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Palmeiras de Abel: um candidato ao bom futebol no Brasileirão

Após o sucesso do Flamengo de Jorge Jesus, que culminou com a conquista do Brasileirão e Libertadores e da contratação de Ricardo Sá Pinto como novo técnico do Vasco da Gama, há agora mais uma nova aposta num treinador português por parte de um histórico brasileiro e com um plantel que almeja à conquista de títulos: Abel Ferreira foi oficializado como novo treinador do Palmeiras.

Mais um reconhecimento dos dirigentes estrangeiros, mais concretamente brasileiros, na qualidade dos treinadores portugueses. Aqui, muito por culpa do êxito de JJ.

Decidimos então refletir sobre os mais recentes trabalhos da sua equipa técnica e tentar antever um pouco do que poderá vir a ser o novo Palmeiras.

SC Braga

Foi na principal equipa dos bracarenses que Abel Ferreira e sua equipa técnica começaram a fazer nome e a ter bons desempenhos na Liga NOS.

Tal como apresentado no line-up, os arsenalistas jogavam num sistema tático de 4-4-2 (no papel). No entanto, era um sistema tático algo camaleónico, uma vez que defensivamente posicionava as suas peças nesse perfil tático, mas ofensivamente a equipa desdobrava-se num 3-4-1-2, com Ricardo Horta a largar o corredor lateral para aparecer atrás dos dois atacantes, com Marcelo Goiano a não subir no terreno de jogo e a sair a jogar numa linha de 3 defesas e Ricardo Horta a largar o corredor lateral para aparecer atrás dos dois avançados centro.

Os corredores laterais ficavam ao cargo dos alas Ricardo Esgaio (extremo adaptado agora a lateral) e a Nuno Sequeira que davam largura e profundidade à equipa nessas zonas do relvado.

Importância que dou à estratégia? O adversário está lá! Meto o adversário nesta equação, eu não vou jogar sozinho… dou a importância necessária que acho que devo dar no modelo de treino, independentemente de ser um adversário mais forte ou mais humilde”

Abel Ferreira in Scout Talks

Neste jogo em concreto, referente à segunda volta da Liga Nos, frente ao que viria a sagrar-se campeão nacional Benfica de Bruno Lage, a equipa de Abel sentiu a necessidade de realizar uma pressão mais alta e agressiva sobre o portador da bola, condicionando e muito a saída a jogar do adversário que na 1ª parte sentiu inúmeras dificuldades.

Com bola ainda colocou, além de Ricardo Horta, também Fransérgio em zonas “entre linhas” (defesa-meio campo) para criar desconforto aos dois médios centro adversários, obrigando-os a ter de recuar mais no terreno de jogo.

Vejo o modelo de jogo de forma muito simplista, como a capacidade que a minha equipa técnica tem para passar mensagens simples, para que cada jogador na sua função dentro de campo, saiba o que fazer. Logo, tento passar 3/4 ideias simples do processo ofensivo, 3/4 ideias simples das transições, 3/4 ideias sobre organização defensiva.”

Abel Ferreira in Scout Talks

Pegando na transcrição de uma frase proferida pelo treinador no evento promovido pela ProScout, podemos debruçar-nos um pouco sobre a sua mais recente experiência pela Grécia, mais concretamente no PAOK.

PAOK

Podemos caracterizar a equipa grega como tendo um modelo de jogo simples, mas ao mesmo tempo eficaz, capaz de esconder algumas lacunas do plantel.

Não tendo a qualidade individual que certamente o técnico português desejaria, muito menos em comparação com o rival direto na luta pelo título (Olympiakos), não deixou de ser uma equipa extremamente competitiva como comprova a vitória no jogo do play-off frente ao Benfica de Jorge Jesus.

Abel Ferreira estruturou a equipa num sistema tático de 3-4-1-2 a atacar e 5-3-2 a defender. Com isto, assegurou que a equipa a defender fosse extremamente competente, rigorosa nas marcações e posicionamentos e agressivos na pressão.

Sem bola, recuava o seu bloco numa pressão baixa, dando a iniciativa ao adversário para subir no terreno de jogo para depois, aquando da recuperação da posse de bola, tivessem espaço na frente para em processos simples e através de passes verticalizados, aproveitar a profundidade dada pelos homens da frente (Tziolis, Zivkovic, Akpom ou Pelkas).

Processos simples mas extremamente eficazes, promovidos pela mobilidade do trio da frente, sempre em constantes trocas posicionais entre si e extremamente precisos no momento da finalização.

Ainda foi capaz de apostar em jovens jogadores como Michailidis (20 anos), Tziolis (19 anos) ou Giannoulis (25 anos), todos eles com rendimento e com um futuro muito promissor pela sua frente.

Palmeiras

No Brasil, penso que as duas experiências que tentamos aqui retratar, irão certamente ser aproveitadas para construir o novo “Verdão”.

O plantel conta com um elenco de jogadores de qualidade e preparados para lutar por títulos, como por exemplo: os experientes Filipe Melo e Ramires; os jovens promissores De Paula e Viña; o guarda redes Weverton (várias vezes selecionável para a canarinha); os criativos e pensadores de jogo Raphael Veiga ou Scarpa; os imprevisíveis e velozes Wesley e Rony nos corredores laterais; ou o “homem golo” Luiz Adriano na frente.

Na era do anterior técnico Vanderlei Luxemburgo, a equipa vivia demasiado da qualidade individual do que poderiam criar os seus executantes. Colectivamente, não se vislumbravam ideias de jogo dinâmicas, sempre num ritmo de jogo demasiado lento e defensivamente sempre concedendo espaços para os adversários explorarem, sem grande agressividade defensiva ou ofensiva

Ora, é aqui que a equipa técnica lusa pode marcar pela diferença.

Um modelo de treinos europeu com maiores intensidades, um modelo de jogo mais metódico e organizado e com um aproveitamento da experiência dos mais velhos, conciliando-a com uma aposta nos jovens talentos, fazendo-os evoluir e conhecer melhor o jogo.

” O modelo de jogo são os comportamentos que queres ver dentro de uma dinâmica coletiva.

E muita coisa cabe nesse modelo de jogo: a história do clube, os objetivos para a época, onde estou…”

Abel Ferreira in Scout Talks

Não poderemos afirmar com certezas qual o sistema de jogo a adotar pelo Palmeiras, o 4-4-2 / 3-4-1-2 camaleónico utilizado em Braga, ou o 3-4-1-2 vivenciado na Grécia, ou até manter o 4-2-3-1 já utilizado apresentando algumas nuances mais no processo ofensivo.

Contudo, conhecendo Abel Ferreira como um fiel defensor das suas ideias e ideais, como o próprio fez questão de o afirmar por diversas vezes no evento promovido pela ProScout (Scout Talks), parece-nos óbvio que a atacar arranjará sempre formas de o fazer com 3 defesas (esteve presente no ADN de todas as equipas por ele treinadas e parece ser já uma assinatura de marca do próprio).

Perspectivando um pouco de como poderá vir a ser o modelo de jogo do futuro Palmeiras, elaboramos um esboço para perceber como se representará a equipa mais em processo defensivo e na outra line-up, como o time se desdobrará mais no processo ofensivo (já mais num sistema de 3-4-1-2, um pouco tendo como base o que foi feito no camaleónico sistema do Braga 2018/2019).

Será, certamente, uma equipa com maior qualidade de jogo, mais imprevisível e que ainda irá muito a tempo de tentar intrometer-se na luta pelo Brasileirão.

Recordemos que ainda antes das conquistas do Flamengo e não há muito tempo, o Palmeiras vinha sendo dono e senhor do campeonato, conquistando-o em 2016 e 2018 e tendo obtido um segundo lugar em 2017. Promete!