Menu Close

Rio Ave numa lotaria europeia

A eliminatória frente ao “todo poderoso” AC Milan, após uma proeza histórica com a passagem frente ao Besiktas na Turquia, não se afigurava nada fácil para os vila condenses.

Contudo, a equipa portuguesa desde o minuto inicial tratou de demonstrar imensa personalidade e competitividade, sem quaisquer tipos de receios, tratando de colocar sempre o jogo num ritmo alto.

Como o conseguiu? Com muita agressividade no momento de pressão, por vezes recorrendo mesmo às ditas faltas inteligentes para evitar momentos de exposição a contra-ataques adversários, linhas bem subidas e compactas no terreno de jogo na tentativa de incomodar as saídas de jogo adversárias logo desde trás, criando um certo desconforto e fazendo-os sentir que iriam passar por dificuldades ao longo da partida.

Rio Ave sempre fiel ao seu modelo de jogo !

Numa antevisão a esta eliminatória de acesso à fase de grupos da Liga Europa, e com o menor favoritismo natural da equipa da casa, a curiosidade passaria por saber até que ponto conseguiriam colocar no terreno de jogo, as suas ideias de jogo, principalmente nos momentos em que tivessem a posse da bola.

E a resposta não poderia ter sido melhor para os comandados pelo técnico Mário Silva, finalizados mesmo os 90 minutos com superioridade estatística na posse de bola 54%.

Primeira fase de construção de jogo com a necessidade clara de sair a jogar curto logo desde os centrais, com o duplo pivot Tarantini/Filipe Augusto a assumirem-se como o motor de jogo desde trás da equipa, dando-se ao jogo, sempre a oferecer linhas claras de passe, e fazendo o esférico circular para os corredores laterais de forma rápida e precisa (em 2/3 toques).

Nas faixas laterais de destacar a constante projeção ofensiva de Ivo Pinto, conseguindo ser sempre uma peça importante na manobra de ataque, e também a criatividade técnica de Piazón e Carlos Mané.

A equipa de Milão, demonstrou também imenso respeito pela equipa lusa, mostrou ter analisado ao detalhe o adversário, sendo notória a procura em condicionar essa dupla de médios centro com recurso a marcações apertadas, num pressão alta e agressiva, sempre a tentar cortar linhas de passe.

Os italianos ainda se apresentaram fortíssimos nas disputas das primeiras e segundas bolas, superiorizando-se sobretudo nos lances de jogo aéreo.

AC Milan não conseguiu no último terço ofensivo, impor sua forma de jogar

Por sua vez, os orientados por Stefano Pioli sentiram algumas dificuldades em conseguir colocar em prática as suas ideias de jogo no último terço ofensivo.

Os seus extremos procuravam demarcações em diagonais nas costas da defesa contrária, explorando a execução do último passe do turco Çalhanoglu (no qual é exímio diga-se de passagem), mas sem grande sucesso.

Socorreram-se da agressividade ofensiva, largura e profundidade dadas pelas constantes subidas dos laterais Theo e Calabria, mas faltando sempre a criação de mais oportunidades de perigo em zonas de finalização.

Vila condenses como os principais culpados pela inércia do ataque italiano

Uma vez mais, temos de destacar a competente organização do Rio Ave. Estudaram o adversário, sentiram a necessidade de alargar por vezes, a sua linha defensiva com 5 elementos e mantendo uma linha de 4 médios à sua frente. Com um conjunto de movimentações defensivas que iremos demonstrar na imagem abaixo, foram assim, capazes de controlar as diagonais da linha lateral para o corredor central de Castillejo e Saelemaekers e ainda a grande projeção ofensiva de ambos os laterais.

Defender em 5-4-1 com a bola no corredor esquerdo adversário
Defender em 4-4-1-1 com bola no corredor central ou direito adversário

Os italianos só na 2ª parte e com a entrada de Brahim Díaz, aproveitando-se da sua mobilidade, irreverência, imprevisibilidade e qualidade técnica, conseguiram criar mais problemas à defensiva dos da casa.

A perspicácia de Mário Silva desde o banco de suplentes

A equipa técnica comandada pelo português mostrou-se certeira nas substituições realizadas, principalmente na de Francisco Geraldes , em quem procurou ter um médio com frescura física, capacidade para recuar até à 1ª fase de construção de jogo e conseguir ligá-lo com os homens da frente, mas além de tudo isto, com capacidade para chegada à frente. Um criativo com forte visão de jogo, qualidade no último passe e ainda com bom remate (1º golo)

Com a entrada de Gerson Dala para avançado centro, essencialmente apostou na sua velocidade, acelerações com bola e imprevisibilidade frente a uma defesa contrária já fisicamente desgastada, revelando-se decisivo ao marcar o segundo golo do jogo, numa jogada deste tipo.

Bolas paradas como fator decisivo para resolução da eliminatória

Foi no momento do jogo das bolas paradas que a eliminatória foi decidida a favor do Milão.

O primeiro golo surge num canto e numa segunda bola à entrada da área, onde Saelemaekers aparece sem qualquer tipo de oposição e com bola descoberta, executa um remate de longe para golo (situação que foi uma constante no jogo).

O golo do empate a 2-2 surge num empate já aos 122 minutos e de penálti, levando o jogo para a lotaria das grandes penalidades.

Chegados a esta fase e com 3 chances para a equipa do Rio Ave poder matar a eliminatória a seu favor, após os jogadores do Milan terem falhado primeiro, não o conseguiram fazer, e quando Aderllan falha a sua execução, Kjaer demonstrou toda a sua experiência, batendo para golo o 24º penálti.

Eliminação com sabor agridoce

Não há vitórias morais no futebol, mas existem derrotas que auguram algo de bom num futuro próximo.

Pela personalidade e carácter demonstradas no estádio dos Arcos contra um clube com todo o peso histórico do AC Milan, o plantel do Rio Ave pode sair de cabeça bem levantada, pois foram uns dignos representantes do futebol português nestes play offs europeus. Mereciam ter tido uma sorte bem diferente daquela que lhes saiu na lotaria na tempestade de quinta feira.