo com o recuo do trinco Wakaso para o meio dos centrais. Esta saída permite que o médio não tenha tanta preponderância na construção, dado ter algumas limitações técnicas evidentes. Osório demonstra ser um central com bom transporte de bola e em velocidade, e ainda qualidade a sair a jogar, sendo a principal referência da equipa neste momento de jogo;
  • Ambos centrais quando lhes é dado espaço, ocupam zonas subidas no terreno para ligar o jogo da 1º fase de construção para a 2ª fase de criação de jogo.
  • Na 2ª fase de criação é evidente a falta de um médio ofensivo mais tecnicista, capaz de explorar mais o espaço “entre linhas” adversária, com capacidade de último passe nessas zonas. André é mais um jogador de pautar jogo e definir timings de pausar ou acelerar jogo. Talvez no plantel exista João Carlos Teixeira que poderia trazer à equipa um pouco mais de criatividade no último terço.
  • Jogo ofensivo da equipa passa mais pelo explorar dos corredores laterais, sobretudo o esquerdo, onde Davidson é muito solicitado procurando que desequilibre no 1×1 e Rafa presta precioso auxílio envolvendo-se imenso na manobra ofensiva da equipa e tirando cruzamentos perigosos para a área.
  • Neste explorar dos corredores laterais, sobretudo o esquerdo devido essencialmente aos “overlaps” e subidas constantes do lateral Rafa, de destacar o tirar de cruzamentos em  “zonas atrasadas” para a área, procurando assim tirar partido das movimentações em zonas de finalização e jogo aéreo do ponta de lança de referência  Guedes.
  • Corredor direito menos solicitado dado Sacko não desequilibrar / envolver tanto do ponto de vista ofensivo e Tozé procurar explorar mais o corredor central realizando apenas “desmarcações de dentro para fora” quando solicitado.
  • Importância dos “apoios frontais” de Guedes que imensas vezes o vemos a recuar da sua posição para “pedir bola”, oferecendo linhas de passe e tendo a capacidade para proteger o esférico, permitindo que o resto da equipa suba no terreno (equipa respire).
  • Importância de Guedes dentro da área, onde sendo forte no jogo aéreo, ainda aparece sempre no sítio certo à “hora certa” para finalizar a jogada. Nesta fase de finalização, de realçar a presença na área também do extremo do lado oposto ao 2º poste e da entrada do médio André André.
  • Importância de Guedes ao conseguir dar largura, descaindo várias vezes nos corredores laterais e a fugir / iludir marcações dos centrais adversários, e a conseguir ainda, dar profundidade ao ataque.
  • Mesmo conhecendo a filosofia de posse e jogo apoiado do treinador vimaranense, a equipa demonstra dentro de campo que o momento de jogo em que é mais forte ofensivamente, são os contra-ataques rápidos.

Jogadores-Chave:

Estatísticas :

Posse de bola

  • 42% (vs Braga)
  • 62% (vs Boavista)
  • 58% (vs Santa Clara)

Remates

  • 13 / 4 deles enquadrados com baliza / 1 golo marcado   (vs Braga)
  • 20 / 4 deles enquadrados com baliza / nenhum golo marcado (vs Boavista)
  • 20 / 6 deles enquadrados com baliza / 2 golos marcados   (vs Santa clara)

Remates concedidos

  • 15 (vs Braga)  / 1 remate enquadrado com a baliza / 1 golo sofrido
  • 7 (vs boavista) / 3 remates enquadrado com a baliza / 0 golos sofridos
  • 8 (vs Santa Clara) / 1 remate enquadrado com a baliza / 0 golos sofridos

% Eficácia de Passe

  • 77% (vs Braga)
  •  71 % (vs Boavista)
  • 86% (vs Santa Clara)

 

Concluindo, é um Vitória Sport Clube que procurou realizar um esforço financeiro, alicerçado a um reforço do seu plantel principal com o intuito de montar uma equipa que num futuro próximo procure entrar na luta pelo acesso às competições europeias. Parece-nos que conseguindo manter grande parte destes jogadores por algumas épocas mais, o que não será fácil pois alguns seguiram para o Estádio D. Afonso Henriques através de empréstimos dos “grandes”, e sob orientação de Luís Castro conseguirão alterar o paradigma de classificações de meio da tabela para presenças cada vez mais assíduas entre o 5º e 7º lugar da Liga NOS e assim poder contar com os “milhões da Europa”.

Sobre o Autor

Flávio Sousa

Nascido em 1988 na cidade do Porto, desde sempre que adora observar, analisar e debater futebol 24 horas do seu dia. Licenciado em Desporto e com passagens como treinador principal em escalões de formação, acredita ser um analista que tem uma espécie de 'dom natural' para detetar talento em poucos minutos, se é que isso existirá mesmo.

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