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Através de uma campanha solidária com a Cruz Vermelha, a Gnosies promoveu um debate entre Luís Castro (treinador Shakhtar Donetsk) e Renato Paiva (treinador Benfica B), onde se abordou essencialmente o contexto do futebol de formação. Destacamos assim algumas convicções expostas ao longo desta excelente conversa:

Luís Castro

“Um treinador tem de ter valores como a afetividade para poder crescer dentro da sua carreira. Se só se agarrar aos seus conhecimentos técnicos, não é um treinador completo, porque ele vai ser posto à prova constantemente e desafiado pelos seus jogadores.”

“É fundamental o treinador descer se tiver de descer, subir se tiver de subir, mas pôr-se ao nível e no lugar de quem o está a ouvir, e perceber se o outro lado o está a entender. Esse é um dos talentos fundamentais do treinador: a comunicação.”

“Há quem se agarre ao seu modelo de jogo e vá trocando os jogadores, até aquilo dar certo. E, entretanto, pelo caminho perdem-se jogadores.”

“Têm-me dito que o futebol é o caos permanente. Eu acho o futebol é a organização permanente. Tu perdes a bola e organizas-te, ganhas a bola e organizas-te. É como eu estar a ver uma coisa que não percebo nada e digo que aquilo é o caos. Para mim, o trânsito está um caos, para um taxista é o dia-a-dia dele.”

“A ordem é que faz o criativo ter mais ou menos sucesso. Se houver ordem, ele vai ter espaço para manifestar toda a sua criatividade, porque vai-lhe aparecer o 1×1 e o espaço vazio. Se não houver ordem, ele vai aparecer contra três ou quatro e não vai conseguir.”

“Eu não sou claramente o treinador que começou a treinar há 23 anos atrás. A minha estratégia foi agarrar-me a valores como o respeito e trabalho, todos os dias. Mas, fundamentalmente, ouvir muito. Essa foi a minha estratégia para o crescimento da minha carreira.”

“Temos de perceber exatamente quem são os jogadores que têm potencial para chegar à equipa A. E os outros que eventualmente não vão chegar a equipa A, mas vão chegar a outras equipas A e vão fazer a sua carreira, não os podemos descurar. Porque alguns vão falhar e outros vão ser surpresas fantásticas.”

“Há pais bons e há pais menos bons. Há pais que entendem perfeitamente porque é que o filho joga ou não joga. Um miúdo é um ser humano, tem condição de fragilidade e de erro. Ele tem de perceber que, enquanto não for tão bom como o outro, não vai jogar tanto. Mas tem que lhe se ser explicado porque é que não joga, para ele perceber os problemas que deve resolver para poder jogar mais. E deve ser dito ao pai que, dentro do clube, há meritocracia.”

“Um treinador de formação é uma referência, tem de ser uma pessoa distinta. Não pode ir para o banco para se ir mostrar a ninguém, mas sim para desenvolver trabalho e passar valores. É uma figura para os miúdos. Representa um modelo, não vai fazer uma passagem de modelos.”

“Há treinadores que dizem que fazem jogadores. Quem faz o jogador, é o próprio jogador! O treinador faz a obrigação dele, que são propostas de treino e de jogo para o desenvolvimento do jogador. Depois o trabalho é todo do jogador.”

Renato Paiva

“Ninguém pode ensinar aquilo que não domina, senão não ensina bem.”

“Mantendo o estilo de jogo, tenho de adaptar o modelo de jogo à questão dos jogadores. O estilo é inegociável.”

“Na formação, há jogadores que estão catalogados como tendo maior potencial e, se tiveres cinco médios e jogares com três, tens de arranjar soluções para que eles joguem.”

“A proposta de treino e de jogo na formação é que conduz ao jogador ter prazer em jogar.”

“Um clube deve perceber o jogador que não tem rendimento elevado, mas se o clube acredita no desenvolvimento dele e que o potencial venha a aparecer mais à frente, tem de o submeter à prática, tem de o pôr a jogar.”

“Não gosto de fechar a questão dos sistemas. O ensino do futebol, seja na formação ou no futebol profissional, é a interpretação do momento na relação entre bola, colega, adversário e espaço, e se o jogador souber tirar partido desta decisão, isto vale para o 4-3-3, 3-5-2, 4-4-2, vale para tudo.”

“O futebol é um fenómeno público e toda a gente pode ter opinião. Mas não pode depois aprofundar opiniões sobre coisas que não sabe, que não vivencia. Questionam porque é que joga o jogador x e não o jogador y, sem terem visto uma semana de treinos e sem ter ideia do que é o dia-a-dia do ecossistema que é uma equipa de futebol.”

“A diversidade ajuda, complementa e preenche. Na perspetiva do jogador, eu concordo que ele passe por treinadores diferentes. Porque depois, quando chegar a sénior, vai ter o treinador que grita mais e o que grita menos, o que comunica mais e o que comunica menos, o que é mais sensível e o que é menos, e ele tem de estar preparado para esses contextos.”

“É importante ter cuidado com os critérios de avaliação para colocar um jogador na equipa A. Porque às vezes podemos achar que ele está preparado e não está. Ou não está ele ou a realidade para onde ele vai não está preparada para o receber. E isso é importante ter em conta, porque pode gerar frustração no jogador.”

“Os radicalismos na periodização tática, no futebol e na vida não são bons para nada nem para ninguém. Uma das suas valências são os exercícios que conduzem ao ensino do jogo. Mas enquanto não conseguirem que o jovem jogador faça tudo bem, partam. Se ele tem dificuldades na parte motora, trabalhem a parte motora. Se ele tem dificuldades na técnica de corrida, trabalhem a técnica de corrida.”

Considerações finais

“É possível chegar a top, mesmo começando por baixo. Não é preciso atropelar o colega, nem é preciso meter-lhe uma faca nas costas para nós crescermos na vida.”

Luís Castro

“Conheci o mister Luís Castro como diretor técnico do FC Porto e como meu adversário. Sabemos o peso e rivalidade das instituições, e quero dizer que a amizade e a admiração começaram aí e os emblemas não me disseram nada, porque a empatia e partilha foram imediatas. Acima de tudo, os emblemas devem separar-nos dentro de campo, mas não fora dele.”

Renato Paiva