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O Palmeiras de Abel Ferreira 

Abel Ferreira chegou ao Brasil em novembro de 2020 e mesmo com tão pouco tempo de trabalho já conseguiu colocar seu nome na história da Sociedade Esportiva Palmeiras. Em poucos meses, o treinador português que ainda não havia conquistado títulos em sua carreira já alcançou a glória em duas das competições mais importantes da temporada brasileira: Copa do Brasil e Copa Libertadores da América. E mesmo com vários empecilhos durante esse período, entre eles numerosas lesões e contaminações por COVID-19, além do pouco tempo para treinar, Abel conseguiu dar uma identidade a equipa.

Baseado na coletividade e versatilidade táctica para potencializar as individualidades, na determinação e alto nível competitivo, o conjunto palmeirense mostrou-se maleável às várias propostas de jogo apresentadas durante este tempo. Em outras palavras, o futebol camaleônico de Abel Ferreira encontrou no diversificado elenco do Verdão um material muito rico para sua 1ª temporada no Brasil. 

ABEL FERREIRA NO PALMEIRAS – TEMPORADA 2020 

36 JOGOS 

18 VITÓRIAS 

9 EMPATES 

9 DERROTAS 

56 GOLOS MARCADOS 

28 GOLOS SOFRIDOS 

Encontrando um contexto muito diferente do europeu, ainda mais após a passagem de Vanderlei Luxemburgo pelo comando alviverde, as mudanças foram graduais na forma como o time se postava no relvado. Em linhas iniciais, o Palmeiras começou a ter uma alteração na forma como ocupava os espaços dentro de campo e na distribuição de suas peças nesses espaços, seja optando por uma estratégia propositiva, seja reativa. Com uma estrutura variável jogo a jogo a equipa obteve respostas positivas para as novas ideias, principalmente pela capacidade de seus jogadores de interpretar o momento de estar nos espaços corretos, como em largura, profundidade e apoios. 

Como foi dito, por inúmeros motivos o Palmeiras utilizou-se de várias opções durante este final de temporada 2020. E mesmo com este rodízio muito grande de peças, formações e comportamentos, os atletas continuaram a evoluir e enfrentar desafios cada vez maiores. A multiplicidade de ações dentro de campo é uma das marcas dessa equipa de Abel, com jogadores a serem utilizados em diversas funções de acordo com o que o contexto oferece de dificuldades para o time. Além dos jogadores já citados no esboço de XI base acima, nomes como Alan Empereur, Patrick De Paula, Lucas Lima, Gabriel Verón, William e Breno Lopes foram figuras usadas frequentemente na conquista dos títulos de 2020.

Organização defensiva 

Em momento defensivo, logicamente a SEP apresenta variações de acordo com seu rival, mas tem como base uma marcação mista, buscando manter uma maior unidade e compactações defensivas e também gerar algumas perseguições curtas para ser mais agressivo na busca da recuperação do esférico.  Seja partindo de um 4-4-2, 4-1-4-1, 5-4-1, enfim o objetivo é ter uma abordagem enérgica ao portador da posse para impedir a chegada em terço-final do campo. 

Impedir a construção 

Tendo saltos em pressão muito bem medidos, o conjunto busca preferencialmente obstruir a construção interior por meio de encaixes específicos entre médios sobre os volantes rivais, enquanto os avançados trabalham sobre laterais e centrais adversários. Uma vez que a bola sai por um dos defensores, o pressing instaura-se com o avançado cortando a linha de passe de retorno ao outro zagueiro e forçando um passe lateralizado, então o extremo pode pressionar o lateral enquanto o resto da equipa compensa movimentos entre tapar linhas de passe por dentro (encaixes sobre médios) e controlar a profundidade defensiva. 

Zonas onde recuperaram a bola. Respetivamente nos confrontos pela Copa do Brasil e Libertadores com Abel no comando. Mais do que roubar a bola em terrenos adiantados, tentam forçar o rival a jogar pelos lados e então a recuperam mais vezes entre a defesa e o meio-campo. (Wyscout) 

Aqui ainda residem algumas dificuldades que costumam ser aproveitadas pelos rivais: uma vez que este processo de pressão alta está em ação, ainda podem haver dificuldades da última linha defensiva em adiantar-se para diminuir o campo do adversário. Nesse sentido, seja através de saídas organizadas, seja em jogo direto e disputa de 2ª bola, o Palmeiras pode ter problemas em defender a entrelinha, por ter muitas vezes apenas um homem posicionado como médio defensivo (Danilo foi esse jogador durante grande parte do tempo com Abel) e sujeito a ser atraído para outras zonas em coberturas.

Impedir a criação 

Em situação característica da equipa de Abel Ferreira, em bloco médio/baixo ficam mais claras as referências zonais de marcação. A fortaleza defensiva palmeirense (como foi mostrado, sofreu apenas 28 golos na temporada passada) conta com uma atenção especial ao portador da bola rival, com médios e jogadores adiantados com um trabalho extremamente combativo na tentativa de recuperar a posse e facilitar os mecanismos de bola coberta e descoberta da linha de defensores. Esta última linha que merece o destaque pela boa adaptação aos conceitos de controlo da profundidade, coberturas sectoriais e timing correto para desgarrar e perseguir individualmente determinador jogadores, além da defesa da própria área em bloco mais baixo (notável Gustavo Gómez em todas estas ocasiões, coordenando, liderando e orientando a basculação, de modo a firmar-se como um dos melhores zagueiros do continente). 

Transição ofensiva 

Nestes momentos o Verdão tem uma de suas principais armas para gerar perigo a meta adversária. Com movimentos coordenados para aproveitar a largura exterior (extremas e laterais com muita contundência ao ultrapassar em velocidade), a profundidade ofensiva com movimentos em diagonais do avançado e extremas (destaque para Rony no período que atuou como falso-9, Wesley, Breno Lopes e Verón como pontas) e apoios para facilitar a progressão frontal dos médios (Luiz Adriano com mais ênfase nessa função). Estes movimentos são potencializados pela grande capacidade de alguns meio-campistas em lançar transições e jogadores ao espaço, como Danilo, Patrick De Paula e Raphael Veiga, que também devem somar-se aos outros jogadores em zonas de finalização, tanto pisando na área, quanto esperando pelo rebote de modo a dar continuidade ao ataque ou facilitar uma transição defensiva agressiva.  

Organização ofensiva 

Mesmo sabendo ser adaptável ao contexto que cada partida oferece, Abel Ferreira conseguiu conceder um estilo ao Palmeiras. Sem atentar-se tanto a estrutura que compunha o seu sistema, mas com uma atenção especial a reação dos jogadores na ocupação de espaços do campo e suas funções, a SEP tornou-se um conjunto capaz de criar chances de diversas maneiras: saídas curtas e organizadas desde trás, ataques posicionais e elaborados e também ataques rápidos e diretos. 

Fase da construção 

Em qualquer situação, Weverton era um jogador chave para sair jogando e dar início a circulação da posse. Tendo esse guarda-redes ativo com os pés e capaz de participar da iniciação das jogadas, a equipa poderia dispor de diversos mecanismos para manipular a pressão adversária. Saídas em 4+2, ou 4+1, o intuito está em atrair os marcadores e liberar espaços para que os jogadores adiantados tenham opções de desequilíbrio. A tranquilidade e visão de jogo da dupla ou do único pivote que se encontra é crucial para que a eliminação de jogadores rivais ocorra sem erros, por isso Danilo merece menção como um médio extremamente privilegiado no que se refere aos domínios, giros e passes, tendo qualidade para fugir de pressões e encontrar os companheiros a frente. Aqui ainda existe o recurso de bolas longas diretamente de Weverton para encontrar o avançado com capacidade de sustentar a posse e oferecer pivôs por meio de desmarques, prática utilizada especialmente quando Luiz Adriano está em campo. 

Na Libertadores 2020 o Palmeiras foi a segunda equipa com mais passes para a profundidade, passes longos e passes progressivos da competição, apenas atrás do River Plate. (Wyscout) 

Quando a equipa não está em um contexto de sofrer com o pressing, os mecanismos para elaborar os primeiros passes são articulados especialmente pela interação de centrais, laterais e volantes com a possibilidade de criar espaços. Geralmente optando por 3 jogadores na 1ª linha de construção, Abel Ferreira costuma ter um lateral mais baixo para liberar o corredor ao extrema em amplitude, enquanto do lado oposto é o lateral que garante esta largura enquanto extremo tem liberdade para flutuar por zonas interiores (essa relação ocorre habitualmente com Marcos Rocha sendo o lateral a ficar recuado, enquanto Viña ocupa o corredor esquerdo, até pela grande qualidade do uruguaio em terço-final). 

Um contratempo que o Palmeiras tem apresentado nestas fases fica explícita quando o adversário propõe uma marcação alta e impedindo da bola de chegar aos médios defensivos, especialmente em vigilâncias individuais. Em vários jogos durante a temporada foi possível observar uma dificuldade para que o time conseguisse superar essa pressão e criasse chances de perigo, nomeadamente contra Libertad (1º jogo), Internacional e Santos (final da Libertadores), por exemplo. 

Fase da criação 

Estabelecido em campo ofensivo o conjunto apresenta mecanismos de ocupação constante dos flancos externos, escalonamentos variáveis de meio-campo (atrelados aos comportamentos de iniciação supracitados) para facilitar a circulação da posse e uma busca constante do ataque aos espaços nas costas da defesa rival. Com essas movimentações, varia a posse de corredor rapidamente especialmente com passes longos na tentativa de explorar o jogo exterior com os alas e extremas cruzando para a grande quantidade de jogadores que pisam na área.  

Um princípio que com o passar das semanas também ficou com uma melhor operacionalização foi a ativação do 3º homem em ataques rápidos. Com bons primeiros passadores (como Luan, Danilo e Menino, por exemplo) e um avançado capaz de desmarcar-se em apoio rapidamente (Luiz Adriano), vários jogadores puderam ser aproveitados recebendo como homem-livre e tendo tempo/espaço para desequilibrar em conduções ou roturas.  

Origem e zonas de finalizações do Palmeiras. (Instat)

A finalização das jogadas está estreitamente ligada a essa possibilidade de verticalizar os ataques e aproveitar a velocidade de seus jogadores para romper o espaço e ser encontrado em condições de remate. Com uma mobilidade interessante a partir da entrelinha rival há movimentações do avançado nessas descidas em apoios para atrair as atenções da última linha, enquanto isso extrema, médio ou até mesmo lateral podem explorar a profundidade ofensiva em intervalos entre os centrais ou entre centrais e laterais adversários. 

Transição defensiva 

Com uma intensidade de acções tão grande nos outros momentos do jogo, não poderia faltar algo semelhante ao entrar em transição defensiva. Basicamente o Palmeiras alterna entre ter os jogadores próximos ao atleta que roubou a bola a atacá-lo na busca da recuperação (companheiro mais próximo do portador a realizar o counterpressing direto enquanto 2 ou 3 cercam as proximidades para caso o rival consiga desvencilhar-se do primeiro marcador). Por ter geralmente 3 ou 4 jogadores na base da jogada quando a equipa tem a bola, dificilmente sofrem muitos contragolpes sem que haja uma reestruturação veloz da última linha defensiva, com boa contenção vertical dos ataques enquanto o resto do time retorna em organização defensiva. 

Cantos ofensivos 

Abel Ferreira é um exímio treinador de situações de bolas paradas. Com muito trabalho e estudo dos oponentes, consegue criar jogadas específicas para cada situação que o jogo oferece, tendo um repertório amplo de opções ensaiadas previamente para surpreender a defesa rival, entretanto aqui o objetivo será mostrar alguns aspetos principais dos cantos ofensivos em exemplificações no vídeo abaixo.  

Cantos defensivos 

Com grande variação de acordo com o jogo aéreo adversário, existem algumas bases que a SEP adota na defesa de seus cantos. O time costuma defender-se com 9 jogadores dentro da área, adaptando-se ao momento do jogo e ao rival. Em uma configuração mista com predominância zonal, normalmente coloca 3 jogadores próximos a zona do primeiro poste, e outros 3 dentro da pequena área, ainda havendo 2 ou 3 defensores em vigilâncias individuais aos melhores cabeceadores adversários.  

Pontos fortes (a condicionar) 

  • Versatilidade táctica para explorar as várias valências individuais do grupo e também adaptar-se a diferentes contextos de jogo; 
  • Capacidade de controlar a posse de bola em iniciação em diferentes cenários, como saídas curtas ou diretas; 
  • Capacidade de variar centro de jogo e explorar situações no lado contrário após atrair o adversário ao corredor da bola; 
  • Exploração da profundidade ofensiva por meio de desmarques e roturas constantes;  
  • Solidez geral no momento defensivo, tanto em agressividade individual, quanto em equilíbrio coletivo 
  • Leque de ações e jogadas em bolas paradas ofensivas; 

Pontos fracos (a explorar) 

  • Dificuldade de superar pressões com vigilâncias individualizadas sobre os médios defensivos; 
  • Defesa da zona entrelinhas quando o médio é atraído a outra zona, especialmente quando está em cenários de pressing; 
  • Soluções individuais mais assertivas em tomadas de decisões em último terço;  

Jogadores chaves 

Weverton (Guarda-redes) – O experiente arqueiro de 33 anos é um dos ídolos dessa geração palmeirense. Desde 2018 no clube, tem 159 partidas no currículo, já conquistando vários títulos pelo Verdão e sendo um dos líderes do atual grupo. Está afirmado como um dos melhores goleiros brasileiros da atualidade, não só pela sua segurança na defesa da meta, mas também pela qualidade e critério com bola ao pé para dar início às construções. 

Gustavo Gómez (Central) – Um dos melhores defensores do continente, o paraguaio foi o principal capitão das conquistas da Libertadores e Copa do Brasil. Aliando uma agressividade única nas perseguições e uma excelente leitura de jogo para coordenar os movimentos da linha defensiva, tem números expressivos no que se refere ao processo defensivo na última Libertadores, como por exemplo uma média de 4,5 cortes por jogo, 65% das disputas de bola vencidas e 70% dos duelos no chão ganhos. 

Matías Viña (Lateral-esquerdo) – O lateral de 23 anos da seleção uruguaia chegou no Alviverde no começo de 2020, completando ao todo 50 partidas e somando 3 golos e 7 assistências. Com um físico privilegiado, é responsável por ocupar o lado esquerdo de ataque e agregar por meio de cruzamentos a partir do jogo exterior e profundo palmeirense. Ademais, tem bom timing de desarme e intensidade de ações para pressionar os adversários. 

Raphael Veiga (Médio) – Um jogador “recuperado” por Abel Ferreira e que conseguiu atingir uma ótima versão como médio que intercala movimentos entre a base da jogada e a entrelinha, recebendo várias bolas como 3º homem de meio-campo para progredir de forma vertical em direção a meta rival. Em 29 jogos sob o comando do português foram 10 golos marcados e 4 assistências, sendo responsável direto pela boa circulação da posse de bola por zonas internas e também remates em terço-final. 

Rony (Extremo) – Um jogador que também era muito contestado antes da chegada do técnico português, Rony foi líder em participações diretas de golo na Libertadores 2020 (13, com 5 golos e 8 assistências) e aproveitado como extremo direito, esquerdo e ponta de lança (falso 9). Foi potencializado pelo modelo de Abel, com movimentos agressivos para atacar os espaços nas costas da linha defensiva rival e atrair marcadores enquanto os companheiros invadiam a área, evoluindo consideravelmente seu remate e domínios por trabalhar por corredores interiores mais rotineiramente. 

Luiz Adriano (Ponta de lança) – O experiente avançado de 33 anos com passagens por Internacional, Shakhtar Donetsk, Milan e Spartak Moscovo é, em palavras do próprio Abel, o único centroavante do grupo palmeirense. Com inteligência e força para sustentar os centrais rivais em pivôs, dividir atenções dos marcadores quando recua para trabalhar de forma curta e uma mortalidade reconhecida mundialmente em suas finalizações, Luiz Adriano foi fundamental na reta final das competições vencidas pelo Palmeiras. 

As “crias da academia” 

Danilo (Médio) – Um dínamo na saída de bola palmeirense, Danilo conta com todos aspetos que o fazem um médio defensivo especial para os próximos anos. Corpo perfilado para eliminar pressões, técnica associativa ligada a passes curtos e longos e força nos embates defensivos são algumas qualidades únicas do miúdo de 19 anos. Para ilustrar, na Libertadores de 2020 teve como médias 82% de eficácia nos passes, 65% de acerto nas bolas longas e 59% de acerto nos lançamentos. 

Patrick De Paula (Médio) – O médio defensivo de 21 anos já havia sido uma peça importante no título paulista quando Vanderlei Luxemburgo ainda estava no comando do conjunto palmeirense. Com Abel, aos poucos foi retomando seu lugar e tendo minutos, sendo uma peça de talento diferenciado na perna esquerda para agregar em diferentes alturas de meio e também chegar mais vezes em áreas de finalização para arriscar arremates. 

Gabriel Menino (Médio) – Um jogador completíssimo e inteligente em quesitos técnico-táticos e que interpreta de maneira exemplar as várias funções que já foi utilizado pelo treinador português. Seja como lateral, médio ou extrema, o garoto oriundo dos escalões inferiores palmeirense entende o momento exato onde deve baixar como 3º zagueiro em construção (como médio ou lateral), alargar o campo (extrema) e trabalhar a posse por dentro (médio). Um dos atletas mais beneficiados individualmente pela chegada de Abel Ferreira no Brasil. 

Gabriel Verón (Extremo) – Dos maiores talentos sul-americanos nascidos nos anos 2000, Gabriel Verón é um ponta com uma capacidade de acelerar em curto espaço de tempo e aliar isto a dribles em conduções, conseguindo variar o ritmo de sua corrida com grande facilidade. Geralmente atrelado ao jogo externo, tem evoluído nas movimentações entrelinhas e no trabalho em espaços reduzidos, sem perder o diferencial técnico do drible em velocidade. 

Wesley (Extremo) – Titular nas finais da Copa do Brasil, o jovem extremo retornou de um empréstimo ao EC Vitória e ganhou muito espaço no atual elenco palmeirense. A partir da ponta-esquerda tornou-se uma arma nas fortes transições ofensivas da equipa pela sua velocidade, produtividade em profundidade (atacando e identificando espaços entre lateral e central) e progressões com bola difíceis de serem marcadas pelos adversários. 



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