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Paços de Ferreira – A estratégia ao serviço da identidade

No final da primeira volta da Liga Portuguesa, o Paços de Ferreira ocupa o 4.º lugar em igualdade pontual com o Benfica, fruto dos 34 pontos conquistados, com uma sequência de 6 vitórias consecutivas e 8 jogos sem perder no final da primeira volta. Desde a 2.ª derrota da época, logo à 3.ª jornada, apenas perdeu o jogo frente ao Benfica no Estádio da Luz com um golo aos 90+4.

A primeira volta da equipa treinada por Pepa tem sido excelente, o que na nossa opinião (além da qualidade dos jogadores) se deve também à variabilidade de opções que a equipa técnica criou para a sua equipa e a capacidade de, mantendo o seu modelo de jogo, se adaptar a cada situação e adversário através do plano de jogo e respetiva estratégia.

Pepa refere na sua entrevista ao MaisFutebol* que “A estratégia é tão ou mais importante do que a ideia-base. Adoro o futebol apoiado, de toque, de posse, mas acima de tudo está outra coisa. Qual é o objetivo do futebol quando temos a bola? Marcar golo. Só isso. Se eu posso chegar à baliza em seis segundos, não vou chegar em 20 e há muitas formas de lá chegar. De que forma o adversário defende? Nunca vamos abdicar da nossa identidade, mas cada jogo tem uma história. Como é o campo, como está a relva, o que exige aquele oponente? O bloco adversário está mais subido ou mais baixo? Há mais espaço por dentro ou por fora? Há mais espaço na profundidade ou entre linhas? Temos de ter uma variabilidade que nos permita estar preparados para várias situações (…) O trabalho que se faz antes de começar o jogo é fundamental. Procurámos sempre saber onde e como podemos castigar o adversário e também temos de perceber a melhor forma para nos salvaguardarmos. Quais os caminhos a proteger? Que zonas tapar com mais cuidado? Preparar tudo isto ao detalhe…”

Analisando a equipa do Paços de Ferreira em diferentes jogos, percebemos que aquilo que Pepa afirma é colocado em prática, uma vez que partindo da sua estrutura base de 1-4-3-3 e sem fugir a alguns princípios base, tem capacidade para apresentar uma variabilidade de comportamentos tanto em organização ofensiva como defensiva, explorando as fragilidades dos adversários e protegendo a sua equipa perante os pontos fortes dos mesmos.

Organização Defensiva

O Paços de Ferreira revela-se muito forte em organização defensiva, apresentando a 3.ª melhor defesa do campeonato, com 14 golos sofridos na 1.ª volta e apenas 2 golos sofridos em 2021. 

Na fase defensiva opta normalmente por assumir um bloco médio em que, num primeiro momento, Luiz Carlos se aproxima de Douglas Tanque, tornando a estrutura num 4-4-2, a qual em zonas mais baixas se transforma num 4-5-1, com o posicionamento de Eustáquio a definir se os três médios estão em linha ou com um médio defensivo mais baixo.

O bloco médio não tem como principal objetivo recuperar a posse de bola na fase de construção do adversário, preferindo fechar o espaço central, procurando obrigar o adversário a jogar longo ou decidir mal. Para tal contribui tanto a excelente organização intersectorial, com a linha defensiva e média muito compactas, como algo que iremos referir várias vezes nesta análise, a interação entre os seus três médios.

Esta interação permite que num primeiro momento Luiz Carlos se posicione numa zona mais alta, com Eustáquio e Bruno Costa praticamente como duplo pivot, a qual num segundo momento se transforma numa linha de três, fechando o espaço em largura e permitindo que qualquer um dos 3 jogadores encurte distância perante o adversário, mantendo dois em cobertura defensiva. Outro aspeto a destacar é a capacidade de perceção do momento a realizar e eficácia das dobras aos defesas laterais Rebocho e Fonseca e ainda a entrada no alinhamento defensivo por parte de Eustáquio, compensando qualquer saída dos defesas centrais ou defesas laterais. O posicionamento em zonas mais baixas do extremo do lado da bola, permite ainda que os defesas laterais se mantenham a fechar o espaço central e próximos do defesa central do seu lado, não arrastando a linha defensiva nem criando espaço entre o defesa central e lateral.

A linha defensiva muito coordenada, revela capacidade para se manter muito compacta com a linha média, reduzindo o espaço entrelinhas, identificando ainda o exato momento em que perde a vantagem e deve retirar profundidade, temporizando o ataque adversário e aguardando a aproximação dos médios.

Nas zonas próximas da baliza e na defesa do cruzamento detetam-se pormenores como a linha defensiva com cobertura em relação ao jogador em contenção, orientação dos apoios ou rotação de pescoço para perceção de espaço e adversários.

A equipa liderada por Pepa revela ainda capacidade para perceber quando falha o seu momento de pressão em zonas mais altas e o adversário consegue variar o centro de jogo, não se desorganizando e rapidamente se adapta como um bloco, com um movimento em diagonal para zonas mais baixas e para o outro corredor, assumindo a linha de pressão alguns metros à retaguarda.

Transição Ofensiva

No momento após recuperar a posse de bola, o Paços de Ferreira tem como primeira opção ligar com Douglas Tanque que, mesmo em organização defensiva, se mantém quase sempre em zonas mais altas como referência para o momento de transição, revelando grande capacidade para segurar e aguardar a chegada dos companheiros, normalmente Luther Singh e Hélder Ferreira que atacam o espaço em velocidade.

Quando verifica que não tem vantagem na transição em velocidade, assume uma transição em segurança, mantendo a posse de bola, o que para tal em muito contribui a qualidade de Eustáquio e Bruno Costa, tirando a bola de zona de pressão e procurando atrair o adversário para zonas mais baixas, permitindo-lhe em consequência explorar a profundidade através de passe longo para as referências ofensivas.

Organização Defensiva e Transição Ofensiva

Organização Ofensiva

Ainda de acordo com a entrevista acima, Pepa refere que “…Quando temos um avançado assim, (Douglas Tanque) que segura tão bem de costas, podemos variar ainda mais o nosso jogo. Temos capacidade para explorar o jogo exterior com a nossa estrutura móvel e também para jogar por dentro. Acho que podíamos jogar um pouco mais por dentro, mas já vamos jogando. O Luiz Carlos, o Bruno Costa e o Eustáquio têm estado muito bem. E, quando a equipa precisa, podemos procurar o nosso ponta-de-lança. Tem características muito específicas. O Tanque sabe servir colegas, atrai os centrais e coloca-nos a jogar dentro do coração da equipa adversária. Isso é importantíssimo. A nossa bola passa a primeira zona de pressão, a segunda linha de pressão e já está nas costas dos médios deles. A partir daí temos de saber definir. Há várias maneiras de agredir a equipa adversária, não sou obcecado por um estilo único.”

No seguimento das palavras de Pepa, podemos observar que em organização ofensiva, o Paços de Ferreira apresenta uma variabilidade de soluções, tanto de acordo com as caraterísticas dos seus jogadores como dos pontos fortes e fragilidades dos adversários.

Podemos afirmar que o Paços de Ferreira terá como primeira opção na sua fase de construção um futebol apoiado, mas logo aqui apresenta variantes na sua estrutura. Um movimento padrão é claramente o posicionamento de Bruno Costa em largura, ao lado do defesa central esquerdo, Eustáquio no corredor central e Luiz Carlos, ou em largura ou numa zona entre linhas nas costas da linha média adversária. O posicionamento de Bruno Costa permite que Luther Singh se posicione em espaços interiores e o defesa esquerdo dê profundidade e largura. O extremo do lado oposto mantém-se em largura potenciando por vezes a opção de variação de corredor em passe longo para situações de 2×1 (extremo e defesa lateral) e ainda com Luiz Carlos próximo da bola (muito forte nas segundas bolas). O posicionamento por dentro do extremo do lado da bola permite algumas associações em passe vertical entre o defesa central (preferencialmente Marco Baixinho) e o extremo.

O posicionamento base referido acima varia para a linha de 4 defesas mais baixa e uma constante troca de posições entre Eustáquio, Luiz Carlos e Bruno Costa, com um jogador no corredor central (normalmente Eustáquio) e outro médio, o do lado da bola a baixar para apoiar a ligação entre construção e criação, mantendo-se o terceiro médio nas costas da linha média adversária.

Se o adversário optar por condicionar a construção com um bloco alto, a equipa do Paços de Ferreira não assume grandes riscos e opta pelo passe longo, normalmente para Douglas Tanque, sendo posteriormente eficaz em juntar linhas e ganhar segundas bolas através dos seus médios.

Tal como referimos acima, a dinâmica dos três médios é muito importante, havendo ainda a alternativa de Bruno Costa e Luís Carlos se posicionarem mais baixos, permitindo que Eustáquio receba entre linhas, explorando a sua qualidade técnica em zonas mais ofensivas.

Em zonas mais altas, Douglas Tanque procura fixar os defesas centrais, o que associado à profundidade dos defesas laterais, permite que os extremos ocupem o espaço interior potenciando movimentações de rutura diagonais, revelando facilidade de chegada à área. Bruno Costa e Eustáquio ficam normalmente mais recuados como médios de cobertura, potenciando a sua qualidade de passe e visão de jogo, libertando Luiz Carlos para zonas mais ofensivas.

Transição Defensiva

O equilíbrio defensivo da equipa é garantido principalmente por Eustáquio e Bruno Costa, que têm como tarefa reagir numa primeira fase à perda de posse de bola, ficando os defesas centrais em zonas mais baixas, com especial preocupação em controlar a profundidade em caso de transição defensiva.

Normalmente assistimos a um primeiro momento após a perda de posse de bola em que há a tentativa de a recuperar ou condicionar a saída da mesma do centro de jogo, mas sem desorganizar a equipa, sendo que se esse momento falhar, os jogadores do Paços de Ferreira procuram imediatamente assumir posições em organização defensiva em bloco médio ou baixo, revelando elevado compromisso dos seus jogadores para recuarem e participarem neste momento.

Organização Ofensiva e Transição Defensiva



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