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Gerson: retorno do Joker para a Europa

Gerson Santos da Silva está a caminho da França. O camisa 8 do Flamengo foi negociado com o Olympique de Marselha por um acordo no entorno dos 25 milhões de euros e deverá integrar o elenco francês na temporada 2021/22. Formado nos escalões inferiores do Fluminense, o atleta surgiu em 2015 como um médio-ofensivo irreverente, técnico e veloz, inclusive atuando pelos lados do campo, assim destacou-se e foi vendido para a Itália por 16 milhões de euros. Sem muito sucesso em sua passagem europeia, atuou por Roma e Fiorentina antes de retornar ao Brasil 

Com 24 anos agora, Gerson chegou ao Flamengo em 2019 e fez parte das equipas multicampeãs de 2019 e 2020 do rubro-negro, consolidando-se como um pilar do meio-campo flamenguista e um dos melhores jogadores do continente. Um médio “total”, ou um “joker” como diria Jorge Jesus, Gerson possui uma natureza muito particular de como sentir o jogo e isso fica evidenciado em suas temporadas no Brasil com um futebol enérgico, intenso e imprevisível, recolocando-o no radar da seleção brasileira para a Olimpíada de Tóquio. 

Análise

Gerson é um médio que desde que chegou ao Flamengo teve um ambiente propício para desempenhar seu melhor futebol. Tecnicamente refinado, possui uma relação com bola diferenciada e representada pelo domínio, giro e conduções de qualidade, tendo uma liberdade de movimentos grande a partir da base da jogada para ser um dos principais armadores da equipa, um contexto táctico favorável em momentos ofensivos para suas características como jogador. Privilegiado fisicamente é notável como consegue utilizar seu corpo para proteger a posse, levar vantagens sobre os adversários nos duelos e ter potência de arranque. Ademais, vale referência para a concentração e capacidade mental elevadas em ocasiões distintas nos mais variados jogos disputados pelo atleta nesses anos. 

Momento defensivo 

Defensivamente consegue ter ótima leitura de timings de pressão, aliando a já citada aptidão física e biotipo favoráveis nessas situações (1,84cm e 76kg). Em diferentes estruturas (4-1-3-2, 4-2-2-2, 4-2-3-1…), costuma ser o médio defensivo a saltar em pressão sobre os 1º homens de meio-campo adversários, com agressividade para marcar, antecipar e impedir a progressão pelo meio. Em momentos de transição defensiva também é ativo para tentar recuperar a bola rapidamente, principalmente por estar em regiões onde a posse já estava sendo trabalhada em organização ofensiva. 

Estando em etapas de organização defensiva mais recuadas, tem boa compreensão de zonas de pressão, encaixes curtos e coberturas sectoriais, sendo um médio muito completo para diferentes propostas. Logicamente o contexto onde estava inserido propunha um trabalho de pressões maiores e domínio através da posse em momentos ofensivos, ao invés de recuos constantes para defesa posicional. Seus erros nesta fase do jogo estão muito mais correlacionados com desatenções do que propriamente de leitura de espaços.

Momento ofensivo 

Com bola, costuma ser o homem a receber a bola dos zagueiros as costas da primeira linha de pressão adversária. Joga com calma em cenários de saídas de pressão, utilizando-se novamente da força aliada ao domínio orientado para receber, suportar o contato do marcador e girar já eliminando o pressing. 

Já esteve inserido em montagens de construções em 3+1 (sendo o “1”, em tempos de Jorge Jesus com destaque), 3+2 ou 2+2, o ponto aqui está em ressaltar que sempre possuía liberdade para buscar a bola com os defensores e colocar em circulação. Vertical com os passes, consegue encontrar parceiros adiantados entrelinhas com facilidade e também ativar companheiros no lado oposto de ataque com passes longos ou inversões. Embora não tenha uma contribuição direta tão grande em golos ou assistências, é uma peça-chave em momentos ofensivos pela qualidade técnica no controlo/passe e volume de jogo gerado através de acções próprias, sabendo também estar presente em terrenos adiantados por meio infiltrações que abrem espaços para outros avançados explorarem a profundidade. 

Possibilidades no Marselha 

O Olympique de Marselha de Jorge Sampaoli tem tido uma proposta ofensiva de controlo do jogo através da posse. Variando entre algumas estruturas de acordo com os jogadores em campo, parte de uma configuração inicial em 3-5-2 e defesas posicionais em 5-3-2. Os comportamentos e características dos médios costumam ser o fator preponderante para permutas no esquema e diferenciações entre cada atuação. Geralmente postam-se com 1 ou 2 médios defensivos a encostar nos 3 centrais para dar início as jogadas, enquanto outros 2 jogadores adiantam-se em uma zona de atuação atrás do avançado. Aqui a comparação estará atrelada a estes médios que fazem movimentos de descensos para trabalhar as saídas de bola e 2º fase de construção em 3+1 ou 3+2, situação onde Gerson desempenhou de melhor maneira seu futebol mesmo que em uma conjuntura muito diferente da francesa. 

Nesses casos é fundamental que haja uma diferenciação resumida entre cada atleta em primeiro plano para a real compreensão da comparação criada. 

Boubacar Kamara é um médio defensivo francês de 21 anos que também pode actuar como central. Qualidade técnica e critério nos primeiros toques para sair de pressões e iniciar as jogadas, além de capacidade de desarme. É o homem da 1ª altura de meio-campo, recebendo diretamente a bola dos centrais para dar início as construções. 

Pape Gueye é um médio francês canhoto de 22 anos que costuma ser o homem a estar em uma 2ª altura de meio-campo, mas com liberdade para recuar e também participar da iniciação da organização ofensiva. Muito forte fisicamente, consegue utilizar-se bem dessa aptidão para levar vantagens em duelos em trabalho defensivo e contribuir de forma associativa. 

Valentin Rongier é um médio francês de 26 anos que, assim como Pape Gueye, está ligado a uma altura de construção de meio adiantada. Qualidade associativa de forma curta e polivalência para variar de posicionamento entrelinhas, assim como recuos na base da jogada. 

Voltando a análise para a comparação quantitativa entre Gerson com esses jogadores (selecionados por apresentarem uma minutagem maior com relação aos outros médios do grupo do Marselha), fica em destaque que, embora Gerson apresente uma média geral ligada aos passes menor do que os jogadores do Marselha (somente mais passes longos e passes para terço-final do que Rongier), sua taxa de acerto é consideravelmente melhor do que os 3 jogadores. Em dribles a disparidade fica ainda maior, refletindo a boa relação com bola do brasileiro, tanto em média geral quanto em taxa de acerto, assim como em remates a baliza e assistências para os remates. 

Defensivamente, Gerson está atrás dos jogadores na maioria dos critérios, com exceção da taxa de recuperações de bola no meio-campo adversário (56,3%, praticamente 10% a mais do que o segundo melhor colocado) . Algo compreensível pela realidade vivida pelo jogador no Flamengo, mas que ainda assim deverá crescer consideravelmente para que tenha um domínio similar da posição como foi no Brasil. 

Conclusão 

Indiscutivelmente Gerson é uma grande contratação para a equipa de Sampaoli. Com a saída da estrela Florian Thauvin, a chegada do atleta parece estar conectada a supressão da ausência do francês. Entretanto, Gerson é um jogador que precisa estar presente nos primeiros metros de construção, seja como primeiro receptor dos zagueiros ou como 2º homem de meio-campo, afinal o brasileiro tem uma natureza que precisa ser respeitada na relação de proximidade a zona da bola para conseguir jogar em mais alto nível. Com essas condições, terá tudo para ser uma peça-chave do conjunto do Les Olympiens que certamente buscará ambições maiores na próxima época. 



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