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Ramón Rodríguez Verdejo, mais conhecido por Monchi, é o actual director desportivo do Sevilha, cargo que ocupa há mais de 15 anos, assumindo-o depois de terminar a carreira de guarda-redes e de passar um ano como delegado ao jogo. É uma das pessoas mais consagradas na posição que ocupa e é, a cada dia que passa, cada vez mais falado, crescendo também o número de pessoas que tem curiosidade em saber quem é. Aqui, apresentarei quem é Monchi, desde a sua infância até ao dia em que prepara o plantel para Sampaoli. Um relato apaixonante e que passa por histórias muito interessantes e desconhecidas ao público em geral.
 

As origens e a infância

Monchi cresceu em San Fernando, num bairro de classe operária e a sua família era muito humilde. Viviam numa das casas construídas pela empresa onde o pai trabalhava e a mãe era dona de casa. Segundo Monchi, viviam com o que tinham, mas nunca lhe faltou nada para crescer, pois os seus pais sacrificaram-se muito para que isso não acontecesse. O pai trabalhava muitas vezes de madrugada e, diz Monchi, que dava conta de ele sair para fazer horas extra. A infância é, apesar das dificuldades, recordada com felicidade. Diz que valoriza tudo o que tem agora, depois de ter crescido praticamente na rua. Daquele tempo, guarda ainda muitos amigos.

Apesar de o futebol ser aquilo que mais adorava, estudou Direito, onde foi bom aluno. A convivência na rua com os miúdos mais velhos, fez com que aprendesse a ser guarda-redes já que, diz ele, estava sempre a receber remates com muita força, acabando por perder desta forma o medo da bola.
 

A carreira como guarda-redes e a ida para o Sevilha

Foi no El Águila, uma equipa de San Fernando, que Monchi iniciou a sua carreira futebolística como guarda-redes. Mais tarde, rumou ao San Fernando e depois para o Sevilha. O seu currículo em termos de equipas é muito curto.

Pablo Blanco, que ainda trabalha no clube, foi quem observou Monchi, juntamente com Juan Arza. Foram falar com ele inúmeras vezes para que fosse para o Sevilha, antes de ele assinar finalmente pelo clube. Contudo, também o Real Madrid estava na luta por Monchi, conseguindo mesmo levar o jovem guarda-redes para um período de testes. O jogador decidiu, porém, deixar essa semana de testes ao fim de três dias, já que tinha um encontro muito importante pelo San Fernando. Foi nesse jogo que os dois directores do Sevilha foram ter com o jovem guarda-redes e lhe disseram: “Monchi, segunda-feira vens para Sevilha e vais assinar connosco”. E assim foi.
 

A tensão antes da estreia

 

O tempo como guarda-redes do Sevilha

Na chegada ao Sevilha, Monchi foi colocado no Sevilha Atlético, que quase subiu nessa temporada.

Beneficiando das ausências de Atocha e Juan Carlos Unzue (actual treinador adjunto do Barcelona), Monchi fez a sua estreia na equipa principal contra a Real Sociedad. Uma estreia que nunca esquecerá. Nesse jogo, nos primeiros minutos, remataram uma bola e ele deixou-a escapar. Na recarga, Atkinson, jogador adversário, deu-lhe um pontapé e tirou-lhe o dedo do sítio. O dedo estava completamente deslocado e o médico, assim que chegou e viu o seu estado, pediu imediatamente a substituição, mas Monchi impediu que tal acontecesse. Exigiu meter o dedo no sítio e que acabaria o jogo. E assim foi. Monchi terminou o jogo, com o resultado final de 1-1.

O lance que marcou a estreia de Monchi no Sevilha, relatado por um jornal da época

 
O antigo guarda-redes recorda a época de 1992/1993 como uma época de sonho. Tudo isto por ter sido treinado por Carlos Salvador Bilardo e por ter tido Diego Armando Maradona como colega de equipa. Se hoje lhe dissessem que, um dia, ele iria ser treinado por Billardo e ter Maradona como colega de equipa, não acreditaria. Recorda esse ano com memórias muito boas, apesar de não ter jogado. Afirma que aprendeu muito com Billardo, mais que com qualquer outro treinador.

No ano em que o Sevilha desceu de divisão (1996/1997), Monchi fazia parte da equipa e fez vários jogos. Conta ele que teve actuações muito boas e outras muito más, recordando sempre o jogo com a Real Sociedad como o maior desastre. Ganhavam 2-0 aos 82 minutos e acabaram por perder 2-3. Monchi afirma que, dos 3 golos sofridos, teve culpa em 4, e que o jornalista que cobria esse jogo, até ao 2-0 tinha nota 3 para Monchi, mas depois teve de alterar para nota 0.
 

Diego Armando Maradona

O antigo guarda-redes recorda com muito carinho a passagem de Diego Armando Maradona por Sevilha. A adaptação do astro argentino foi muito rápida, e refere que ele era uma pessoa fácil.

A relação entre os dois foi forte e cresceu devido à enorme popularidade de Maradona. E porquê? Porque o craque argentino não podia passear a qualquer hora, já que se saísse de dia, apareciam logo milhares de pessoas junto a ele. Então, Diego Maradona decidiu que todos os dias ia dar um pequeno passeio matinal por volta das 8 da manhã. E é aí que entra Monchi. Já na altura, o 3º guarda-redes da equipa não gostava de dormir muito, então fazia companhia a Maradona todos os dias nos seus passeios matinais, criando desta forma uma boa amizade.

Sobre Maradona, Monchi diz que nunca mostrou caprichos de diva ou de ser prepotente. Tinha os seus defeitos, mas cara a cara, no dia-a-dia, era uma pessoa muito normal. Diz o actual director desportivo do Sevilha, que Maradona só deu 20% do que podia enquanto esteve no clube, mas que esses 20% eram 200% de todos os outros.
 

Monchi e Diego Armando Maradona

 

A retirada do futebol profissional como guarda-redes

Em 1999, quando ainda tinha apenas 30 anos, Monchi decidiu retirar-se dos relvados devido, sobretudo, a uma lesão no ombro. No entanto, como tinham subido de divisão, o seu nome era um dos mais falados e já que ainda tinha contrato (tinha renovado há pouco tempo), continuou umas semanas. No estágio na Holanda percebeu que não era mesmo boa ideia continuar e decidiu, de forma definitiva, abandonar a carreira profissional enquanto jogador de futebol. Contudo, a sua ligação ao futebol não acabaria aí e foi-lhe oferecido o lugar de delegado na equipa.
 
 

 

O início do trabalho como Delegado

Inicialmente a sua função era acompanhar as viagens da equipa, estar no campo de jogo, fazer as substituições e conferir se tudo estava em ordem com a primeira equipa.

Com a descida da equipa, Alés quis que Monchi passasse a ser director desportivo. Monchi afirma que era impossível dizer que não a qualquer coisa que Alés pedisse, e nessa altura começou toda a grande história de um dos melhores directores desportivos que o futebol possui.
 

O início do seu trabalho como Director Desportivo

Quando Monchi assumiu o cargo de director desportivo, foram-lhe dados dois grandes objectivos: desenvolver a formação, para assim abastecer a equipa principal de jovens jogadores com qualidade, e implementar uma rede de scouting para descobrir talentos antes de outros clubes.

Não foi fácil o início da sua carreira enquanto director desportivo, já que foi nomeado para este cargo numa das épocas mais instáveis da história do Sevilha, devido a uma luta interna pelo controlo do clube e a problemas com as Finanças. A equipa estava na 2ª divisão e as perspectivas eram bastante más.

Nesse ano (época 2000/2001) chegou Joaquin Caparrós ao comando da equipa e Monchi tinha de formar uma equipa sem ter dinheiro para transferências, precisando de contratar jogadores a custo 0.

Em Maio começaram a preparar a equipa para a 2ª divisão e tiveram de vender os melhores jogadores devido à falência técnica (Marchena, Jesuli, Tsartas, Juan Carlos). Destes jogadores conseguiu fazer 3 milhões de euros, o suficiente para o clube respirar, já que as Finanças tinham tudo bloqueado.

O plantel foi desenhando com Pepito Alfaro e com Joaquín Caparrós, e saiu quase do nada. Monchi viajava com Pepito Alfaro de carro ou de comboio, indo a Madrid ou a Barcelona ver jogos e jogadores mediante o que podiam. Cada um tentava ver uns 4 jogos e, num mês e meio, fizeram alguns relatórios que depois, com Joaquín Caparrós, ajudaram a construir o plantel. Contrataram pouco mais de 10 jogadores por 40 milhões de pesetas (cerca de 240 mil euros), mas mesmo com pouco dinheiro, Monchi afirma que tinha consigo uma grande vantagem: a marca Sevilha. O clube estava muito mal, mas mesmo assim era “o” Sevilha. Diziam a Pablo Alfaro ou a Loren que eram do Sevilha, e mesmo com pouco dinheiro, eles acabavam por escutar a proposta.

A desconfiança em relação à equipa preparada para a 2ª divisão era enorme e os adeptos diziam que, com aqueles nomes, iam descer. Mas Monchi construiu a equipa para subir, conhecendo quem estava a contratar, independentemente de serem jogadores de clubes mais modestos, como do Athletic B, do Granada ou mesmo outros que não se estabilizavam em qualquer clube.

A equipa que os adeptos achavam que ia descer, subiu, arrasando na 2ª divisão. No ano seguinte estavam de volta à 1ª divisão com Joaquin Caparrós e desde esse dia, até hoje, nunca terminaram abaixo do 10º lugar.
 
 

Joaquin Caparrós e Monchi

 

2003-2004 o chamado “salto de qualidade

Este slogan foi escolhido no departamento de marketing para aquela época, havendo uma mudança no registo. A equipa tinha subido e conseguiu a permanência durante dois anos de forma tranquila, por isso as pessoas começaram a exigir algo mais. Ao clube chegaram jogadores como Júlio Baptista, Hornos, Aitor Ocio, Marti, Esteban ou Dario Silva.

Nessa época, o Sevilha conseguiu, por exemplo, golear em casa o Real Madrid de Carlos Queiroz, por 4-1, numa noite apoteótica e insuperável de José Antonio Reyes e Dani Alves. Com a época assombrosa de Reyes, tiveram de o vender ao Arsenal e com esse dinheiro aspirar a algo mais nos próximos tempos.

Sobre Júlio Baptista, que chegou nessa época, Monchi tem coisas para contar. Por exemplo: a alcunha dele era “a rocha”, mas devido a Monchi, que se enganou numa conferência de imprensa, chamando-o de “a besta”, essa alcunha pegou e foi assim que ficou para sempre conhecido. Também a mudança de Baptista de posição é curiosa. Foram disputar um amigável em La Línea e entretanto expulsaram um jogador. Reyes não estava e o sistema foi alterado, adiantando Júlio Baptista. Nesse jogo, o jogador brasileiro marcou dois golos e Caparrós soltou um: “Porra, este rapaz tem golos”. A partir desse dia, começou a jogar mais avançado, e assim o Sevilha passou a ter alguém que garantia 20 golos por época.
 

A Formação

Quando assinou como director desportivo, foi pedido ao antigo guarda-redes do clube que reinventasse a formação, a fim de a dotar de jovens de qualidade. Alguns anos e nomes depois, podemos ver que isso foi conseguido, recorrendo a exemplos como: José Antonio Reyes, Sergio Ramos, Alberto Moreno e Jesus Navas. E do falecido Antonio Puerta.
 

 

A rede de observação do Sevilha

A rede de Scouting do Sevilha é muito vasta. Têm 16 pessoas que cobrem uma série de ligas, formada por Monchi, Óscar Aris, Miguel Ángel Gómez e logo a seguir mais 13 pessoas divididas em função dos campeonatos. Esta rede é composta, basicamente, por ex-jogadores, ex-treinadores, psicólogos e professores de educação física. Há de tudo, porque isso permite que vejam cada jogador de diferentes pontos de vista para se juntar a critérios distintos. A maioria das pessoas são de Sevilha, e que normalmente já passaram pelo clube e são de total confiança. São pessoas com um perfil normal, nada presunçosos e muito trabalhadores.

Nos primeiros 5 meses, assistem a um enorme número de jogos, mas sem um grande objectivo especial. Estão apenas a acumular dados e em cada mês, têm de produzir um XI ideal para cada liga. A partir de Dezembro, começam a assistir a jogos de jogadores que aparecem regularmente na base de dados, em diferentes contextos: casa, fora e jogos internacionais. Tentam assim construir um perfil o mais amplo possível. No Verão, fazem apenas gestão de relatórios, já que o futebol foi todo visto. O trabalho de prospecção de jogador já tem de estar terminado em meados de Abril ou Maio. A partir desse momento, colocam um nome em cada perfil que é pedido pelo treinador.

Têm listas com 250 alvos, sendo depois divididos pelas diversas posições, separados por códigos a cores. Por exemplo: o treinador pede um lateral esquerdo que faça 11 km por jogo, que corra 800 metros em velocidade máxima por jogo e que use os dois pés. Eles vão ver à lista e de todos eles, um determinado número pode-se encaixar no pedido.

Para além das duas semanas de férias no início de Setembro, não há mais descanso para Monchi, trabalhando 12 horas, ou mais, por dia. É uma pessoa que não precisa de dormir bastantes horas e isso ajuda-o muito, inclusive na quantidade de jogos que vê da América do Sul, pela madrugada.
 


 

A abordagem ao mercado e os fins procurados

Conta Monchi, que aquilo que tentou trazer para o Sevilha, não é só lucrar com as transferências. Ninguém tem os grandes resultados económicos como bandeira no estádio. Tem de ser mais que isso. De todos os jogadores que contratou, as 3 melhores transferências para ele foram: Kanouté, Luís Fabiano e Daniel Alves. Este último, por exemplo, foi contratado por 500 mil euros e vendido por 36 milhões de euros, mas saiu com vários títulos debaixo do braço.

O Sevilha vende muito bem, mas Monchi diz que os clubes tentam já que eles paguem muito pelos seus jogadores também. Mas o Sevilha está cada vez mais comprometido com os salários, já que para manter jogadores no clube é preciso subir bastante os ordenados, assim como quando é necessário contratar alguém, tem de se oferecer um ordenado alto, ganhando assim vantagem para outros clubes que também irão fazer propostas.

Ao contrário do que as pessoas pensam, o Sevilha muitas vezes não vende alto para contratar outros jogadores, mas sim para conseguir pagar os salários. Nos dias de hoje, refere Monchi, não é possível contratar jogadores oferecendo salários como quando assinou ou renovou com Dani Alves, Luís Fabiano ou Kanouté, é preciso que se reinventem para continuar com este trabalho.
 

As negociações e o ambiente em Sevilha

Para Monchi, nas negociações tem de se conhecer o mercado, ter uma alternativa e ser realista. Quem quer que seja que tente vender um jogador, vai estar sempre a fazer mais dele do que aquilo que realmente é. O director desportivo diz que vende a cidade nas negociações, assim como os jogadores e o clube – um clube sério e que paga o prometido, o que soa a algo trivial, mas que está longe de o ser.

Não há nenhuma garantia depois de comprar um jogador, diz Monchi. Por exemplo, Yevhen Konoplyanka queria atirar-se da varanda depois de um mês em Sevilha, mesmo tendo uma capacidade futebolística imensa. Ele tenta sempre conhecer o jogador, mas há sempre surpresas. Sobre Grzegorz Krychowiak (saiu neste mercado para o PSG) diz que é dos mais sevilhistas que contratou até hoje, mesmo vindo da Polónia e de uma cultura tão diferente. Arouna Koné foi das contratações mais caras e marcou dois golos em 41 jogos. Entretanto vai para o Levante – uma equipa mais fraca – e marca 17. Há coisas imprevisíveis.

O futebol e a vitória têm de ser o objectivo. Ganhar deu glória desportiva ao Sevilha e isso deu um arrastamento económico. Criaram um ambiente propício para os jogadores.
 
[quote font=”0″ font_size=”18″]«Eu não sei o que há neste clube, mas eu nunca joguei uma final na minha vida e, num ano, estou a jogar três» – Adil Rami para Monchi[/quote]  

As compras e a relação com o treinador

É Monchi que tem o controlo de todas as transferências do clube e de todos os jovens em desenvolvimento, libertando o treinador destas tarefas. No entanto, Monchi discute com cada treinador o que é preciso para o plantel e o recrutamento de cada jogador, tendo sempre relações muito boas com todos os treinadores.

Em vez de forçar nomes para o treinador, o director desportivo trabalha com eles em conjunto, tentando assim adaptar as contratações ao estilo e ao processo de jogo que a equipa tem. O resultado disto é que o Sevilha não tem conseguido aguentar muito tempo os seus jogadores, devido ao assédio dos tubarões europeus, mas quando vende alguém, o seu substituto já está na calha para chegar.

Quando contrata alguém, Monchi diz que tem de adicionar a própria impressão subjectiva e não perguntar apenas o quão bom é ele, mas sim se vai ser bom para o Sevilha.

Sobre Ivan Rakitić, conta que não tinha impressionado em muitos jogos na Alemanha, mas viu nele, não só um jogador para chegar ao topo, mas também alguém que tinha uma personalidade que se ia encaixar na cidade e no clube. Na primeira noite que chegou a Sevilha, Ivan Rakitić encontrou uma empregada local, chamada Raquel. Neste momento estão casados e têm uma filha da qual Monchi é padrinho. Foi comprado por 2,5 milhões de euros e vendido por 18 milhões, isto depois do croata capitanear a equipa vencedora da Liga Europa.
 
 

 

José Antonio Reyes

Reyes estreou-se na altura em que Monchi ainda era delegado ao jogo, mas foi na 1ª equipa que deu um salto tremendo. Conta o actual director do Sevilha que Reyes era um prodígio da natureza, um portento físico. Era muito forte tecnicamente, mas o que o fazia “rasgar” tudo em campo, era a sua capacidade física. Era capaz de jogar em intensidades máximas de formas consecutivas. Fazia piques durante o jogo, uma, duas, três, quatro, ou vinte vezes. Eram as que fossem desnecessárias. Para Monchi, um jogador desses nasce a cada 10 anos e tiveram a sorte de ter nascido e jogado em Sevilha.
 

Dani Alves

O ano em que Dani Alves chegou ao clube, foi um dos mais duros da vida de Monchi, já que perdera o pai, vítima de doença, o que fez com que ele, durante os 3 meses em que a doença se prolongou, tivesse que se desligar um pouco do Sevilha e passar esse tempo em San Fernando, junto do pai. O lateral brasileiro chegou ao clube no mercado de inverno, juntamente com Nikos Machlas, jogador grego proveniente do Ajax. O director desportivo do Sevilha conta que Dani Alves passou um tempo complicado em Espanha, já que a sua integração foi bem difícil. Caparrós não o estava a conseguir moldar e os primeiros 6 meses não foram nada bons. Antes de explodir definitivamente, Dani Alves jogou em todas as posições, desde lateral esquerdo a ponta de lança. No final desta experiência, já começava a ver coisas distintas, e Caparrós foi capaz de segurá-lo e o resultado foi o que se viu.

Sobre o lateral direito, Monchi diz que ele, quando chegou, pouco sabia e que, ainda por cima, estava a ganhar peso, mas o que sempre lhe chamou à atenção foi o seu profissionalismo e a sua competitividade, tanto em jogos como nos treinos. Até mesmo nos dias de recuperação, Dani Alves queria treinar e era Monchi que tinha de lhe dizer que não.
 

Enzo Maresca

Enzo Maresca foi um jogador muito importante em Sevilha, mas não foi a primeira opção de Monchi para o lugar. A primeira opção era Camel Meriem, mas foi Maresca que chegou ao clube e brilhou imensamente. Monchi tem uma lista de vários jogadores que brilharam, apesar de serem a 2ª opção para o lugar. Por exemplo, Kanouté brilhou em Sevilha, mas só foi contratado porque Monchi não conseguiu ir buscar Fred, a primeira opção da lista para o lugar de avançado.
 

O caso de Ivica Dragutinović, a fuga ao plano e a sorte

No último dia de mercado, o Real Madrid pagou a cláusula de Sergio Ramos e o Sevilha ficou sem um defesa central titular. Em poucas horas, Monchi tinha de encontrar um jogador que fosse capaz de substituir um dos mais importantes jogadores do clube. Foi um trabalho difícil e Monchi até falou com Sachi, mas os nomes que ele lhe deu, já estavam mais que estudados na lista no director desportivo e considerados várias vezes, sem ele se conseguir decidir em avançar para algum ou não. Foi uma das noites mais difíceis de Monchi como director desportivo. Conta ele que chorou nessa noite por se sentir impotente.

Nessa mesma noite, José María Cruz, director geral do clube, avisou Monchi que Predrag Mijatović tinha estado nos escritórios do clube há uns dias atrás e tinha oferecido um central que jogava na Bélgica. Monchi não o conhecia nem fazia ideia do que ele valia. Então, contactou algumas pessoas que dominavam o futebol belga. Ivica Dragutinović jogava no Standard de Liège e foi assim que o contrataram. Custou pouco mais de um milhão de euros, mas saiu muito em conta, tendo muito sucesso em Sevilha. Foi mais o factor sorte que outra coisa neste caso.

Quando se refere a este caso ou à sua profissão em qualquer altura, seja em palestras ou entrevistas, Monchi refere-se sempre a este caso como sorte, e que apesar de ter funcionado naquele dia, nunca se deve ser guiado por questões do acaso. Diz também que nunca mais tratou de um caso desta forma, mantendo sempre a linha que o marcou. Também se equivocou muitas e muitas vezes, mas pelo menos fê-lo da própria forma como trabalha.
 

Monchi e Ivica Dragutinović

 

Luís Fabiano

Para Monchi, Luís Fabiano é o melhor avançado da história do Sevilha. Era um jogador que era preciso conhecer, dar-lhe carinho e depois sim, retirar dele toda a qualidade que tinha.
 

Seydou Keita, a segunda opção

Seydou Keita não era a primeira opção de Monchi. A primeira opção era Kevin-Price Boateng, mas não o conseguiram e partiram para o jogador do Lens. No final, Monchi diz que a chave é ler os perfis do jogador. Juande procurava um box to box, um jogador com chegada à área, com potência, e estava na famosa lista de eleitos do Sevilha.
 

A tragédia Puerta

Dito por Monchi, foi o pior momento da vida dele como director desportivo e como sevilhista. Viveu tudo na primeira pessoa e foi em Atenas que souberam da confirmação da tragédia. Foi ele que teve de o comunicar ao grupo. Segundo Monchi, tinha estado durante um ano a disputar com Antonio Puerta os valores para um novo contrato, desde Setembro a Julho, com negociações nada fáceis. Puerta aguentou, aguentou e conseguiu tudo o que queria. Diz ele que Puerta tinha uma personalidade muito forte.
 

Monchi e jogadores do Sevilha no funeral de Antonio Puerta

 

Copa do Rei e uma alegria imensa

É um dos títulos que mais celebrou Monchi. Após realizar tudo e passar por uma curta travessia do deserto, o título ganho em Barcelona, contra o Atlético de Madrid foi muito especial. Por um lado, porque havia grande inferioridade nas bancadas dos adeptos, já que a maioria era do Atlético de Madrid. A Taça do Rei foi um título inesperado. Jiménez tinha sido demitido depois de concluir a sua etapa, e a trajectória do clube não parecia ser boa. Segundo ele, ganharam esse título, mas não aproveitaram o impulso que o título lhes deu, apesar de os ter ajudado a respirar com mais fulgor de novamente.
 

Mau período

Nem sempre tudo foi bom. Depois das vitórias na Taça UEFA, com Juande Ramos, o clube foi seguindo uma maré estável com Manolo Jiménez, antes de descer em queda livre no final da temporada 2009/2010. Jiménez foi despedido, o seu adjunto também não durou muito como substituto e de repente um clube que tinha tido 3 treinadores numa década via 4 (Antonio Álvarez, Gregorio Manzano, Marcelino García Toral e Míchel) a entrar pela porta, em menos de um terço desse tempo. O treinador não foi o único problema, pois a equipa não foi devidamente reconstruida depois da saída de Dani Alves e do envelhecimento de Kanouté e Luís Fabiano. Parecia que Monchi estava a perder o seu toque de Midas. Mas aos poucos, com Negredo, Fazio e Medel, por exemplo, tudo foi novamente melhorando e Monchi voltou também a conseguir lucros rápidos como Geoffrey Kondogbia, Martín Cáceres, Diego López, entre outros. Em Unay Emery, encontrou finalmente um treinador para moldar tudo novamente e um treinador que se acostumou a lidar com a perda dos seus melhores jogadores no Valência.
 

 

As críticas a algumas contratações e a resposta de Monchi: “Virão mais Romarics

Romaric foi muito contestado quando foi contratado, mas Monchi acreditava no sucesso da contratação dele. Diz que além do seu peso ou do seu não peso, da sua forma de ser ou a vida dele, era o perfil de jogador que costuma contratar o Sevilha: um jogador que se destacou numa equipa pequena, numa liga menos competitiva e que veio para Sevilha. Assim chegaram Kanouté, Escudé, Poulsen… Carriço veio do Reading, Romaric do Le Mans. Porque disse ele que vinham mais Romarics? Porque irá sempre trazer alguém com este formato. Há sempre alguém que vem de baixo e com fome de brilhar.
 


 

Marko Marin, Vitolo, Gameiro e Bacca

Sobre Marin, conta Monchi que foi uma das operações no mercado que mais o encheu de orgulho até então, considerando-a mesmo uma epopeia. Porém, o rendimento não foi o esperado. O director desportivo conta que Marin precisava de mudar o chip e não o fez, já que não podia viver só da qualidade que tinha. Explicou-lhe isso muitas vezes, mas ele não quis dar ouvidos.

Vitolo foi uma aposta muito segura, e nem chegou na altura em que Monchi desejara primeiro, já que se lesionou no joelho, mas hoje já é internacional espanhol. Conta que era muito difícil se ter enganado em relação a ele, e só estava pendente ver como se adaptava na Península porque era muito canário (i. e., das Ilhas Canárias), mas nada mais. A sua adaptação acabou por ser fácil, porque era muito aberto e falador.

Gameiro e Bacca, dois jogadores que renderam muito em Sevilha, tanto desportivamente como financeiramente (Gameiro foi agora vendido ao Atlético Madrid). Gameiro sempre foi quase uma obsessão para Monchi, e já o queria ter conseguido contratar quando ele estava no Lorient. Quanto a Bacca, foi oferecido e começaram a observar o jogador. Rapidamente perceberam que estava ali algo de especial. Monchi achava difícil substituir Negredo com um só jogador, então contratou dois.
 

Kévin Gameiro e Monchi no dia da apresentação do avançado francês

 

A maior frustração com um jogador contratado

Lautaro Acosta. Monchi diz que achou estar 100% certo que funcionaria, que viu tudo o que queria ver dele, que gostava muito do jogador, mas não aconteceu. Não rendeu minimamente o esperado.

 

A influência de Bilardo

Segundo Monchi, Bilardo é a pessoa que mais o influenciou na vida. Era um treinador muito metódico, muito adiantado no seu tempo. Não só porque já usava vídeos, mas porque tinha absolutamente tudo sob controlo. Mas não entra na parte táctica, já que não apreciava muito do seu futebol. No entanto, profissional e pessoalmente, insiste que aprendeu tudo com Bilardo. Era cuidadoso, como diz, não deixava nada ao acaso. Todos os detalhes estavam controlados e essa obsessão levava-o ao extremo. Um exemplo deste extremo, era que todos os membros do clube tinham de ver o treino, desde os roupeiros, aos médicos, etc. A sua teoria era que: se ele não pudesse estar presente, ou o segundo treinador ou o terceiro ao mesmo tempo, a obrigação dos restantes era saber como se treinava e dar o treino. Uma história interessante, era o que se passava nos hotéis. Os jogadores estavam confortavelmente de chinelos, e Bilardo estava de sapatos. Perguntavam-lhe o porquê e ele dizia: “E se o hotel arde? E se temos de sair a correr? E vocês de chinelos…”. Controlava tudo. De repente chamava os jogadores para que em meia hora estivessem todos no estádio para ver um vídeo. Punha uma jogada de dois minutos e isso era o que eles levavam para casa. Mas nisso Monchi é muito parecido com Bilardo, gosto de ter tudo controlado. E também se preocupa com coisas banais, mas é a forma dele ver este desporto. Aprendeu tudo isto com ele, pois esteve ao seu lado no banco toda uma temporada.

 

Ida para Londres

Na temporada de 2013/2014, Monchi foi viver para Londres durante 6 meses, aprendendo o inglês e estudando a forma como os clubes de terras de sua majestade trabalham. Já falava fluentemente francês, tornando-o assim mais capaz na parte das línguas, e apesar das dúvidas geradas pela direcção do Sevilha, ele diz que fez isso para melhorar o que pode fazer no trabalho do clube espanhol e não para estabelecer um caminho para ele próprio.

Sobre o futebol inglês, Monchi tem um pensamento bem definido. No que é desportivo têm excelentes infra-estruturas, mas não as aproveitam. Há uma desconexão total entre a captação, o scouting, e a tomada de decisões. Têm quinze mil técnicos e meios, os melhores programas de observação, os melhores softwares para processar dados, mas depois há uma desconexão com essa informação e a tomada de decisões. É como se tivessem um bom departamento comercial, mas não existisse o departamento de vendas.
 

Quase a sair do clube

Monchi esteve perto do Real Madrid a uma determinada altura, sendo um segredo bem guardado no futebol espanhol, mas por várias razões, incluindo a força do sentimento, melhores condições em Sevilha e um presidente com mente persuasiva (José Maria Del Nido), isso não aconteceu. Durante este Verão, Monchi voltou a estar perto de sair do clube, mas ao contrário do que se achou, a justificação para isso nada tinha a ver com outros clubes.

A razão para ele sair era pessoal e também por ligação ao clube: “Quando coloquei esta situação, fiz isto com um objectivo muito simples e ao qual ninguém acreditou. Algo não vai bem dentro da minha cabeça. Perder contra o Espanhol, Athletic ou Granada durante estes tempos, fazia a minha raiva ser muito maior do que a alegria de ganhar em Basileia. Quem me conhece sabe que é verdade. Esse colapso ocorre às vezes na minha cabeça quando há derrotas. Era hora de parar e reciclar. Porque eu já disse isso mil vezes, sou muito mais sevilhista que director desportivo. Era hora de parar e descansar um pouco.”

Ia muito além das ofertas que tinha:  “Peço isso porque preciso de descansar, tomar ar fresco e desbloquear-me. Fui, talvez, mais agressivo do que em outras circunstâncias. Não o fui porque tinha 15 ofertas de cima da mesa, mas eu, melhor que ninguém, sabe quem é o Monchi.”

Sobre a actuação do clube diz que: “o clube tem feito o que tinha de fazer: colocar o Sevilha na frente de Monchi. Considerou oportuno que para eu sair tenho que cumprir o meu contrato. O clube actuou bem e fez como eu faria no lugar deles. Eu teria gostado que tivessem valorizado a minha necessidade, mas legitimamente agiram bem. Eu assumo com mais naturalidade nestes dias que vou ficar. Se um jogador vem e me diz que se vai, eu remeto-o para a sua cláusula.”

Quanto ao pagamento da cláusula para abandonar o clube afirma que: “(…) nunca vou sair de Sevilha pagando a cláusula. Não posso deixar Sevilha pela porta dos fundos. Eu sei quais são as portas para entrar e sair. Estou aqui há 28 anos, no dia que sair vai ser pela porta da frente”.

Deixa um pedido de desculpas aos adeptos do clube e todos os que, de certa forma, o apoiam e apoiaram: “Peço desculpas se magoei alguém. Tudo que eu queria era descansar. Desconectar porque eu estava totalmente saturado. Obrigado aos que me têm apoiado e perdão aos que lhes tirei um minuto de sono”.

Quanto ao seu futuro diz: “não vai ficar nenhuma sequela. Eu sei perfeitamente desvincular-me destas coisas. Eu preciso desse descanso, mas há maneiras e formas de o poder amenizar. Vamos trabalhar para obtê-lo, e que este bloqueio não volte a acontecer. Entrega e dedicação terá se ser maior que sempre, porque a esses que pedi perdão, devo um esforço. A minha responsabilidade com os sevillistas foi sempre eterna e agora é multiplicada por mais. Acreditem em mim. É a única coisa que peço e eu quero”.

Faz ainda uma promessa para a próxima temporada: “Vamos voltar a ter ilusões com este plantel neste Verão, e lutar pelos êxitos. Quero conseguir fazer felizes os sevilhistas. É esse o meu principal objectivo”.
 
 

 

A avaliação do trabalho como director desportivo

Existiram épocas onde Monchi contratou 13 ou 14 jogadores e na resposta aos que dizem que quando se contratam tantos jogadores, não é difícil acertar em alguns, Monchi tem uma resposta muito bem definida.

Diz que é errado julgar o trabalho de um director desportivo pelo acerto que tem nas contratações. O trabalho do director desportivo tem que ser avaliado pelo que fez durante um tempo. Ele poderia vangloriar-se por ter assinado com Daniel Alves, Adriano, Baptista, Poulsen ou Keita, mas o que o deixa orgulhoso é ter uma estrutura que é capaz de ganhar o que o Sevilha tem ganho nos últimos anos. Quando se contratam 15 jogadores, é impossível que todos triunfem, a menos que se jogue rugby. Mas não vale fazer um exame apenas pontual, isto é muito mais profundo.
 

Não há más contratações, mas sim maus rendimentos

Frase curiosa que Monchi disse e que mantém. Segundo ele, não é uma desculpa, mas uma realidade. Há más contratações se não seguirem a própria estrutura, se contrataram atirando uma moeda ao ar e ver se sai cara ou coroa. Mas se seguirem o seu caminho até ao final, não é uma má contratação, mas um mau rendimento porque não foram capazes de adivinhar que a sua adaptação não ia ser a adequada, ou a sua adaptação ao futebol europeu também não, ou que no final de tudo, não é o perfil que o treinador necessita.
 
 


 
 

 

Para esta época, Monchi contratou Sampaoli para o lugar de Unai Emery (que saiu para o PSG). Foi uma decisão arriscada, já que o perfil de ambos os treinadores é muito diferente. Monchi precisa agora de dotar o treinador de elementos bem diferentes daquilo que fazia com Emery. No presente serão necessários jogadores com um perfil de grande qualidade técnica, a fim de rendilhar o plantel de jogadores que facilitem o jogo de posse desde a 1ª fase de construção que tanto marca Sampaoli e não perfis de jogadores mais físicos como aqueles que Emery pedia a Monchi.

O resultado desta mudança só o tempo nos dirá. Porém, se o resultado não for bom, não é por aí que se deve julgar Monchi. Afinal e adaptando declarações do andaluz, não há más ideias, apenas há ideias que podem não ter o rendimento desejado.

Depois de tudo isto, percebe-se facilmente toda a base do sucesso de Monchi como Director Desportivo e, consequentemente, o do Sevilha.

 
 

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