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Scouting: Médios defensivos “à Jorge Jesus” no mercado

Análise de Mercado: como trabalha a ProScout no futebol profissional? Quais os métodos, ferramentas e passos para encontrar soluções viáveis no mercado? Aqui fica um exemplo, onde tentamos encontrar uma solução para a posição 6 do Benfica.

A ProScout já está presente no panorama do futebol português há vários anos envolvida em diferentes projetos e serviços. Hoje decidimos mostrar mais uma faceta do nosso trabalho. Não gostamos de entrar nas capas de jornais referentes ao mercado de transferências, nem em supostas contratações que acabam por nunca acontecer. O nosso objetivo é mostrar um pouco do trabalho de análise de mercado que é feita a nível profissional por alguns clubes ou empresas.

Pegando num exemplo concreto do futebol nacional, nas últimas semanas tem-se falado do descontentamento de Julian Weigl no Benfica e de uma possível venda. Sabe-se também que Gabriel, o jogador do Benfica mais utilizado na posição 6 esta época não está habituado à posição, e que poderá render mais quando joga mais adiantado no campo. Por todas as virtudes e possibilidades que envolvem a época do Benfica e a sua posição 6, decidimos procurar algumas alternativas no mercado que se enquadrem nos gostos e preferências de Jorge Jesus. Os nomes apresentados podem até não ser os melhores jogadores disponíveis no mercado (se estivermos a falar do subjetivo fator a que chamamos talento), mas são aqueles com perfil mais semelhante ao que Jorge Jesus tem escolhido para as suas equipas.

Este processo é longo, pormenorizado e individualizado, como todos os serviços nestas áreas deveriam ser. Com recurso aos diferentes dados a que temos acesso (o famoso Big Data), ao nosso serviço de scouting e observação e também pelo conhecimento do futebol nacional e internacional que possuímos, analisámos os últimos médios defensivos que atuaram com Jorge Jesus, e criámos um perfil ideal baseado nestes fatores.

O perfil ideal

Através dos dados de Samaris (época 2014/15), William Carvalho (2015/16 no Sporting) e Willian Arão (2019 no Flamengo), mas também dos atuais ou recentes médios defensivos do Benfica (Gabriel, Julian Weigl e Florentino), foi possível criar um perfil ideal de médio defensivo, com cálculos que continham as médias dos diferentes parâmetros para a posição 6. Deixamos então uma primeira comparação entre estes seis jogadores que nos permitiu analisar quais os seus pontos fortes e fracos, e quem teve as melhores performances em certos parâmetros (todos avaliados por 90 minutos).

Com a nossa análise, concluímos que o jogador ideal, para além das necessidades básicas para a posição 6, tem que ser forte nos duelos pelo ar e pelo chão, capaz de ocupar e de se mover num raio de ação grande num momento de transição, de preferência que seja alguém forte com bola a resistir à pressão e que consiga ganhar metros através do drible. Ofensivamente não precisa de se destacar no último terço, no entanto é importante que seja forte no passe (precisão-tensão) e que saiba ter protagonismo na construção. Deixamos aqui alguns dos muitos parâmetros utilizados:

No quadro acima vemos duas tabelas. A de cima mostra os dados relativos às recuperações de bola, em baixo os desarmes.
Avaliação dos duelos ganhos: aéreos e pelo chão.
No capítulo do passe, decidimos juntar a percentagem de acerto de passes (altura da coluna) e o número de passes chave por jogo (grossura da coluna). Por exemplo, Florentino tem uma excelente eficácia de passe, mas não realiza tantos passes-chave como William Carvalho.
Perdas de bola por 90 minutos, e também foco especial às perdas de bola no meio-campo defensivo).

Filtragem

Com recurso a dados de 11 ligas diferentes que considerámos certas para o contexto do Benfica e da posição 6 no mercado, começámos com uma base de dados de cerca de 5000 jogadores, e fomos filtrando os diferentes parâmetros relevantes para a posição, clube e treinador, deixando aqui alguns dos variados fatores menos óbvios:

  • Jorge Jesus nunca utilizou um médio defensivo com menos de 1,80m de altura, sendo pública a importância que o treinador dá a esse parâmetro em certas posições. Também limitámos a idade máxima, com 27 anos a ser a idade limite da nossa filtragem.
  • Diferenças de nível competitivo. O patamar de dificuldade em que o Benfica se encontra. Não faria sentido integrar jogadores de realidades muito distintas à do Benfica, se depois iriam sentir dificuldades na sua adaptação e afirmação. Um jogador do Partizan/Estrela Vermelha é diferente de um jogador do Radnik, apesar de jogarem na mesma liga.
  • Jogadores que já atuam num patamar distante da realidade do Benfica. Na nossa filtragem inicial, nomes como Kondogbia (Atlético Madrid), Gortezka (Bayern) ou Guido Rodríguez (Bétis) surgiram como semelhantes ao perfil procurado. Por motivos evidentes relacionados com o seu valor qualitativo e financeiro, não iremos incluir esses nomes.
  • Impossibilidade de uma transferência imediata. Tom Trybull (emprestado pelo Norwich ao Blackburn Rovers), Zubizamendi (atual titular da Real Sociedad, líder da La Liga e internacional sub-21 espanhol e valorizado acima do que normalmente são as verbas de transferência do Benfica), ou Baptiste Santamaria (recentemente transferido do Angers para o Freiburg) são alguns exemplos que, apesar de não estarem em clubes maiores que o Benfica, tivemos de deixar de fora pelas dificuldades no processo de transferência.

Observação, seleção e análise individual

Depois de chegarmos a cerca de 25 nomes viáveis nos contextos referidos anteriormente, trazemos aqui aquelas que considerámos as melhores opções disponíveis, com diferentes valores de mercado, idades relativamente diferentes, mas todos com qualidade para, a curto ou médio prazo se afirmarem num clube grande português, como o Benfica. De recordar que mais recentemente, Matic demorou a afirmar-se no Benfica, ou que o atual titular na posição 6, Gabriel, transferiu-se do Leganés e era quase um desconhecido para a maioria do público português. Uma garantia podemos dar: o nosso trabalho foi minucioso, e todos os jogadores presentes têm bastante valor. Irão ser apresentados sem qualquer ordem em específico, e podem todos trazer valor aos encarnados:

Florentino Luís

Começando por um jogador da casa, o Benfica tem em mãos um jogador que podia assentar perfeitamente no modelo atual. Apesar de não ter sido considerado aposta para este ano, Florentino está imediatamente associado ao melhor período do Benfica nos últimos anos (o primeiro semestre de 2019, com Bruno Lage ao comando). O médio português é muitas vezes mal interpretado, e até caracterizado por adeptos e alguns media, mas defensivamente é dos melhores jogadores da sua geração para esta posição.

Muito forte a equilibrar a equipa, excelente no posicionamento e nos desarmes, é um jogador que vai pouco ao chão e que, com a sua passada larga, cobre um raio de ação muito grande no campo. Com bola, é muito assertivo, tenta procurar colegas em melhores posições e sempre seguro e com critério para tomar a melhor decisão para o coletivo. Parece estranha a falta de aposta em Florentino nos últimos 12 meses, no entanto, dentro do campo, o jovem português correspondeu quase sempre às expectativas. Não tem sido aposta no Monaco, pelo que o regresso a Portugal faria todo o sentido caso fosse para jogar.

William Carvalho

O internacional português é uma exceção na nossa lista, não só porque tem 28 anos, acima do limite proposto neste trabalho, mas também porque é um dos jogadores já referidos neste artigo, ele que trabalhou com Jorge Jesus no Sporting. Como foi possível perceber nos dados apresentados acima, William é um dos melhores médios que JJ já teve, com atributos muito bons com bola, forte a resistir à pressão, muito forte a progredir com bola, e tem não só atributos físicos mas também inteligência e posicionamento que o tornam dominador no centro do terreno.

A meio do contrato com o Bétis, o médio português seria certamente um investimento alto, entre 20 e 27 milhões, mas que poderia ver com bons olhos um regresso a Portugal e a uma equipa que possa disputar a Liga dos Campeões, depois do projeto do Bétis se ter mostrado um falhanço após a saída de Quique Setién. A cláusula existente de 25% para o Sporting numa futura transferência podia complicar o negócio, mas Jorge Jesus parece ver com bons olhos a contratação do médio formado em Alcochete.

Cheick Doucouré

Com apenas 20 anos, Doucouré é o mais novo desta lista, mas encontra-se já na segunda época como indiscutível na Ligue 1, juntando também uma época na Ligue 2 com 25 jogos feitos, quando tinha apenas 18 anos. Médio muito completo, destaca-se pelo seu conforto com bola, pelo centro de gravidade baixo que tem, que o permite reter a bola em situações de pressão, sair a jogar através do drible e do passe, mas também o torna muito difícil de bater nos duelos defensivos. A sua passada larga permite corrigir alguns erros posicionais ou com bola (tanto individuais como coletivos), e obter um número elevadíssimo de recuperações por jogo.

Com bola é provavelmente o jogador mais diferenciado desta lista, tendo muita qualidade e inteligência na manutenção da posse de bola. Tem jogado no duplo pivot do Lens, não sendo tão fixo como se jogasse sozinho, mas tem muitas caraterísticas que o permitiriam ser moldado num 6 de equipa grande. Avaliado em cerca de 5 milhões de euros (diferente do preço de mercado, mais elevado), tem contrato com o Lens até 2024 mas já se falam de alguns interessados pela Europa fora no internacional maliano.

Frank Onyeka

Onyeka é mais um exemplo do excelente projecto de scouting que o Midtjylland montou nos últimos anos. O nigeriano que fez a estreia na seleção em Setembro chegou a Dinamarca em 2017, e tem tido um percurso ascendente desde então. No seu percurso nas camadas jovens Onyeka foi muito polivalente, jogando até em posições mais adiantas no terreno ou no corredor (jogador rápido e móvel), mas tem-se assentado no meio-campo do conjunto dinamarquês com um perfil muito atrativo: excelente no transporte de bola. No modelo do Midtjylland tem liberdade para chegar a zonas do último terço caso haja oportunidade, mas também utiliza essa mobilidade para o ajudar em tarefas defensivas, sendo muito forte nos duelos defensivos.

Fisicamente tem o perfil que Jorge Jesus gosta, passada larga, veloz e capaz de ganhar duelos aéreos, não sendo muito alto (1.83m). Com bola é algo inconsistente tecnicamente (tanto faz algo excelente como falha uma receção relativamente fácil), mas cumpre muito bem as tarefas que lhe são pedidas. Beneficiaria também de um posicionamento mais rígido no 4-4-2 do Benfica, ao contrário da liberdade no Midtjylland que muitas vezes o coloca em posições desfavoráveis defensivamente (no passado variava com Evander esse papel mais móvel, este ano tem sido mais fixo e destaca-se pela sua eficácia defensiva). Este ano temos assistido a belas exibições de Onyeka na Liga dos Campeões, onde o Midtjylland, apesar do grupo difícil, tem dado boa resposta.

Njegoš Petrović

Petrovic é um jovem sérvio, considerado o novo Matic. Estas comparações são quase sempre erradas e exageradas, mas neste caso encontrámos várias semelhanças entre estes jogadores, principalmente quando Matic ainda era mais 8 do que 6 (com a mesma idade de Petrovic, curiosamente). Com experiência de sub-21 na seleção da Sérvia, Petrovic variou o seu percurso formativo entre as duas posições do meio-campo, estando neste momento a afirmar-se como um médio defensivo “de equipa grande”, no entanto, com um perfil mais móvel do que aquilo a que estamos habituados a ver em Portugal. Forte no posicionamento e nas suas recuperações de bola, utilizando o alto dos seus 1,85m para ser dominador nas bolas aéreas, tem ainda que crescer fisicamente e tecnicamente para ser mais forte no 1v1 defensivo (principalmente em transição, onde demonstra algumas lacunas quando defende com muito espaço).

Com bola sente-se muito confortável, é muito rápido a sair em drible (a fazer lembrar Frenkie de Jong no Ajax), mas quando a equipa necessita também sabe ser mais posicional e jogar mais cautelosamente, algo necessário nos 6 de Jorge Jesus. É comum também vê-lo a ajudar na construção, seja entre os centrais, num dos corredores ou sozinho, em frente à linha defensiva. O facto de atuar numa equipa que é obrigada a ganhar 90% dos jogos a nível interno e de participar nas competições europeias aproxima-o da realidade do Benfica, mesmo que num patamar mais reduzido.

Conclusão

Para concluir este exercício, voltamos a reforçar o nosso objetivo: encontrar jogadores que são ao mesmo tempo boas oportunidades de negócio e que tenham características adequadas ao que Jorge Jesus costuma procurar nos seus médios defensivos. Este exercício serve também para mostrar que a procura de um jogador não é linear, nem sempre o jogador está num contexto idêntico àquele a que se vai transferir, e que até pode ser comparado a jogadores de perfis diferentes, mas que contêm o mesmo leque de características prioritárias (o Benfica tem no plantel Weigl, Samaris e Gabriel, todos eles bem diferentes, por exemplo). Jorge Jesus é conhecido por escolher jogadores com um perfil mais ofensivo e fazer deles bons pivots no meio-campo, casos de Matic, Samaris, Arão ou Gabriel, e temos a certeza que alguns destes nomes iriam evoluir bastante sob a sua alçada.

Depois deste processo longo e pormenorizado, deixamos então alguns nomes extra para manter debaixo de olho no mercado que, por uma razão ou outra, não achámos que já estivessem qualificados para este patamar :

  • Johnny Cardoso (19 anos, Internacional SC)
  • Josh Laurent (25 anos, Reading)
  • Mahdi Camara (22 anos, Saint-Étienne)
  • Jerdy Schouten (23 anos, Bologna)
  • Sulayman Marreh (24 anos, Gent)