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Até à interrupção das atividades desportivas, a temporada da La Liga estava a ser uma das mais competitivas dos últimos anos. Tanto a luta pelo título, entre os normais tubarões Barcelona e Real Madrid, como a luta para aceder aos restantes lugares europeus estavam ao rubro, com diferenças pontuais muito reduzidas entre diversas equipas. Na luta pela qualificação para a Liga dos Campeões, uma das equipas tem sido o surpreendente Getafe. Ao longo da sua história. o Getafe esteve normalmente longe to topo da classificação, levando até à descida de divisão em 2015-2016. Desde essa época, Pepe Bordalás assumiu o controlo da equipa na segunda divisão e a mentalidade do Getafe mudou. Com a subida garantida logo no primeiro ano, o Getafe voltou à La Liga com duas campanhas acima da média, terminando em 8º (17-18) e 5º (18-19) nos últimos dois anos.

Os jogadores mais utilizados por Bordalás.

Atualmente em 5º lugar, em igualdade com a Real Sociedad em 4º , o Getafe tem continuado a impressionar, muito devido à sua identidade bem vincada dentro do campo. Bordalás tem tornado o Getafe numa equipa muito organizada e rigorosa, tanto a defender como nos momentos de transição, nomeadamente na pressão logo a seguir ao momento da perda de bola (conhecido como o Gegenpressing). Pegando nas palavras de Abel Ferreira, que recentemente deu uma aula numa emissão em direto da Quarentena da Bola, o treinador português referiu que “o mais difícil no futebol é conseguires que todos os jogadores pensem a mesma coisa ao mesmo tempo”, e o Getafe de Bordalás mostra que há muito trabalho do treinador em construir a identidade desta equipa.

Deixamos então um vídeo curto que define o ADN deste Getafe: pressão intensa, retirar espaço ao adversário, vencer duelos individuais e partir para o ataque rapidamente:

…Pressionar, retirar espaço, desgastar… Defender para atacar

Parece impossível não falar do Getafe sem começar pela pressão intensa que Bordalás implementou na sua equipa. A equipa tenta quase sempre que os seus adversários não saiam de forma apoiada desde o seu guarda-redes, tentando forçar o passe longo. Um dos dados estatísticos que demonstra a eficiência e o domínio desta pressão ao adversário chama-se PPDA (passes per defensive action, recomendo este artigo da Goalpoint para saber mais sobre estas métricas), onde o Getafe é a equipa da LaLiga que menos passes permite ao adversário no seu meio-campo até desarmar/interceptar/fazer falta, permitindo em média 7.12 passes até realizar uma dessas ações defensivas. Podemos ver e ouvir no vídeo seguinte, com comentários na análise, alguns dos comportamentos mais comuns do Getafe durante a sua pressão após a perda de bola:

O momento defensivo é sem dúvida a imagem de marca deste Getafe. Com a quarta melhor defesa do campeonato (25 golos sofridos, 0.93 por jogo), é também a terceira equipa que menos remates permitiu à sua baliza (3.04 remates por jogo), o guarda-redes totalista David Soria é o guarda-redes com mais jogos sem sofrer golos da Liga, em igualdade com Courtois com 12 jogos sem sofrer.

Quando está organizada no seu momento defensivo, o Getafe apresenta-se no seu 4-4-2, definindo linhas de pressão cumpridas por todos os jogadores, de maneira a que pressione sempre o adversário após a perda de bola e, caso não consiga ter sucesso em ganhar de novo a bola, recua para o seu meio-campo para se reorganizar. A definição dos espaços é uma das características que mais marcante deste Getafe, não só os espaços onde quer pressionar, mas também os espaços onde não quer que o adversário jogue quando a equipa está organizada.

No vídeo seguinte, podemos ver e ouvir algumas das seguintes características do Getafe:

  • Bloco compacto (linhas juntas, não permitir que o adversário jogue dentro do seu bloco)
  • Indicadores de pressão (adversário de costas, passe recuado)
  • Zonas de pressão (encaminhar para o corredor e abafar)
  • Coordenação da linha defensiva com o guarda-redes e linha média

“Eu é que defino o espaço onde vais jogar”…

É este um dos lemas do Getafe. Como já demonstrámos, o Getafe tem como uma das suas armas a definição dos espaços onde quer pressionar, mas também para onde encaminha o adversário. É desta maneira que a equipa prepara a sua pressão, onde muitas vezes recupera a bola e parte para ataques rápidos, criando situações perigosas quando apanha os adversários desequilibrados. A partir do momento em que recupera a bola, os jogadores do Getafe têm liberdade para atacar o espaço nas costas do defesa, sendo agressivos com os seus movimentos e, mais uma vez, tendo a disponibilidade para chegar com muitos homens a zonas de finalização (da mesma maneira que a equipa recupera junta quando perde a bola, ataca junta, e com muitos homens quando a recupera).

Terminamos a abordar o momento do jogo em que o Getafe é muito criticado: o momento ofensivo. O Getafe é apenas a 14ª equipa que mais remata, tal como a 13ª equipa que mais remata à baliza por jogo (apenas 3.59 remates por jogo). É também a 2ª equipa com mais passes falhados por jogo (63.5) e a equipa com menos passes completados por jogo (155.2, o Barcelona lidera com 574.5). Com as estatísticas a não serem as mais entusiasmantes, como é que esta equipa se encontra em 5º lugar numa das melhores ligas do Mundo?

Nem tudo é mau. O Getafe é a 2ª equipa com maior percentagem de ações no último terço, e é também a que menos percentagem de ações tem no seu terço defensivo, algo que pode comprovar que os homens de Bordalás tem um maior número de ações perto da baliza adversária do que da sua (algo que não é comum numa equipa caracterizada como defensiva, mas que se percebe depois de analisarmos a maneira como defende e tenta pressionar o adversário). O Getafe é também o 7º melhor ataque da prova (37 golos, 1.37 por jogo), algo que comprova a eficiência da equipa, comparando com os dados relativos à frequência com que remata, que já referimos em cima. E é esta a palavra que melhor descreve o Getafe quando tem a bola: eficiência. Uma equipa que tenta chegar a situações de finalização o mais rápido possível, que utiliza os seus avançados como jogadores-alvo e aproveita a velocidade dos seus extremos, com Cucurella em destaque, para atacar as costas da defesa contrária, utilizando frequentemente o cruzamento quando chega ao último terço, beneficiando dos muitos homens que coloca na área.

O Getafe de Bordalás tem a sua identidade bem vincada, e é impossível não reconhecer mérito ao trabalho que tem sido feito pelo treinador espanhol de 56 anos. Um futebol muito próprio, contra a corrente do que é o tradicional estilo espanhol, mas que tem os seus resultados e que, como referimos no início do texto, consegue fazer aquilo que é considerado por muitos o mais difícil no futebol: ter todos os jogadores do seu lado, sintonizados e identificados com o que o treinador lhes pede.